sábado, 7 de janeiro de 2012

Mário Lisboa entrevista... Henrique Pina

Olá. A próxima entrevista é com o realizador Henrique Pina. Foi aos 12 anos que decidiu ser realizador de cinema tendo sido licenciado em Film&Screen Practice em Roehampton University em Inglaterra e recentemente realizou a curta-metragem "Tejo" que concebeu em conjunto com o guionista Francisco Baptista (que conhece desde os tempos da Escola Secundária) da qual foi inspirada pelo filmnoir contando a história de um cínico inspetor que investiga um homicídio sinistro tendo também passado por vários festivais de cinema e ficou em terceiro lugar dos prémios Zon-Criatividade Multimédia 2010 e contou com a participação de atores como Filipe Duarte, Adriana Moniz, Miguel Seabra, Ana Bustorff e Rosa do Canto que aceitaram participar no projeto, mas sem remuneração. Esta entrevista foi feita por via email em Junho passado.

M.L: Como é que surgiu a ideia de fazer este projeto?
H.P: A ideia inicial nasceu com a vontade de explorar um género cinematográfico que ainda não havia sido devidamente abordado em Portugal. O Francisco Baptista (argumentista do filme) apresentou-me um guião cuja narrativa seguia assumidamente as linhas conceptuais do filmnoir e que tinha como palco uma cidade que ambos adoramos: Lisboa. Sabíamos que era uma ideia arrojada e um desafio difícil, mas isso também puxou por nós.

M.L: “Tejo” contou com a participação de atores como Filipe Duarte, Adriana Moniz, Miguel Seabra, Ana Bustorff e Rosa do Canto que aceitaram participar no projeto, mas sem remuneração. Como é que conseguiu convencê-los a participar no projeto com essa condição?
H.P: Tudo começa no argumento. Se o argumento for bom, eles acreditam no projeto. Se acreditarem no projeto e na nossa abordagem ao filme, se todos estivermos em sintonia e se ao longo da produção conseguirmos manter as motivações e as ambições bem elevadas é muito fácil ter o privilégio de contar com atores de qualidade a trabalharem connosco empenhados.

M.L: A curta-metragem foi inspirada pelo filmnoir. Este é um tipo de género cinematográfico que lhe agrada muito?
H.P: Tenho alguma dificuldade em dizer que gosto do género x ou y. Acho que é possível encontrar e fazer bons filmes seguindo as linhas condutoras de qualquer género. No caso do filmnoir gosto particularmente das características visuais, do peso que a imagem tem, da forma poética que cada palavra é dita.

M.L: “Tejo” foi exibida recentemente no Auditório Carlos Paredes em Lisboa e no New York Portuguese Short Film Festival em Nova Iorque. Qual foi a reação do público ao projeto, durante essas duas exibições?
H.P: Tivemos um ótimo feedback, o que nos dá imensa força. O "Tejo" foi também recentemente selecionado para o festival internacional de curtas CinemadaMare, o qual possibilitará mais exibições públicas do filme e é isso que nós queremos: que as pessoas vejam o nosso trabalho.

M.L: Qual foi o momento mais marcante para si, durante as filmagens de “Tejo”?
H.P: O momento mais marcante, durante a produção do filme foi a véspera de começarmos as filmagens. Até esse dia, tanto eu como o Francisco (argumentista e co-produtor) não tínhamos parado com contatos para a equipa e a ultimar os preparativos. Quando todos os pormenores ficaram tratados para as filmagens do dia seguinte caiu-me tudo em cima: o peso da responsabilidade de estar a trabalhar com uma equipa de profissionais experientes e atores famosos, as dúvidas em relação à nossa capacidade de executar este trabalho da forma que queríamos, os detalhes de que eventualmente nos teríamos esquecido de tratar, etc. Tomei consciência de que não podia falhar e que se iriam seguir três dias de uma concentração e dedicação extrema. Felizmente correu tudo da melhor maneira.

M.L: Que recordações leva das filmagens de “Tejo”?
H.P: As recordações que mais ficam são as da entrega da equipa. Ver gente daquele calibre, daquela experiência tão dedicada a um projeto que estávamos a criar todos em conjunto foi um privilégio que nunca esquecerei. É por isto que faço cinema.

M.L: De todos os atores do elenco de “Tejo”, qual foi que teve o melhor desempenho na sua opinião?
H.P: Todos. Cada um à sua maneira. No entanto, talvez por nunca o ter visto no ecrã confesso que o Miguel Seabra foi a maior surpresa.

M.L: Como classifica este projeto?
H.P: Nesta fase, depois de já ter visto o filme algumas centenas de vezes é difícil estabelecer uma distância que me permita classificar este projeto. Contudo, olhando especificamente para cada área de um ponto de vista mais técnico acho que o Paulo Segadães com a ajuda do Tó Zé Ribeiro foi um diretor de fotografia incrível, a equipa de som a começar no Jorge Pacheco e a acabar na Ameba fizeram um trabalho extraordinário, a Marta Azenha e a Daniela Coelho possibilitaram um perfeccionismo no guarda-roupa de louvar, o Cauê foi perfeito na maquilhagem e por aí fora. Reconheço em todos esses aspetos, um trabalho notável.

M.L: Como é que surgiu o interesse pelo cinema?
H.P: O interesse pelo cinema surgiu a partir da vontade de contar histórias. Cheguei a um ponto em que se não conseguisse partilhar aquilo que imaginava sufocava. E então aos 12 anos decidi que iria ser realizador de cinema. Depois parecia que quanto mais explorava, quanto mais aprendia, quanto mais pesquisava, maior era o interesse.

M.L: Quais são as suas grandes influências, enquanto realizador?
H.P: Tenho várias e provavelmente vou-me esquecer de algumas. Talvez a maior seja o George Lucas. Um visionário e um lutador tal como (Charlie) Chaplin ou (Alfred) Hitchcock. Com quem eu me identifico mais na forma de contar uma história é o Christopher Nolan especialmente no "The Prestige" (“O Terceiro Passo” (2006) ou "The Dark Knight" (“O Cavaleiro das Trevas” (2008). Noutro ponto de vista sem dúvida aquilo que mais me inspirou até hoje foi a série "Six Feet Under" (“Sete Palmos de Terra” (2001-2005) do Alan Ball.

M.L: Qual foi a longa-metragem que viu e que o marcou até agora?
H.P: "Big Fish" (“O Grande Peixe” (2003) do Tim Burton. Tem um pouco de tudo como a própria vida. E se puder juntar mais um, "Forrest Gump" (1994) pelos mesmos motivos.

M.L: Como vê atualmente o cinema em geral?
H.P: Atualmente, acho que faltam ideias. Por um lado, olhando para o cinema mainstream a sair de Hollywood há demasiadas sequelas, prequelas, remakes e adaptações. É difícil de encontrar um produto genuíno e original de qualidade a sair de lá. Existem, mas quando olhamos para as décadas de 70 e 80 e comparamos, reparamos como estão em minoria. Por outro lado, acho que se faz bom cinema na Europa e em Portugal, mas não se dá qualquer atenção ao valor comercial dos filmes. Gasta-se muito dinheiro em cinema, mas gasta-se mal na minha opinião. Não tenho nada contra o cinema de autor, mas os filmes de ficção são para contar uma história e não para alimentar o ego pseudo-intelectual do realizador. Isto mostra-nos dois extremos do mesmo universo e na minha opinião deve-se encontrar um meio-termo entre o cinema comercial de Hollywood e o cinema unicamente artístico Europeu.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
H.P: Para já, não está nos meus planos. Há muito por fazer em Portugal e é aqui que quero dar continuidade ao meu trabalho em conjunto com o meu argumentista preferido.

M.L: Quais são os atores em Portugal com quem gostava de trabalhar no futuro?
H.P: Cada filme tem as suas personagens e cada personagem merece o seu ator. Há ótimos atores em Portugal, é só uma questão de os relacionarmos às personagens que criamos.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
H.P: Estou agora a produzir um videoclip para ANDYcode (www.andycode.net) e quero fazer uma nova curta-metragem em Setembro.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
H.P: Estou-me a preparar para um projeto futuro, mas é segredo. Dentro de umas décadas espero mostra-lo.

M.L: Se não fosse o Henrique Pina, qual era o realizador que gostava de ter sido?
H.P: O Jean-Luc Godard, só para ver a Brigitte Bardot tantas vezes e com tão pouca roupa.ML

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Mário Lisboa entrevista... Teresa Côrte-Real

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Teresa Côrte-Real. Filha da atriz Madalena Braga e mãe do ator Francisco Côrte-Real, desde muito cedo que se interessou pela representação tendo desenvolvido um percurso que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Cinzas" (RTP), "Verão Quente" (RTP) e "A Grande Aposta" (RTP) para além de ser também professora e em 2012 celebra 40 anos de carreira e recentemente participou nas peças "O Comboio da Madrugada" de Tennessee Williams e "As Bruxas de Salem" de Arthur Miller, dois projetos que contaram com encenação de Carlos Avillez que é o diretor do Teatro Experimental de Cascais da qual é atriz residente desde 1991. Esta entrevista foi feita no passado dia 15 de Setembro no Teatro Rivoli no Porto na altura em que a entrevistada estava em cena com a peça "O Comboio da Madrugada".

M.L: Como é que tem corrido a peça “O Comboio da Madrugada”?
T.C.R: Muito bem. O público do Porto tem sido muito carinhoso e tem corrido muito bem esta etapa de “O Comboio da Madrugada”.

M.L: Como é que surgiu esta peça?
T.C.R: Portanto, nós somos do Teatro Experimental de Cascais. O diretor Carlos Avillez decidiu fazer uma peça com a Eunice Muñoz que já tinha trabalhado aliás com o Teatro Experimental de Cascais há muitos anos e trouxe-nos a peça e trouxe-nos a Eunice para trabalhar connosco.

M.L: “O Comboio da Madrugada” é encenada por Carlos Avillez com quem já trabalhou anteriormente. Como é trabalhar com ele?
T.C.R: Muito bom. Eu conheço o Carlos Avillez há muitos anos, porque ele foi encenador várias vezes da minha mãe que era atriz também, a Madalena Braga. Foi uma atriz que começou aqui no Porto no Teatro Experimental do Porto e que depois começou a trabalhar em Lisboa tinha eu uma idade muito pequena. Portanto, tinha eu por volta de dois anos fui para Lisboa e entretanto eu conheci o Carlos melhor por volta dos meus quinze anos, quando a minha mãe voltou a trabalhar com ele no Teatro Maria Matos e sempre gostei de pensar que um dia viria a trabalhar com ele e em 1991 ele chamou-me para a companhia dele e eu fiquei com ele a trabalhar.

M.L: Qual é a personagem que interpreta nesta peça?
T.C.R: Uma viúva italiana a quem mataram o marido e pressupõe-se que foi a personagem da Eunice, a Sra. Goforth que mandou matar o marido desta mulher.

M.L: Como classifica a sua personagem?
T.C.R: É uma personagem trágica.

M.L: Como é contracenar com Eunice Muñoz?
T.C.R: Extraordinário. Eu já tinha tido esse prazer no “Romance de Lobos” no Teatro Nacional (D. Maria II) que foi encenado por Blanco Gil. Tinha trabalhado com a Eunice nessa altura e agora muitos anos mais tarde tenho trabalhado outra vez e a Eunice é a nossa primeira-dama do teatro e é sempre uma honra trabalhar com ela.

M.L: Como tem sido a reação do público a esta peça?
T.C.R: Muito boa. Como já lhe disse, muito boa tanto em Lisboa (aliás em Cascais e no Estoril, onde é o nosso teatro) como aqui no Porto.

M.L: A peça é um original de Tennessee Williams. Como classifica esta peça?
T.C.R: A peça é sobre a vida de uma mulher extraordinária que por vezes até nos lembra a nossa Eunice Muñoz, uma mulher com uma vida e uma carreira especial e portanto são os dois últimos dias da vida dela tanto até à sua morte.

M.L: Como é que surgiu o interesse pela representação?
T.C.R: Muito cedo (mais ou menos). Eu fiz várias coisas. Comecei por fazer dança, a minha mãe e o meu pai estavam ligados ao teatro e eu por volta dos 19 anos resolvi candidatar-me à Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa no antigo Conservatório Nacional.

M.L: Dedicou praticamente a sua vida profissional ao teatro. Gostava de ter trabalhado mais no audiovisual (Cinema e Televisão)?
T.C.R: Eu trabalhei. Eu fiz dois filmes: um com Franco Zeffirelli que esteve em Portugal há muitos anos (“A Vida do Jovem Toscanini” (1988) e fiz com o Mestre Manoel de Oliveira “Os Canibais” (1988). Depois, cinema não surgiu mais, fiz televisão: fiz bastantes séries, onde eu apareci e fiz há por volta de 4 telenovelas.

M.L: Qual foi o trabalho que a marcou tanto no teatro, no cinema e na televisão, durante o seu percurso como atriz?
T.C.R: Talvez a “Marianna Alcoforado” encenada por Carlos Avillez.

M.L: Um dos seus trabalhos mais marcantes em televisão foi a telenovela “Verão Quente” (RTP), onde interpretou a personagem Cristina Pereira. Que recordações leva desse trabalho?
T.C.R: Muito boas. Portanto, eu trabalhei nessa telenovela com um diretor brasileiro (Regis Cardoso). Foi uma experiência muito boa, onde eu fazia um papel muito positivo de uma rapariga que gostava de um rapaz que gostava de outra, portanto era traída e foi uma telenovela que me deu muito prazer em fazer. Muito prazer.

M.L: Qual foi o momento que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
T.C.R: Não lhe posso dizer, já fiz tanta coisa e gostei de tantos trabalhos que fiz sendo pequenos como grandes que acho que a minha carreira é marcada por muitas alegrias.

M.L: Foi uma das fundadoras da companhia Persona-Teatro de Comédia, C.A.R.L. O que a levou a querer fundar a companhia?
T.C.R: O teatro Persona foi uma companhia fundada pelo Guilherme Filipe, o António Cordeiro e a primeira peça que foi feita nessa companhia foi “O Barbeiro de Sevilha”. Estava grávida do meu filho nessa altura e eles convidaram-me para fazer parte desse primeiro espetáculo e eu fui fazê-lo. Formar uma companhia é sempre uma coisa especial.

M.L: Que recordações leva do tempo em que esteve na companhia?
T.C.R: Muito boas. Estive por pouco tempo, mas que entretanto tive o meu filho e tive que abandonar, mas eles continuaram.

M.L: Como vê atualmente o teatro e a ficção nacional?
T.C.R: Acho que nós temos grandes atores e que se fazem muito boas coisas.

M.L: Gostava de ter feito uma carreira internacional?
T.C.R: Talvez gostasse, mas neste momento isso não se põe como questão.

M.L: Em 2012 celebra 40 anos de carreira desde que começou em 1972. Que balanço faz destes 40 anos?
T.C.R: Com altos e baixos. Portanto em 1972 estreei-me no Teatro Monumental com a peça “Pinóquio” ainda com o empresário Vasco Morgado e enquanto fazia os estudos fui fazendo rádio com a minha mãe e com vários diretores como o Curado Ribeiro, o Varela Silva e depois ingresso na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde eu tiro exatamente o meu curso. É uma carreira com altos e baixos.

M.L: É mãe do ator Francisco Côrte-Real. Como vê o percurso que o seu filho fez até agora?
T.C.R: Muito bom. O Francisco começou nos “Morangos com Açúcar” (TVI), depois ele foi chamado para vários outros trabalhos, já fez dois trabalhos em teatro: um encenado por mim no Teatro da Trindade (“Temparantia-Estou de Dieta”) e outro agora no Teatro Eunice Muñoz com o encenador Celso Cleto (“Casa de Pássaros”). Eu sendo mãe é sempre difícil de sermos objetivos, mas como nasci no teatro tenho do meu filho um grande orgulho e vaidade, porque acho que tem muita qualidade como ator.

M.L: Desde 1991 que é atriz residente do Teatro Experimental de Cascais. Que balanço faz do tempo em que está na companhia?
T.C.R: Muito bom. Com trabalhos muito bons, muito bem-feitos, encenados por Carlos Avillez que é o diretor da companhia, mas é um bom percurso.

M.L: Está com quase 50 anos. Como é que se sente ao chegar a esta idade?
T.C.R: Já tenho 51, fiz este ano 51. Feliz (acho eu), não me considero uma mulher infeliz.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
T.C.R: Não faço ideia, serão os projetos do meu diretor. Entretanto, vou continuar a dar aulas na Escola de Dança Ana Mangericão, onde já dou aulas há muitos anos e também na Escola Profissional de Teatro de Cascais, portanto isto vai ser uma das coisas que eu vou voltar a fazer e com o Carlos é aquilo que ele desejar e quiser.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
T.C.R: Não sei, não tenho assim nenhum sonho em especial.

M.L: Se não fosse a Teresa Côrte-Real, qual era a atriz que gostava de ter sido?
T.C.R: A Eunice Muñoz.ML

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Brevemente...

 Entrevista com... Teresa Côrte-Real (Atriz)
                                                                                           

Mário Lisboa entrevista... Lídia Muñoz

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Lídia Muñoz. Neta da atriz Eunice Muñoz, desde muito cedo que se interessou pela representação tendo sido formada na área da representação pela Escola Profissional de Teatro de Cascais e recentemente participou na telenovela "Mar de Paixão" (TVI) e na peça "O Comboio da Madrugada" de Tennessee Williams que contou com encenação de Carlos Avillez (que foi seu professor, durante o tempo em que esteve na Escola Profissional de Teatro de Cascais), dois projetos que contaram com a participação da sua avó. Esta entrevista foi feita no passado dia 31 de Agosto no Teatro Rivoli no Porto, dia em que a peça "O Comboio da Madrugada" estreou no Teatro Rivoli.

M.L: Como é que tem corrido a peça “O Comboio da Madrugada”?
L.M: Tem corrido muito bem. Nós estivemos em Cascais, durante 3 meses e meio. No princípio era só para ser um mês e meio, mas correu tão bem, tínhamos sempre tanto público que acabou por alargar. Foi ótimo. Nós temos um elenco fantástico, damos todos muito bem e eu acho que isso é muito importante para o trabalho correr bem. Correu muito bem, espero que corra tão bem aqui como correu em Cascais.

M.L: A peça vai passar por outros locais, depois da sua passagem no Porto?
L.M: Eu acho que não. Em princípio que eu saiba não, mas não sei.

M.L: Como é que surgiu esta peça?
L.M: Bem… eu não sei como é que surgiu. A tradução é do meu avô e ele fez de propósito para a minha avó fazer, mas foi há uns anos e entretanto eu fiz a escola do Carlos Avillez e houve uma altura em que o Carlos Avillez me disse: “Vamos fazer “O Comboio da Madrugada” e eu quero que tu faças a Blackie (Frances Black)” e eu na altura disse que sim. Eu ainda estava na escola e quando acabei a escola arrancamos com a peça. Não sei como é que surgiu esta peça.

M.L: “O Comboio da Madrugada” é encenada por Carlos Avillez com quem já trabalhou anteriormente. Como é trabalhar com ele?
L.M: Muito bom. Eu trabalhei anteriormente na escola, não tem nada a ver. Ele era meu professor, foi meu professor, durante 3 anos… É um trabalho completamente diferente, eu ainda estou a aprender… Aqui isto é real, eu tenho que fazer aquilo que ele quer na altura. É um trabalho muito mais rígido, mas tem sido ótimo.

M.L: Qual é a personagem que interpreta nesta peça?
L.M: Sou a Blackie (Frances Black), a secretária da Sr.ª Goforth. A Sr.ª Goforth dita-lhe as memórias e eu escrevo-as e portanto edito-as e trabalho-as. Esse é o meu papel principal. De resto, ela é um bocadinho a razão da Sr.ª Goforth. Ela leva muito à razão, porque a Sr.ª Goforth é uma personagem péssima, é uma mulher muito amarga e a Blackie tenta leva-la à razão, porque gosta muito dela e quer que tudo corra pelo melhor.

M.L: Como classifica a sua personagem?
L.M: Eu adoro-a. É a minha personagem. É uma mulher fria, é uma secretária daquelas… É uma mulher fria que perdeu o marido e por isso vem dar-lhe mais razões de ser uma mulher fria e vive ali no meio da montanha com a Sr.ª Goforth, vive isolada com o resto dos empregados, por isso é que a entrada deste rapaz ali é uma coisa muito nova e muito boa. Pelo menos para a Blackie acha que vai ser uma coisa boa, a chegada do Chris.

M.L: Esta é a primeira vez que contracena com a sua avó, a Eunice Muñoz. Como é contracenar com ela?
L.M: É ótimo. É muito cómodo, porque nós temos uma grande ligação uma com a outra e acho que é mais simples trabalhar com alguém com quem temos esta ligação e em quem podemos confiar. Eu posso confiar tudo nela e eu acho que ela pode confiar em mim e é muito mais fácil trabalhar assim. Claro que é o peso da responsabilidade. É a minha avó, a Eunice Muñoz e eu tenho que estar um bocadinho à altura, um bocadinho só, mas tem sido ótimo. Ela é fantástica.

M.L: Como tem sido a reação do público a esta peça?
L.M: Tem sido muito boa. Eu acho que as pessoas gostam imenso e chamam mais público, falam entre elas para vir mais pessoas. Tem sido ótima. Acho que sim, acho que tem gostado muito. Espero que sim.

M.L: A peça é um original de Tennessee Williams. Como classifica esta peça?
L.M: Eu gosto muito da peça. É uma peça que poderia ser perfeitamente de agora, acho que podia exatamente haver uma senhora numa montanha a viver agora isto. É uma peça muito atual. Eu gosto muito da peça, eu gosto muito do Tennessee Williams, por isso…

M.L: Recentemente integrou o elenco da telenovela “Mar de Paixão” (TVI) que também contou com a participação da sua avó da qual interpretou a vilã Luísa Noronha. Como correu este trabalho?
L.M: Correu muito bem. Eu adorei. Para começar, foi a primeira vez que eu fiz televisão e foi muito bom. Eu não trabalhei com a minha avó, ela estava de um lado (dos pescadores)… exatamente eu era a Luísa Noronha, era a secretária do vilão. Ela fazia ali umas coisas muito más, mas foi muito bom. Foi uma experiência ótima.

M.L: “Mar de Paixão” marcou a sua estreia na televisão. Como é que se sentiu ao entrar numa produção televisiva?
L.M: Foi muito bom. Não tem nada a ver com o teatro. Nós no teatro temos os ensaios, temos uma preparação, ali é tudo na altura. É muito mais rígido, mas é tão bom. Eu gostei muito.

M.L: Como é que surgiu o interesse pela representação?
L.M: Essa pergunta toda a gente me faz. Isso é muito difícil de responder, porque foi uma coisa tão natural. Acabei o 9º ano, cheguei à casa e disse: “Bem, eu agora não sei o que vou fazer. Vou para a escola de teatro. Acho que sim”. Eu acho que foi naturalmente, não foi uma coisa que eu tivesse pensado muito. Foi natural, eu passava muito tempo no teatro com a minha avó e sempre adorei teatro, sempre fui ao teatro desde miúda e foi uma coisa que aconteceu.

M.L: Quais são as suas grandes influências, enquanto atriz?
L.M: Não sei. São tantas. Acho que as minhas maiores influências são as pessoas, é toda a gente que passa na minha vida e que me ajuda no meu trabalho. Não sei, é difícil responder a isso.

M.L: Como vê atualmente o teatro e a ficção nacional?
L.M: Não sei. É a minha vida. A minha vida é toda passada no teatro. Eu ali vejo tudo, vejo o passado, vejo o presente… Tudo acontece no teatro como acontece na televisão, mas mais no teatro. Tudo passa por aqui.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
L.M: Gostava, mas eu gosto muito de estar aqui. Eu gosto muito de Portugal, eu gosto muito de trabalhar aqui, gosto muito da minha língua. Não sei, se surgir mais tarde claro que sim, mas por enquanto quero estar aqui.

M.L: Houve algum momento que a tenha marcado até agora, enquanto atriz?
L.M: Este momento, este espetáculo.

M.L: Quais são os atores em Portugal com quem gostava de trabalhar no futuro?
L.M: Não sei, nunca me tinham perguntado isso. Gostava muito de trabalhar com o Albano Jerónimo, com o Marco D'Almeida (que são atores que gosto muito), com a Maria José Paschoal… Não sei, eu admiro todos os atores. Eu acho que nós somos tão bons, nós achamos que não, mas nós temos tantos atores bons e nós somos tão bons. Eu acho que sim.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
L.M: Agora vou para o Conservatório (Escola Superior de Teatro e Cinema), vou começar o Conservatório em Outubro. Entretanto, tenho uma peça para fazer que é um projeto meu e de um amigo meu, mas pretendo avançar com esse projeto o mais depressa possível, enquanto estou a fazer o Conservatório. Fazer à noite o espetáculo.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
L.M: Cinema, gostava muito de fazer cinema. Eu ainda não fiz.

M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?
L.M: Nada, está tudo perfeito na minha vida agora.

M.L: Se não fosse a Lídia Muñoz, qual era a atriz que gostava de ter sido?
L.M: Eu acho que ninguém, eu gosto de ser eu. Eu gosto de ser eu, gosto de aprender. Eu gosto de ser eu, não quero ser ninguém.ML

domingo, 1 de janeiro de 2012

Mário Lisboa entrevista... Rita Alagão

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Rita Alagão. Desde muito cedo que se interessou pela representação, mas sempre contrariou esse interesse até que aos 12 anos viu a peça "A Castro" no Teatro da Comuna da qual ficou completamente fascinada e a partir daí sentiu que podia estar ali o resto da sua vida e desde aí desenvolveu um percurso como atriz (onde passou pelo teatro, pelo cinema e pela televisão da qual entrou em produções como "Desencontros" (RTP), "Filhos do Vento" (RTP), "O Olhar da Serpente" (SIC), "Queridas Feras" (TVI), "Mundo Meu" (TVI), "Morangos com Açúcar" (TVI) e "Rebelde Way" (SIC), encenadora, diretora de atores e professora para além de ser também uma das sócias da loja de decoração "Chama-me Rústico" situada em Lisboa e recentemente foi diretora de atores da série infanto-juvenil "Portal do Tempo" que é baseada na coleção literária escrita por Vera Sacramento e Sara Rodi e que vai estrear brevemente na TVI. Esta entrevista foi feita por via email em Setembro passado.

M.L: Como é que surgiu o interesse pela representação?
R.A: Sempre existiu, no entanto, sempre o contrariei. Quando vi "A Castro" no Teatro da Comuna (devia ter cerca de 12 anos) fiquei completamente fascinada e senti que podia estar ali o "resto da minha vida". A Luzia Paramés, a Ana Zanatti e a Lia Gama foram as atrizes "responsáveis” pelo meu interesse pela interpretação. Posso juntar a estas três, a Paula Mora. Queria SER, não só ver!

M.L: Durante o seu percurso como atriz fez teatro e televisão, mas pouco cinema. Gostava de trabalhar mais nesse género?
R.A: Sim, com certeza. As oportunidades ainda não surgiram.

M.L: Qual foi o trabalho num destes géneros que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
R.A: Gosto de personagens que impliquem uma pesquisa efetiva pelas características que as distinguem das demais. Adorei fazer uma cigana, gosto de personagens com patologias e de personagens de época.

M.L: Já fez telenovelas. Este é um género televisivo que gosta muito de fazer?
R.A: Gosto muito de fazer novelas como outros géneros televisivos.

M.L: Como lida com a carga horária, quando grava uma telenovela?
R.A: Com muita organização pessoal e uma agenda cuidada do tempo disponivel.

M.L: Um dos seus trabalhos mais marcantes em televisão foi a telenovela “O Olhar da Serpente” (SIC), onde interpretou a personagem Leontina. Que recordações leva desse trabalho?
R.A: Bastante boas. Tive muita pena que o projeto não tivesse a visibilidade que (penso) merecia.

M.L: Qual foi o momento que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
R.A: Uma cena dos "Ballet Rose" (RTP). Uma festa em Cascais, onde se juntavam mulheres e crianças. Sendo um documento vivo de um passado muito recente e verdadeiro senti-me muito incomodada e emocionada com tudo o que algumas mulheres passaram.

M.L: Como vê atualmente o teatro e a ficção nacional?
R.A: Bastante bem. Tenho muita pena que a RTP não tenha mais ficção.

M.L: Gostava de ter feito uma carreira internacional?
R.A: Sem duvida nenhuma. Hoje teria feito por isso se iniciasse. Passo a vida a dizer isso aos meus alunos. Cada vez mais vivemos num mundo sem fronteiras, os atores também se devem adaptar a essa realidade.

M.L: Além da representação também é professora e é uma das sócias da loja de decoração “Chama-me Rústico” situada em Lisboa. Como é que surgiu estas duas vertentes?
R.A: Sou Professora há mais tempo do que sou atriz. Estudei piano e dança, durante muitos anos e aos 16 anos comecei a dar aulas de piano para ir ao sábado à noite ao "Maria Bolachas" e pôr gasolina na mota. Seguiram-se as aulas de Dança, coreografias para classes de ginástica de competição, Jardins de Infância. A seguir a ter acabado o Conservatório começaram as aulas no ensino superior e mais tarde tirei o CAP para ser formadora. Os workshops de Interpretação para Televisão, de casting, a formação de atores e as aulas particulares sempre foram uma constante na minha vida. Adoro formar, sinto-me muito realizada em partilhar conhecimentos. Não existem verdades absolutas, mas acredito no esforço, no empenho, na dedicação e na seriedade das relações da aprendizagem. Criar método é fundamental.

M.L: Qual foi a personalidade da representação que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
R.A: Tenho referências de atrizes. Marcaram-me várias. Nacionais pela evidência do que expliquei, destaco essas. Internacionais: Meryl Streep, Susan Sarandon, Sandra Bullock, Betty Davis e Judy Garland.

M.L: Fez recentemente 44 anos. Como é que se sente ao chegar a esta idade?
R.A: Muitíssimo bem. Orgulho-me de cada momento de felicidade e frustração que tenha tido. Essa sou eu. O somatório de tudo.

M.L: Que balanço faz da sua carreira?
R.A: Teatro, Televisão, Direção de Atores, Dobradora, Publicidade, Formadora, Professora do Ensino Superior. Penso que tenho as bases para ainda criar muito mais! É o que espero!

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
R.A: Tenho dois, mas por princípio nunca falo de nada que não tenha a certeza que se vai concretizar. Em Outubro inicio os workshops para adultos e crianças de Técnicas de Interpretação para Televisão, inicio as aulas de piano, o coaching com atores e figuras publicas. Faço workshops alargados e intensivos para todo o continente e ilhas. Informações em r_alagao@sapo.pt!

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
R.A: Morar um ano em Barcelona. Trabalhar lá e fazer alguma formação!

M.L: Se não fosse a Rita Alagão, qual era a atriz que gostava de ter sido?
R.A: Nenhuma, gosto muito de ser quem sou.ML