domingo, 21 de outubro de 2012

Brevemente...

Entrevista com... Lídia Franco (Atriz)

Mário Lisboa entrevista... Sara Barros Leitão

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Sara Barros Leitão. Natural do Porto, desde muito cedo que se interessou pela representação tendo-se estreado na representação em 2007 ao participar na 5ª temporada da série "Morangos com Açúcar" (TVI) da qual interpretou a vilã Jennifer Brown e desde aí tem desenvolvido um interessante e versátil percurso que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Olhos nos Olhos" (TVI), "Sentimentos" (TVI) e "Laços de Sangue" (SIC) e recentemente participou na micropeça "O Coro dos Amantes a Caminho do Hospital" de Tiago Rodrigues que contou com encenação de Joaquim Nicolau e que esteve em cena no recém-inaugurado Teatro Rápido que é um projeto da Encena-Agência de Atores da qual é agenciada e cujo o objetivo é apresentar espetáculos de microteatro e o espetáculo "Era uma vez... uma Princesa" que marcou a sua estreia na encenação e atualmente está a participar na telenovela "Doida por Ti" da autoria de Maria João Mira e que vai estrear brevemente na TVI e é autora e encenadora da micropeça "As coisas pelos nomes" que conta com as participações de Sofia Santos Silva e de Diana Nicolau e que está em cena no Teatro Rápido, durante o mês de Outubro. Esta entrevista foi feita por via email no passado dia 1 de Setembro. 

M.L: Como é que surgiu o interesse pela representação? 
S.B.L: Não posso dizer aquele chavão de "sempre quis ser atriz", porque não é verdade. Queria ser cabeleireira, funcionária de uma caixa de supermercado ou secretária num escritório para poder usar óculos. Não posso também dizer um outro chavão que é "ao tornar-me atriz sou estas profissões todas", porque também não é verdade: ou se é atriz ou cabeleireira! Na verdade, a minha história é tanto banal como desinteressante: sentia-me melhor a falar em público do que fechada no quarto e só tinha boas notas na escola, quando podia transformar as apresentações de trabalhos em peças de teatro em vez de dossiers comuns. Quando surgiu a altura de decidir escolhi estudar Teatro.


M.L: Quais são as suas grandes influências, enquanto atriz?
S.B.L: Parece-me que as influências para os atores dependem (sobretudo) da personagem que estão a interpretar. Mas tenho inúmeras influências que regem a minha vida e me ditam princípios básicos que passam por livros, músicas, pessoas, momentos específicos, fotografias, quadros, atores, interpretações, filmes, textos, conversas, locais, frases, culturas… Mas este é um assunto para muitas horas… No entanto, para mim, as principais influências de uma vida passam pela Arte e dentro de todas as formas de arte considero a Música a mais perfeita delas todas.

M.L: Fez teatro, cinema e televisão. Qual destes géneros que lhe dá mais gosto em fazer?
S.B.L: São formatos bastante distintos e que reclamam técnicas diferentes. O que eu gosto é de Interpretar e isso é possível em qualquer formato. Felizmente tiro prazer de qualquer trabalho que faça.

M.L: Qual foi o trabalho num destes géneros que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
S.B.L: Eu sou tão pequenina para responder a esta pergunta. O meu percurso é minúsculo e contam-se pelos dedos das mãos os trabalhos que fiz... Mas se tivesse que escolher o que mais marcou o meu crescimento, enquanto atriz foi a peça "Romeu e Julieta" encenada por Eduardo Alonso e co-produzida pelo Teatro do Bolhão e Centro Dramático de Viana. Esta peça não exigiu uma parte de mim, exigiu-me por completo. O processo para chegar a essa entrega é algo que guardo com muito carinho.

M.L: Já fez telenovelas. Este é um género televisivo que gosta muito de fazer?
S.B.L: Não vejo novelas e admiro imenso quem as faz sejam atores, técnicos, caracterizadores ou produtores! Pessoalmente, é um trabalho que adoro fazer e que me estimula muito, enquanto atriz. Gostava que todos os atores pudessem (um dia) passar por esta experiência de fazer ficção, porque acredito que é fundamental exercitar a rápida capacidade de resposta num formato em que o "tempo" é precioso.

M.L: Como lida com a carga horária, quando grava uma telenovela?
S.B.L: Não tenho legitimidade para dizer que lido bem ou mal, quando trabalho com uma equipa técnica que trabalha doze horas por dia, de segunda a sexta, monta e desmonta todo o material e no fim do dia ganha uma miséria. Com isto, posso dizer que lido muito mal. Além disso, se trabalhar numa novela como ator fosse assim tão violento não víamos tantos a sair à noite.

M.L: Um dos seus trabalhos mais marcantes em televisão foi a telenovela “Sentimentos” (TVI), onde interpretou a personagem Rute Dias. Que recordações leva desse trabalho?
S.B.L: Ruy de Carvalho, Ruy de Carvalho e Ruy de Carvalho. É um prazer ter sido paga para poder estar perto deste senhor, ouvi-lo, falar e contracenar com ele. Adorei o ambiente da novela, fiz amigos fora de série e a Rute tem um lugar especial na minha memória.

M.L: Qual foi o momento que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
S.B.L: Foi precisamente, depois de ter acabado as gravações de “Sentimentos”, onde interpretei uma rapariga de 17 anos que engravidava e decidia que queria levar a gravidez até ao fim e receber o filho de braços abertos. Eu estava no Porto, na Estação de Campanhã, a entrar para o comboio, quando vem uma adolescente ter comigo, muito emocionada. Agarrou-me nas mãos e com lágrimas nos olhos, agradeceu-me a inspiração que a minha personagem tinha sido para ela e para a sua família. Disse que quando descobriu que estava grávida tinha coincidido com o momento em que passava no ar o drama da Rute. O fato da personagem ter lutado contra a sua família para ter o filho e ter conseguido convencê-los de que a vida não terminava ali, que havia outras soluções para além de abortar fez com que a família da rapariga aceitasse (também) a sua gravidez apesar dos seus 16 anos. Muitas lágrimas depois, abraçámo-nos e eu senti aquela barriga cheia de felicidade que se manifestava imponente entre nós. Foi indescritível.

M.L: Como vê atualmente o teatro e a ficção nacional?
S.B.L: São dois assuntos completamente diferentes que estão também em situações completamente diferentes. Acho que a minha opinião é ingénua e pouco fundamentada e por isso não tenho o direito de a partilhar.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
S.B.L: Gosto de estar cá e do que tenho cá. No dia em que Portugal não chegue para mim logo vejo o que há lá fora e direi se gosto.

M.L: Vive em Lisboa, mas nasceu no Porto. Já alguma vez se arrependeu de ter decidido ir viver para Lisboa?
S.B.L: Na verdade, eu vivo mais no comboio Intercidades da CP do que propriamente em alguma destas cidades. Eu sou do Porto, pertenço ao Porto e voto no Porto. Trabalho em Lisboa, vivo em Lisboa e sou feliz em Lisboa. Estou em ambas as cidades, todas as cidades, impreterivelmente. Nunca me arrependi de ter mudado a minha vida aos 16 anos. Antes pelo contrário, sou uma privilegiada por (aos Domingos) acordar com vista para a Ribeira e (300 quilómetros depois) ver a ponte 25 de Abril ao pôr-do-sol.

M.L: Recentemente participou na micropeça “O Coro dos Amantes a Caminho do Hospital” de Tiago Rodrigues que contou com encenação de Joaquim Nicolau e que terminou no passado dia 31 de Maio. Como correu este trabalho?
S.B.L: Foi maravilhoso! Este foi um projeto meu. Escolhi o texto, o outro ator e o encenador. Sou apaixonada pelo trabalho do Tiago Rodrigues e entrei em pânico, quando percebi que ia mesmo interpretar um texto dele. Na verdade, o meu preferido! Não tenho palavras para agradecer ao ator Edi Gaspar e ao encenador Joaquim Nicolau. Foi um projeto especial, muito cansativo e que exigia uma dedicação incrível. Adorei poder fazê-lo.

M.L: A micropeça esteve em cena no recém-inaugurado Teatro Rápido que é um projeto da Encena-Agência de Atores da qual é agenciada e cujo o objetivo é apresentar espetáculos de microteatro. Como vê esta iniciativa por parte da agência?
S.B.L: Extremamente inteligente! O projeto em si é uma ideia brilhante e nos dias de hoje não podia ser mais pertinente. Em primeiro lugar, porque pretende abranger um público que não é o público que costuma ir ao Teatro. Em segundo, porque dá oportunidade a qualquer pessoa de poder desenvolver uma ideia, um texto, um conceito sem depender de concursos e subsídios. Por último, por ser uma agência de atores que não só procura trabalho para os seus agenciados, como ela própria cria esses trabalhos.

M.L: Anteriormente estreou-se na encenação com o espetáculo “Era uma vez… uma Princesa” da qual também participou. Que balanço faz da sua primeira experiência na encenação?
S.B.L: Eu sou uma formiga no mundo do Teatro. Nunca se pode dizer que aquilo tenha sido uma encenação! Foi um grupo de jovens que queriam fazer Teatro, tinham ideias e vontade, não tinham dinheiro, mas não fez mal! Juntamo-nos e criámos. Um escreveu, outro compôs, outros improvisavam e a minha função foi harmonizar tudo em palco.

M.L: Quais são os atores em Portugal com quem gostava de trabalhar no futuro?
S.B.L: Eu adoro atores. Quero dizer, eu adoro pessoas. Gosto de perceber como temos que nos moldar uns aos outros de forma a que podermos conviver e trabalhar. Gosto de conhecer pessoas novas, diferentes, gosto de aprender e gosto que me façam duvidar dos princípios que considero elementares, que me tirem da zona de conforto. Dessa forma, se enumerasse alguns nomes estaria a excluir um enorme conjunto de pessoas que não conheço, que nem sei que existem, mas que estão algures no mundo e têm alguma coisa para me ensinar.

M.L: Em 2011, Portugal conquistou o seu segundo Emmy com a telenovela da SIC “Laços de Sangue” da qual participou. Como vê este reconhecimento internacional?
S.B.L: A novela era muito boa e mereceu esse reconhecimento. A equipa e o elenco trabalharam muitíssimo bem e é sempre um orgulho, quando o nosso pequeno Portugal rasga as fronteiras e se mostra ao mundo.

M.L: Qual foi a pessoa que a marcou, durante o seu percurso como atriz?
S.B.L: Foi a atriz Luísa Cruz. Já acompanhava o seu percurso em Teatro há muitos anos e desde o dia em que a conheci que tenho a certeza que quando for grande quero ser metade do que ela é. Admiro-a como pessoa, como atriz e como profissional…

M.L: Que balanço faz da sua carreira?
S.B.L: Eu quase não tenho carreira, quanto mais fazer um balanço dela! Ainda preciso de muito tempo para aprender e conquistar. E depois, preciso ainda que passe mais tempo sobre essas aprendizagens e conquistas para eu poder distanciar-me ao ponto de conseguir refletir sobre elas.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
S.B.L: Neste momento, estou a gravar a novela “Lua de Papel” (título provisório de "Doida por Ti") que vai estrear na TVI. Paralelamente comecei as rodagens da longa-metragem independente “Pecado Fatal” e tenho um novo projeto a estrear no Teatro Rápido em Outubro.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
S.B.L: Gostava de experimentar viver sozinha noutro país.

M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?
S.B.L: A única coisa que podia mudar neste momento da minha vida é o valor que pago de Segurança Social!!! Tudo o resto, já sou muito felizarda por ter.ML

sábado, 20 de outubro de 2012

Brevemente...

Entrevista com... Sara Barros Leitão (Atriz)

Mário Lisboa entrevista... Sara Rodi

Olá. A próxima entrevista é com a escritora Sara Rodi. Desde muito cedo que se interessou pela escrita tendo em 2000 lançado (aos 22 anos) os seus dois primeiros livros intitulados "A Sombra dos Anjos" e "Frio" (que foi reeditado em 2011 pela sua editora O Livro da Minha Vida) e desde aí desenvolveu um percurso como escritora que passa pela literatura, pelo guionismo (da qual escreveu produções televisivas como "Ganância" (SIC), "O Olhar da Serpente" (SIC), "Queridas Feras" (TVI), "Morangos com Açúcar" (TVI), "Mundo Meu" (TVI), "Floribella" (SIC), "Vingança" (SIC), "Resistirei" (SIC) e "Maternidade" (RTP), pela dramaturgia e pelo jornalismo e em 2007 fundou juntamente com a arquiteta Ana Correia Tavares, a editora O Livro da Minha Vida (onde desempenha a função de Diretora de Conteúdos) que é uma editora dedicada à publicação de biografias personalizadas com edições limitadas e recentemente lançou a coleção literária "Portal do Tempo" que escreveu juntamente com Vera Sacramento cuja a adaptação para televisão vai estrear brevemente na TVI e a biografia "D. Estefânia-Um Trágico Amor" sobre D. Estefânia Hohenzollern-Sigmaringen que foi rainha de Portugal até à sua morte aos 22 anos e foi deixado um hospital com o seu nome: o Hospital D. Estefânia em Lisboa. Esta entrevista foi feita no dia 20 de Outubro.


M.L: Como é que surgiu o interesse pela escrita? 
S.R: Quando tinha 6 anos resolvi escrever uma história a partir de um sonho que tinha tido. Foi com a ajuda da minha mãe que fez comigo um pequeno livro para oferecer à minha professora. Foi uma experiência que me entusiasmou muito e a partir daí nunca mais parei de escrever: diários, contos, peças de teatro, poesia... Aos 20 anos resolvi abraçar um desafio maior e escrever um romance. Aproveitei as férias de Verão e em vez de um romance escrevi dois. Soube entretanto de uma editora (a Contemporânea Editores) que andava à procura de novos autores. Enviei para lá os meus manuscritos e eles resolveram publica-los (“A Sombra dos Anjos” e “Frio”). Foi uma grande experiência, mas que infelizmente não terminou muito bem, porque a editora fechou algum tempo depois. Desapontada, acabei por enveredar por outra área que descobri entretanto: o guionismo. Tinha estudado seis meses em Barcelona (cidade com uma grande tradição de cinema) e acabei por ter várias cadeiras nessa área. Quando regressei a Portugal surgiu uma oportunidade de escrever a primeira novela da SIC chamada “Ganância”. Trabalhei com a autora brasileira Lúcia Abreu e depois com o Francisco Nicholson que considero o meu grande padrinho de profissão. Nos dez anos seguintes estive envolvida em cerca de 11 novelas e 7 ou 8 séries... foram anos de um trabalho muito intensivo e absorvente, mas que foram também uma grande escola para tudo o mais que tenho vindo a fazer. Neste período de tempo surgiu a possibilidade de fazer um livro a partir de uma novela (“O Olhar da Serpente” (SIC) que escrevi com a Felícia Cabrita. Foi o meu regresso aos livros na altura com o editor Alexandre Vasconcelos e Sá (que recentemente fundou uma nova editora de nome Divina Comédia) que começou a desafiar-me para trabalhos de ghostwriting que consistem em escrever livros para outros autores que têm histórias para contar ou conhecimentos para transmitir, mas não são escritores. Estes trabalhos foram e são (porque ainda os faço) experiências muito interessantes, onde eu entro na pele desses autores e tento escrever de uma forma com a qual eles se identifiquem, aprendendo com eles os mais diversos conhecimentos e perspetivas de vida. Surgiu depois a oportunidade de escrever livros infanto-juvenis a partir das séries “Morangos com Açúcar” (TVI) e mais tarde da “Floribella” (SIC) nas quais trabalhei. Sentia-me cada vez mais à-vontade no mundo dos livros e sabia que era por aí que deveria seguir. Foi então que em 2005 criei uma coleção infantil com a minha grande amiga e ilustradora Cristiana Resina. Batemos a várias portas e chegamos à fala com o editor infanto-juvenil da ASA (que hoje pertence ao grupo Leya) Vítor Silva Mota. Assim nasceu a coleção “Clássicos a Brincar” que começamos a levar a escolas e bibliotecas de todo o país. Esta coleção tem 5 títulos editados e nasceram entretanto outras coleções como “Maria & Sebastião” (4 livros editados), “Leo, o Menino do Circo” (7 livros editados e 4 de atividades) e mais recentemente para a editora Objectiva, a coleção “Portal do Tempo” escrita em parceria com a Vera Sacramento. Esta última coleção (juvenil) tem vindo a ser adaptada para televisão pela TVI e a série estreará muito em breve ao fim-de-semana. Entretanto e porque o ritmo da televisão se coadunava cada vez menos com a minha vida familiar (hoje tenho quatro filhos) pensei em criar um projeto meu, ligado aos livros. E assim nasceu O Livro da Minha Vida que dava a possibilidade a qualquer pessoa, empresa, entidade de ter a sua história transformada em livro numa edição limitada. Desafiei a Ana Correia Tavares (que era uma arquiteta) a entrar comigo neste projeto e a fazer o design dos livros. Inicialmente foi complicado, porque era uma ideia inovadora, tivemos que inventar fórmulas e formas de trabalhar, mas felizmente começamos a perceber que havia uma série de pessoas interessadas em ter o seu livro com a sua história, para partilhar com amigos, descendentes, colegas, clientes... E a verdade é que (em quatro anos) já fizemos perto de 200 livros. Para além destes, relancei em 2011 um dos meus primeiros romances (“Frio” pela editora LIMIVI) e também (mais recentemente) um romance histórico (“D. Estefânia-Um Trágico Amor” pela Esfera dos Livros).


M.L: Qual foi o trabalho que a marcou, durante o seu percurso como escritora? 
S.R: É difícil responder, porque cada livro tem marcado um momento diferente, mas sempre especial da minha vida. Os livros são filhos. É impossível dizermos que gostamos mais de uns do que outros, porque são todos diferentes e temos uma ligação própria com cada um deles.


M.L: Além da literatura também teve experiências como guionista, dramaturga e jornalista. Qual destas funções em que se sente melhor?
S.R: No jornalismo e na dramaturgia tive experiências pequenas. Gostaria muito de voltar a investir nesta última área que me agrada bastante. Mas não há dúvida de que (devido à minha experiência profissional) as áreas em que me sinto mais confortável são as do guionismo e literatura.

M.L: Um dos seus trabalhos mais marcantes, enquanto guionista foi a telenovela “O Olhar da Serpente” (SIC) da autoria de Francisco Nicholson e da jornalista Felícia Cabrita, com quem escreveu o livro com o mesmo título. Que recordações guarda desse trabalho?
S.R: Foi muito interessante. A “Ganância” (que antecedeu “O Olhar da Serpente”) passou por bastantes percalços inclusive a mudança de autor. Também foi a minha primeira novela e tinha muito a aprender. 
Em “O Olhar da Serpente” já estava com outra segurança e o projeto foi desenvolvido de raiz com o Francisco Nicholson (autor), a Vera Sacramento (hoje Diretora de Conteúdos da Coral Europa) e a Lúcia Feitosa (que continua ligada à Plural) que escreveram a novela comigo. O Francisco Nicholson foi um grande mentor (para mim) pelos seus rasgos criativos e também pela sua forma de encarar a vida que a mim me diz muito.

M.L: Qual foi o momento que mais a marcou, durante o seu percurso como escritora?
S.R: Talvez o lançamento do meu primeiro livro na Fnac do Chiado. Tinha 22 anos, era muito inexperiente, mas foi um momento muito marcante em que senti que ia de fato abraçar o meu sonho de criança e ser escritora.

M.L: Como vê atualmente a Cultura em Portugal?
S.R: É inegável que tem havido um desinvestimento em virtude da crise que está instalada, mas uma crise não se ultrapassa sem um investimento no ser humano e esse investimento tem de passar pela cultura. O Estado tem essa responsabilidade (naturalmente), mas todos nós (individualmente) também a temos, quer no fomento da nossa própria cultura, como no fomento da cultura nas gerações mais novas. É importante que as crianças de hoje em dia entendam a importância da cultura para que um dia a valorizem mais do que as gerações atuais. Penso que está a ser feito um trabalho muito interessante a esse nível, nas escolas, através de professores empenhados que têm sabido colocar os recursos que têm ao dispor dos alunos. Nunca como antes as escolas tiveram bibliotecas tão equipadas, visitas de escritores, acesso a informação, aulas de música, dança, expressão dramática, visitas a teatros e outros espetáculos... Os alunos beneficiarão com isso e, em última instância, todos nós, porque esta nova geração irá dar mais valor à cultura, é a minha convicção. E, consequentemente, será também uma geração mais criativa, o que se refletirá no mercado de trabalho a vários níveis.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
S.R: Portugal é um mercado muito pequeno, portanto com certeza que gostaria que as minhas histórias não tivessem fronteiras… Um dos meus sonhos é que um livro meu fosse transformado num filme com projeção internacional. É uma grande ousadia, mas sonhar é importante, para renovarmos os nossos objetivos todos os dias e trabalharmos para eles.

M.L: Também é Diretora de Conteúdos da editora O Livro da Minha Vida que fundou juntamente com a arquiteta Ana Correia Tavares em 2007. Que balanço faz do percurso que a editora fez até agora?
S.R: É muito gratificante, por um lado, porque é sempre uma emoção para quem requisita os nossos serviços ver a sua história transformada em livro e partilhada com aqueles que mais preza. Por outro lado, parece-me uma tarefa muito importante, porque estamos a deixar para o futuro um conjunto de histórias pessoais que refletem o que foi e é Portugal neste século. Temos recolhido histórias de pessoas com 80 e 90 anos que falam de um Portugal que já não existe e que as novas gerações nem imaginam que existiu. É importante deixar estas histórias registadas e o livro continua a ser a melhor forma de as perenizar.

M.L: Qual foi a personalidade da Cultura que a marcou, durante o seu percurso como escritora?
S.R: Em primeiro lugar foi uma pessoa chamada Eduardo Prado Coelho que foi o meu professor na faculdade. Foi a primeira pessoa que leu “A Sombra dos Anjos” e que me incentivou a envia-lo para as editoras. Nessa altura, o livro chamava-se “Anjo Negro”, mas como já existia um livro com esse mesmo nome (de Antonio Tabucchi), foi Eduardo Prado Coelho quem sugeriu o nome que depois ficou. Também me marcou muito a Luísa Mellid-Franco, que fez a primeira crítica aos meus livros, no Expresso e o Carlos Pinto Coelho que leu por acaso os meus livros e me convidou para programa “Acontece” (RTP2) como escritora-revelação. Tenho também que voltar a referir o Francisco Nicholson (pelas razões que já enunciei) e mais recentemente os meus editores (Alexandre Vasconcelos e Sá, Vítor Silva Mota e Sofia Monteiro). Estou muito grata a todos eles pelo incentivo e “empurrão” que me foram dando ao longo destes anos.

M.L: Que balanço faz da sua carreira?
S.R: Acho que ainda é um bocadinho cedo para olhar para trás. Por enquanto, estou na fase de olhar para a frente, de querer ter cada vez mais desafios e mais e mais e mais. Sou uma sonhadora por natureza e uma lutadora por opção. Já cometi muitos erros, como toda a gente, mas entre caminhos errados acho que tenho vindo a descobrir os meus e há que seguir em frente sem olhar para trás.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
S.R: No decorrer do próximo ano (2012/2013) conto lançar alguns livros, juvenis e romances que pretendo levar também a escolas e bibliotecas. Irei também continuar a desenvolver projetos n’O Livro da Minha Vida e conto também abraçar alguns desafios na área da dramaturgia que estão a ser desenhados neste momento e que espero que vão avante.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
S.R: Escrever para cinema é um desafio que ainda gostava de abraçar. Gostava de transformar uma história minha num filme e dar corpo a mais um conjunto de histórias que imagino no grande ecrã. Também gostava muito que um livro meu infantil se transforme num musical. Estarei igualmente a trabalhar para isso, durante este ano.

M.L: Se não fosse a Sara Rodi, qual era a escritora que gostava de ter sido?
S.R: É uma pergunta complicada. Sou fã incondicional de José Saramago e, se me perguntassem com quem gostaria de me assemelhar, ao nível da escrita, seria naturalmente com ele, por mais ousado que isso possa parecer. Tive a oportunidade de o conhecer e de falar com ele em duas ocasiões e identifico-me totalmente com um conjunto de reflexões que ele faz, sobre o homem e sobre a vida. A forma como o coloca depois em livro também sempre me fascinou. Não tenho um estilo próximo do dele, nem sei se algum dia me aproximarei, sequer, em termos de qualidade literária. Mas sem dúvida que ele é uma das minhas grandes referências.ML