Estreada em Março passado no Teatro da Trindade, "O Deus da Carnificina" já tinha sido encenada em Portugal por João Lourenço no Teatro Aberto em 2009 e também foi adaptada ao cinema por Roman Polanski em 2011, e é sobre dois casais (Alberto/Bernardete & Verónica/Miguel) que se encontram para resolver um incidente protagonizado pelos seus filhos menores. Mas à medida que o encontro vai progredindo, ambos os casais deixam cair as suas máscaras e revelam a verdadeira natureza deles. Essencialmente, é uma peça sobre a hipócrisia e de até que ponto podemos chegar para defendermos os nossos interesses.
Termina hoje (4 de Novembro) no Teatro da Comuna, mas depois vai em digressão, o espetáculo "Desculpa, Não Percebi" que é da autoria de Diana Costa e Silva, Isabel Medina (https://mlisboaentrevista.blogspot.com/2011/09/mario-lisboa-entrevista-isabel-medina.html) e Rafaela Covas e protagonizado por Diana Costa e Silva, Rafaela Covas, Raquel Oliveira e DJ Tita Machado.
Estreado no passado dia 17 de Outubro, "Desculpa, Não Percebi" é um espetáculo em que as próprias intervenientes levantam e se interrogam sobre vários aspetos da vida. Questões como "Quem sou eu? Quem és tu? Quem somos nós? Quantos sou eu? Quantos és tu? Quantos somos nós? Quero brincar. Queres brincar? Como é que te sentiste?" são levantadas e que definem os seus próprios caminhos.
Diana Costa e Silva, Rafaela Covas, Raquel Oliveira
1998 foi um ano muito marcante por várias razões (a Expo 98 e o Mundial 98 são exemplos disso), e Portugal estava mais do que nunca otimista em relação ao futuro. Mas no que toca à teledramaturgia portuguesa, 1998 marcou o regresso do falecido ator/autor Francisco Nicholson à escrita de telenovelas após uma ausência de 6 anos com "Os Lobos", que a então NBP produziu para a RTP e em Novembro de 2018 celebra 20 anos da sua estreia.
"Os Lobos" é, para mim, uma das melhores telenovelas portuguesas de todos os tempos, com uma trama de proporções shakespearianas, e um retrato da sociedade portuguesa de então que só o Francisco Nicholson podia fazer, pois ele era um dos que melhor retratava Portugal tal como é na verdade. É uma telenovela onde tanto a parte técnica como a parte narrativa são boas de maneira igual e o seu incrível elenco liderado pelo carismático Sinde Filipe é um dos meus favoritos no que toca às telenovelas.
João Lagarto, Henrique Viana, Diogo Infante, Sinde Filipe, Sofia Alves, Manuela Maria, Patrícia Tavares, Fernanda Serrano
Diogo Infante e Sinde Filipe respetivamente como o ambicioso "Jorge Lobo" e o seu avô "Lourenço Lobo"
Sofia Alves como "Sabrina Venâncio"
Ana Brito e Cunha e Paula Mora respetivamente como "Raquel Lobo" e "Salomé Lobo"
São 200 episódios de uma telenovela que cada vez que a vejo numa reposição faz-me sempre sentir bem, o que é um bom sinal. "Os Lobos" é um forte exemplo da chamada "literatura televisiva", que havia muito nos primórdios das telenovelas em Portugal, e acho que faz muita falta autores como Francisco Nicholson, que era bastante ousado nas suas histórias, e eu estou esperançoso que haja mais telenovelas como "Os Lobos" no futuro.
Interessou-se desde muito cedo pelo audiovisual, tendo-se iniciado nessa área nos anos 90 e desde então tem desenvolvido um percurso bastante sólido como realizador, conciliando frequentemente cinema e televisão. A nível televisivo, trabalha atualmente na Plural Entertainment Portugal, e recentemente realizou a longa-metragem "As Horas de Luz", que teve a sua estreia mundial na última edição do IndieLisboa, e a telenovela "A Herdeira", que está atualmente em exibição na TVI. Esta entrevista foi feita no passado dia 11 de Julho.
M.L: Quando surgiu o interesse pelo
audiovisual?
A.B.C: Muito cedo, em
criança, mas só na juventude é que decidi que queria estudar cinema, apesar de
ter entrado no Conservatório um pouco tarde (com 22 anos), pois nessa altura
fui obrigado a cumprir o serviço militar. Mas desde muito cedo comecei a
interessar-me por filmes. Onde vivia, havia dois cinemas (Academia Almadense e
Incrível Almadense). Creio que a maior parte do tempo, em criança e jovem, era
passado nessas salas de cinema ou na rua com amigos. Mas o meu espaço de
liberdade e evasão era a sala de cinema.
M.L: Quais são as suas referências nessa área?
A.B.C: Há imensas. A maior
parte das referências foram acontecendo na Escola de Cinema onde nos
apaixonamos pelos (Jean-Luc) Godard, (Jean) Renoir, (Robert) Bresson, (Michelangelo)
Antonioni, (John) Ford). Mas isto é um fenómeno que não se interrompe. Ainda
hoje continuo a ser surpreendido por filmes ou séries que me influenciam,
porque os criadores que questionam a gramática cinematográfica e que a
confrontam para lhe acrescentar algo nunca deixarão de existir. São esses os
objetos que me interessam, aqueles que usam os códigos para corrompê-los.
Também me interesso pelo cruzamento das linguagens documental e ficcional, de
que modo estão balizadas e até que ponto estamos sempre a encenar ou a falsear
uma situação para obter um resultado. Até que ponto não estaremos a partir da
mesma essência?
M.L: Tem coordenado produções televisivas na atual
Plural Entertainment Portugal desde 2008. O que é que tem aprendido ao exercer
esse tipo de função nesta última década?
A.B.C: Acima de tudo,
manter o equilíbrio entre as realidades artísticas e orçamentais, mas também,
manter a calma quando aparecem imprevistos e relativizar as coisas menos boas.
Neste meio, como em outros meios, aprende-se muito sobre a natureza humana,
principalmente no que diz respeito à gestão dos egos.
M.L: Uma das primeiras telenovelas que realizou foi “A
Senhora das Águas”, que a RTP exibiu entre 2001/02. Que recordações guarda
desse projeto em particular?
A.B.C: Creio que foi mesmo
a minha primeira novela. Antes só tinha feito séries. O que me vem à memória
desde logo é o facto de ser uma equipa muito unida. E o elenco era muito
especial. O ambiente era espetacular. Foram 6 meses a rir.
M.L: Realizou o documentário “Antes de a Vida Começar”,
sobre a atriz Isabel de Castro, e que estreou após o seu falecimento em
Novembro de 2005. 13 anos depois, houve alguma coisa que conseguiu extrair da
sua interação com a própria naquela altura?
A.B.C: A Isabel foi uma atriz
enorme que sempre quis passar despercebida. Fez vinte e tal filmes em Espanha e
não se reconhecia nos cartazes da Gran Vía em Madrid. Bastantes vezes dizia
“carreiras… só de autocarros”. É impossível esquecê-la. O documentário que fiz
com ela, sobre ela, ensinou-me, sobretudo, aquilo que é uma pessoa a não se dar
muita importância a si própria, mas, ao mesmo tempo, tentar alcançar uma
relativa liberdade.
M.L: Nestes tempos difíceis, retratar histórias
humanas é cada vez mais uma urgência no cinema?
A.B.C: Sim, talvez, mas
mais importante que a história é a abordagem que se escolhe. No cinema ou
qualquer arte o que faz sentido é usar as suas próprias ferramentas. No cinema,
as ferramentas são a Câmara e a Montagem e o objetivo de um filme deve procurar
uma reflexão sobre essas ferramentas e sobre o mundo onde vivemos. O cinema não
serve para alienar nem para comer pipocas.
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira no meio audiovisual?
A.B.C: Que tenha coragem
para isso e no momento de desistir que siga em frente. Faça em vez de se
queixar.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como realizador?
A.B.C: Não faço a mais
pequena ideia. Isso é trabalho para quem analisa, escreve e critica.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
Uma das experiências teatrais mais memoráveis que eu tive em 2017 foi esta versão de "Macbeth", a chamada "peça escocesa" de William Shakespeare, que foi encenada por Nuno Carinhas e protagonizada por João Reis como a ambiciosa personagem-título.
Desde que me lembro que William Shakespeare é um dos meus autores favoritos, pois as suas histórias sempre me despertaram interesse e têm tudo o que eu espero de uma história nomeadamente a nível narrativo. Para além de serem histórias com temas muitíssimo pertinentes. E é principalmente por ser um fã de Shakespeare que no verão de 2017 eu estava com enormes expectativas em relação a "Macbeth", pois por incrível que pareça foi a primeira vez que fui ver Shakespeare em teatro, e sempre tive curiosidade em relação a "Macbeth", à sua história e às suas personagens, e na altura eu fiquei imensamente agradado com o que vi principalmente a encenação, o desempenho do elenco e o ambiente sombrio em termos de tom. A única desilusão que eu tive na altura ao ver "Macbeth", foi a Lady Macbeth (Emília Silvestre), pois achei que esta versão da personagem não correspondia à ideia que eu tinha dela, mas ao ver a peça pela segunda vez eu passei a compreender melhor a Lady Macbeth.
Emília Silvestre como a igualmente ambiciosa "Lady Macbeth"
"Macbeth" é um exemplo do quanto o trabalho que William Shakespeare desenvolveu em vida ainda é muito atual e é para mim uma das melhores histórias que envolvem ambição, poder, corrupção e vingança que o Mundo já alguma vez viu.
O Cinema é a sua grande paixão desde muito cedo, ficando amigo do chamado "monstro" segundo o próprio, o que o levou à Comunicação Social, e desde aí tornou-se num dos mais carismáticos jornalistas/críticos de cinema em Portugal, com uma genuidade e uma acessibilidade só comparável ao igualmente carismático Mário Augusto. Com alguma experiência na realização, apresenta desde 2013 o programa "Cinetendinha" que é exibido tanto na SIC Radical como nos Canais TVCine e Séries, e gostava de desenvolver uma ideia de residências artísticas de Cinema. Esta entrevista foi feita na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.
M.L: Quando surgiu o interesse tanto
pela Comunicação Social como pelo Cinema?
R.P.T: Eu acho que foi o Cinema
que me levou para a Comunicação Social, porque eu desde criança fiquei amigo do
“monstro”. O Cinema é um “monstro”, o Cinema em si simboliza, atrai e molda a
vida, e a dada altura o Cinema foi um espelho que eu tive para ver os outros e
ver a vida. No fundo, não era só um entretenimento. Mesmo desde criança, era
algo vital, era quase uma bolsa de oxigénio. E a partir de muito cedo, o Cinema
foi de facto uma atração fatal para mim.
M.L: Quais são as suas referências nestas duas áreas?
R.P.T: Eu acho que o
discurso de alguém que escreve sobre cinema tem que ter uma vertente pessoal e
tem que ter uma componente também de relação muito pessoal com o objeto de
arte. Nesse sentido, eu gosto de textos que me desafiem, pelo menos enquanto
leitor, a pôr-me no lugar do objeto de arte, e isso para mim é o que me dá mais
gozo quando leio críticas, e nesse sentido eu gosto muito do Peter Travers, da
falecida Pauline Kael. No Cinema, eu gosto de pensar que ninguém é sagrado, eu
não ponho ninguém intocável, mas claro que eu tenho os meus próprios ídolos
como, por exemplo, o David Lynch e o (Stanley) Kubrick.
M.L: De tudo o que tem feito até agora tanto na
Comunicação Social como no Cinema, houve algum trabalho em particular que foi
tanto divertido como pessoal de se fazer?
R.P.T: Eu gostei muito de
arrancar com o “Cinetendinha”, que foi uma ideia que o Pedro Boucherie Mendes
me propôs e que era precisamente mostrar o que é o meu dia-a-dia de uma forma
informal e verdadeira e isto é muito gozo. Em 2016, eu pude ir aos Óscares e achava
que era uma coisa inacessível e de repente estava lá ao lado das estrelas
todas, e fui também aos Independent Spirit Awards e esse tipo de coisas, para
alguém que cresceu a amar o cinema, é forte.
Rui Pedro Tendinha na altura dos Óscares 2016
M.L: Também tem alguma experiência na realização. Gostava
de, um dia, desenvolver uma carreira paralela como realizador?
R.P.T: Quando eu faço
cinema documental, tenho feito de uma ordem de muita encomenda. Eu não tenho
aspirações artísticas, quando faço os documentários. A minha vocação é escrever
sobre cinema.
M.L: Em 2012, escreveu o livro sobre auto-ajuda no
cinema “100 Filmes
Que Podem Mudar a Sua Vida”. 6 anos depois da publicação do livro, acha que as
pessoas ainda podem precisar de auto-ajuda no que toca ao cinema?
R.P.T: Eu podia fazer outro volume, mas agora se me
desafiarem para escrever um livro, eu gostava de escrever um livro de
entrevistas. Uma pessoa está triste, com depressão, que vá ao cinema, faz bem
ir ao cinema.
M.L: Numa era muito tecnológica, complexa e sombria e
em que o Cinema está muito mais evento, acha que o Cinema ainda pode ter
capacidade de dar alegria e emoção como no passado?
R.P.T: É verdade que o
Cinema está muito mais evento, mas há sempre lugar para tudo, há sempre um lado
de resistência, e festivais como o Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa
Maria da Feira são um bom exemplo de haver ainda quem faça um cinema pessoal,
experimental, de ensaio. O Cinema pode ter sempre um grande ponto de
interrogação e de questionamento a nível artístico e nesse sentido poderá
sempre haver esse cinema mais mainstream,
mas há de haver sempre esse lado mais resistente.
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira seja na Comunicação Social ou no Cinema?
R.P.T: A Comunicação
Social está a viver momentos difíceis. O jornalismo é uma profissão que se
desvalorizou quer se queira quer não. Temos que ser todos muito mais
analíticos. O jornalismo parece que sobre isso está a ganhar ao jornalismo de
pensamento e isso é uma pena. Eu acho que o jornalista tem que ter uma opinião
e tem que ter uma coisa que, por exemplo, o Eduardo Prado Coelho tinha que era
o cálculo de não só dizer uma opinião, mas de pensamento, de fluição sobre o
mundo que vê. Hoje em dia, como temos tantos acessos às críticas e aos sites,
nós precisamos é de seletores que pensem e que não façam só o trabalho
preguiçoso. Esse é o meu conselho que eu dou.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como jornalista de cinema?
R.P.T: Abdiquei da minha
vida pessoal, passo a vida a viajar, eu já tive três divórcios e nunca consegui
ser pai, porque o Cinema absorveu-me.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
R.P.T: Eu gostava muito de
fazer uma ideia de residências artísticas de Cinema. É uma utopia.ML
Para terminar Março, o mês da Mulher, aqui deixo um texto que a atriz/encenadora/diretora de atores Lucinda Loureiro escreveu no passado dia 26 de Março a meu pedido sobre a Mulher em si.
"Pediu o Mário Lisboa que escrevesse sobre a mulher e as
dificuldades para singrar.
Bom, resolvi falar sobre mim, sendo eu um reflexo de outras
mulheres.
Tenho que andar uns anos para trás, ao tempo da minha
infância e juventude.
Fui criada no seio de uma família tradicional, da alta
burguesia, e alguns dos meus antepassados, estavam ligados às artes. Música,
pintura, fotografia, escrita. Mas, só uma bisavó, ganhava o seu sustento e
depois de ficar viúva, dando aulas de piano.
Eu e os meus irmãos, éramos cinco, costumávamos brincar
dizendo que nós éramos a ÍNCLITA GERAÇÃO. Todos tínhamos algum talento
para as artes. O irmão mais velho, dizia poesia, o segundo desenhava muito bem,
eu gostava de dançar, de ver teatro na televisão, e de escrever. A minha irmã,
adorava ballet e o mais novo música. Como era habitual numa pequena cidade do
Interior, e com o contexto familiar que me rodeava, estava destinado para mim,
estudar, talvez até ao 3º ano da faculdade, mais não me exigiam, e depois casar
e ter filhos. Quando cheguei ao antigo 5º ano do liceu, actual 9º ano de
escolaridade. Comecei a dizer que queria ir para o conservatório de teatro. Ui,
ui nem pensar afirmaram os meus pais. Fiquei triste mas não tive outro remédio
senão calar e continuar a acalentar em segredo este sonho. Recusava e por vezes
era castigada quando não executava as tarefas femininas que me destinavam. Em
vez de coser ou passar a ferro, passava horas a ler. Era certo e sabido que
havia confusão lá em casa. Quando se deu o 25 de Abril aderi de imediato a tudo
o que até então eu desconhecia. Encontrei nessa época o meu propósito de vida. Contestei a autoridade paternal, e comecei o meu caminho em direcção à liberdade
de pensamento, ao movimento de emancipação da mulher.
Quando já em 1977 chegou a Viseu um grupo de actores, e
um deles foi viver para a casa da minha
sogra, sim porque eu casei muito cedo e tive um filho ainda com 16 anos. Fruto da
minha ingenuidade, e desconhecimento dos métodos para não engravidar. Aliás
estava proibida de abordar sequer o tema pílula com a minha mãe. Bom, mas ele foi para lá e de imediato
lhe disse da minha vontade de ser actriz. Sorte a minha, passados meia dúzia de meses, uma das
actrizes regressou a Lisboa, e eu pude ir a um ensaio a convite do grupo de
teatro para mostrar o que valia. Fiquei feliz, feliz. O problema a seguir era
anunciar aos meus pais a minha decisão. Claro que mais uma vez, foi muito mal
aceite. Apesar de apreciarem e de à sua maneira incentivarem a vida cultural,
ter uma filha actriz era outra coisa. As meninas de bem não iam para o teatro.
Muito bem, pensei eu, deixarei de ser uma menina de bem, e passei a integrar o
grupo de teatro a Centelha, assim se chamava. E foi o melhor que fiz. Aprendi,
conheci muita gente do mundo das artes, logo nos dois anos que estive nesse
grupo. Após este período comecei a sentir mais uma vez que Viseu não me
chegava. Tinha que partir. Agora o problema era outro. Com um filho pequeno
enquanto estava rodeada de família, eram eles que tomavam conta dele na minha
ausência, mas levá-lo comigo para outra cidade, era mais complicado. Ainda por
cima, tinha chegado o momento de me separar. Demorei algum tempo a tomar uma
decisão, mas lá fui para o Porto. Deixei o meu filho com os meus pais, e fui
estudar Secretariado e Gestão. Mas o teatro sempre na minha mira. Um dia,
estava a estudar ao mesmo tempo que ouvia rádio, e eis senão quando, anunciam
que o Teatro Experimental do Porto, precisava de uma actriz. Saí de imediato de
casa e apresentei-me no Teatro. Fiquei nesse mesmo dia. Nada disse aos meus
pais, porque tive que abandonar os estudos, e só os convidei para a estreia. Lá
foram. E correu melhor do que esperava, porque começaram a perceber que eu não
ia desistir. E para não me alongar muito, vou resumir o resto. Cedo o Porto
ficou pequeno. O meu sonho sempre foi vir para Lisboa. Aqui continuou a
colocar-se à questão sentida anteriormente. Como fazer teatro e criar o meu
filho? Lá fui conseguindo, umas vezes levando-o comigo. Chegando mesmo a dormir
no camarim.
Como actriz tive quase sempre o apoio dos meus colegas, quer
em termos pessoais quer artísticos. Nunca me senti discriminada. Só quando
comecei eu, a encenar ou fazer direcção de actores é que me apercebi que ainda
muita coisa estava por fazer. Era preciso continuar a lutar pelo nosso lugar de
mulheres criativas e que também sabíamos dirigir e estar à frente dos projectos
a que nos propúnhamos. Hoje, ainda há muita desigualdade, continuaremos a
lutar.
Lucinda Loureiro"
Sem dúvida nenhuma, uma MULHER lutadora e corajosa. Muito obrigado, Lucinda.
Manuel Arouca é, desde os "Jardins Proibidos" (TVI) original, um dos meus autores favoritos e algumas das minhas telenovelas favoritas são da sua autoria e uma delas é "A Senhora das Águas", que está atualmente em reposição na RTP Memória.
Exibida originalmente entre 2001/02, "A Senhora das Águas" foi a última telenovela da RTP produzida pela NBP (atual Plural Entertainment Portugal) e estreou no mesmo dia que a telenovela "Filha do Mar" (TVI), também escrita por Manuel Arouca e produzida pela NBP, mas infelizmente não teve o sucesso que merecia.
"A Sónia é me particularmente querida por ter sido o 1º e talvez o único papel menos simpático que desempenhei." Sofia Nicholson sobre a sua personagem Sónia Mendes Bernardes em "A Senhora das Águas" numa entrevista para o "Mário Lisboa entrevista..." em Outubro de 2014. Eu ouvi falar de "A Senhora das Águas" na altura da sua estreia e lembro-me da sua campanha de promoção e quando finalmente consegui ver a telenovela na RTP Memória numa reposição em 2009, eu gostei logo de imediato por várias razões nomeadamente a nível narrativo e visual (por falar a nível visual, o cenário de Viseu é sem dúvida uma das coisas boas que "A Senhora das Águas" tem). Eu tenho que salientar também o fantástico figurino da igualmente fantástica Teresa Alves nomeadamente o da protagonista Mercês Vargas (Luísa Cruz).
"De “A Senhora das Águas” guardo as melhores recordações. 1ª: a minha personagem era muito maluca, divertida e também tinha um bocadinho de maldade, o que enriquecia imenso as situações. Depois, porque gravei os exteriores na vila de Santar ao lado de Viseu, onde passei parte da minha infância. Depois, os meus colegas e a equipa eram do melhor. Grandes profissionais e gente boa." Lucinda Loureiro ("Ondina de Jesus Trolha") sobre "A Senhora das Águas" numa entrevista para o "Mário Lisboa entrevista..." em Dezembro de 2012.
"A Senhora das Águas" leva o seu tempo para desenvolver a sua trama e as suas personagens e tem um lado místico fortíssimo e também um elenco muitíssimo bom encabeçado por uma fantástica Luísa Cruz a estrear-se naquela altura nas telenovelas.
Amélia Videira como Ilda, a Senhora das Águas
Luísa Cruz e o brasileiro Oscar Magrini como o par romântico Mercês e Lucas
Simone de Oliveira como "Maria dos Prazeres"
A brasileira Juliana Baroni como "Cláudia Cardoso Lobo"
Virgílio Castelo, também diretor-geral da NBP na altura, como "João Manuel" na primeira fase de "A Senhora das Águas"
Eu ainda hoje tenho imenso carinho por "A Senhora das Águas", pois infelizmente já não se fazem telenovelas como esta hoje em dia, e para terminar aqui deixo a canção-título do lendário Carlos Mendes que é a minha favorita de toda a telenovela.
Hoje (8 de Março) é o Dia Internacional da Mulher e é um dia que eu levo em consideração há já bastante tempo, pois a Mulher é um ser muito lutador, muito especial e, sem dúvida nenhuma, é também um ser muito superior ao Homem. Mas, infelizmente, a Mulher ainda é muito menosprezada, apesar dos progressos que têm havido para inverter isso, e a propósito de homenagear este fantástico ser e o seu dia especial, eu convidei a realizadora/produtora independente Isabel Pina, que é uma das minhas grandes amigas e faz anos precisamente hoje, para escrever um texto sobre a Mulher em si.
"8/3/2018 M U L H E R
Respondendo ao desafio do blogger de cinema Mário
Lisboa, deixo aqui uma pequena reflexão acerca deste 8 de março de 2018.
Habituei-me ao longo dos anos a ser felicitada
duplamente neste dia; pelo meu aniversário e pela minha condição de mulher. E
todos os anos assisto a iniciativas que têm como propósito enaltecer a condição
da mulher e recordar o porquê desta efeméride neste dia. Mas este ano há algo
de diferente, há algo a mais; primeiro porque completo um daqueles aniversários
com um número bem redondo, e depois paira algo de novo no ar a querer
cumprir-se para que sejam operadas mudanças efetivas no coletivo global.
Uma das indústrias que potencialmente mais influencia
as consciências no mundo - a do cinema - colocou na voz de muitas protagonistas
do meio uma mensagem de urgência na questão da igualdade no tratamento das
mulheres em relação aos homens. É sem dúvida um tema de referência da
atualidade.
Em novembro último, 700.000 trabalhadoras agrícolas
escreveram uma carta aberta de apoio à causa das atrizes vítimas de assédio
sexual. Depois de a lerem, os membros da Time’s
Up sentiram a necessidade de direcionar os seus esforços ao resto do mundo.
“Se
este grupo de mulheres não consegue lutar pelas outras mulheres, que não têm
tanto poder nem privilégios, quem irá conseguir?” questionou Shonda Rhimes, produtora executiva de séries de
televisão.
O Time’s Up é
gerido por voluntárias e composto por grupos de trabalho, com diferentes focos.
Entre as voluntárias do Time’s Up
estão as atrizes Ashley Judd, Eva Longoria, America Ferrera, Natalie Portman,
Emma Stone, Kerry Washington e Reese Witherspoon.
“Estamos
finalmente a ouvir-nos umas às outras, a ver-nos umas às outras e agora a dar
as mãos pela solidariedade umas pelas outras e por todas as outras mulheres que
não se sentem vistas nem ouvidas”, afirmou a atriz Reese
Witherspoon.
Desde essa altura para cá, em vários eventos
mediáticos de cinema, este tema é recuperado e apesar destas mulheres se
dizerem muitas vezes frustradas pelos resultados não tão imediatos, garantem
que não vão desistir. Tenho esperança que o movimento continue e que não haja
volta atrás.
Já me aconteceu ter de me apresentar sumariamente, e
quando isso acontece, costumo dizer algo com que me identifico bastante: “Olá,
eu sou a Isabel, e sou do signo Peixes, e como tal, sou uma sonhadora”. E é bem
verdade, sou uma sonhadora, e quando não estou a sonhar, é porque estou ocupada
a cumprir os meus sonhos. E um dos sonhos que tenho é ver o artigo 1º da
Declaração Universal dos Direitos do Homem [e Mulher] cumprido na sua íntegra – “todos os seres
humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e
de consciência, devem agir uns para os outros em espírito de fraternidade”. A propósito do dia de hoje, também sonho que os artigos
2º e 23º possam ser cumpridos – “Todos
os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na
presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente, de raça, de cor, de
sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional
ou social, de fortuna, de nascimento, ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político,
jurídico ou internacional do país ou do território independente, sob tutela ou
sujeito a alguma limitação de soberania.” […] “2.
Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho
igual.”
Sendo eu M U L H E R, nada melhor do que ter um
bocadinho de voz neste dia tão especial, e recordar a voz da rainha do soul,
Aretha Franklin, a pedir “just a little bit… RESPECT”.
Termino com
uma reflexão de uma das mulheres que mais influenciou o mundo positivamente: “Por vezes
sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar
seria menor se lhe faltasse uma gota.” Madre Teresa de Calcutá.
Na passada segunda-feira (22 de Janeiro) celebrou-se 10 anos desde que o inesquecível ator australiano Heath Ledger faleceu devido a uma overdose e, ultimamente, eu tenho pensado nele, pois não só era um dos atores que me marcaram no meu tempo de adolescente como também era um talento imenso que lutou muito em vida para ser levado a sério como ator e não ser considerado apenas uma cara bonita, e este texto é apenas uma pequena homenagem a aquele que, como o título acima refere, é o Joker do Século XXI.
Eu ouvi falar pela primeira vez de Heath Ledger em 2000, quando estreou "O Patriota", o épico realizado por Roland Emmerich e protagonizado pelo seu compatriota Mel Gibson, onde Ledger era o filho do próprio. Tinha eu 10 anos na altura. Mas só o vi num filme pela primeira vez, quando a SIC exibiu "10 Coisas Que Odeio em Ti" (1999), e ainda hoje eu acho que o Ledger era a melhor parte deste popular clássico teen.
Heath Ledger como o inesquecível rebelde "Patrick Verona"
À medida que eu fui crescendo, Heath Ledger sempre me impressionava seja, por exemplo, em "Coração de Cavaleiro" (2001), "Monster's Ball-Depois do Ódio" (2001), "Os Irmãos Grimm" (2005) e o aclamado "O Segredo de Brokeback Mountain" (2005), que mudou a sua vida tanto a nível pessoal como profissional e lhe valeu em 2006 uma nomeação para o Óscar de Melhor Ator.
William Thatcher (Heath Ledger) - "Coração de Cavaleiro"
Sonny Grotowski (Heath Ledger) - "Monster's Ball-Depois do Ódio"
Jacob Grimm (Heath Ledger) - "Os Irmãos Grimm"
Ennis Del Mar (Heath Ledger) - "O Segredo de Brokeback Mountain"
No que toca ao agora clássico "O Cavaleiro das Trevas" (2008), esse era um dos meus filmes mais antecipados desse ano e eu lembro-me muito bem do impacto gigantesco que o filme teve nessa altura e quando o vi eu adorei imenso por várias razões nomeadamente a premiada e icónica interpretação de Heath Ledger como o tresloucado Joker. Apesar de eu ter um especial carinho pela versão de Jack Nicholson desta personagem em "Batman" (1989), pois eu cresci a ver esta versão mais do que uma vez, eu acho sinceramente que o Joker de Ledger é a versão definitiva no que toca às novas gerações e também o facto de ser uma versão muito profunda e sombria.
Heath Ledger como "Joker" numa magnífica interpretação que ficou para a História recente do Cinema
Heath Ledger é uma de várias personalidades públicas que faleceram quando estavam na flor da idade e ainda tinham muito para dar, cuja interpretação de Joker imortalizou-o como ator, mas, como fã do trabalho de Ledger, eu aconselhava às novas gerações para irem além do Joker e conhecerem um pouco melhor o trabalho deste carismático aussie.
Iniciou-se na Moda, tendo depois enveredado tanto pela Comunicação Social como pela representação, e tem desenvolvido um bom percurso artístico que já conta com duas décadas de existência. Estreou-se nas telenovelas em 2004 com "Mistura Fina" (TVI), e regressou recentemente a este género televisivo com "Paixão" que está em exibição na SIC, e gostava de fazer muita coisa em vida. Esta entrevista foi feita no passado dia 18 de Janeiro.
M.L: Quanto surgiu o interesse tanto
pela Comunicação Social como pela representação?
S.A: O interesse surgiu já no tempo da escola, e mais
tarde percebi que em todos os trabalhos que passei, esse era um dos pontos mais
valorizados. Eu comecei na moda, espetáculos de dança, e aos 24 anos foi aí que
percebi o interesse pela representação em televisão e subir ao palco.
M.L: Quais são as suas referências nestas duas áreas?
S.A: Muitos atores e atrizes são uma referência
para mim, mas principalmente todos os que contracenaram comigo. Sei que aprendi
muita coisa e só tenho que agradecer a todos o que cresci e vivi em cada cena,
com cada um, como atriz.
M.L: Seja como apresentadora ou como atriz, houve
algum trabalho em particular que considera como o mais divertido de se fazer?
S.A: Bom, eu posso dizer
que todos têm o seu lado divertido e o mais sério também. Lembro-me de uma das
minhas primeiras apresentações que foi uma gala de entrega de prémios, no
Casino Estoril, e que o fiz com o nosso conhecido Aldo Lima, que para mim foi
um orgulho e por outro lado, lembro-me que fiquei tão nervosa, por ser alguém
tão experiente e profissional, falamos, ensaiamos, mas assim que começamos, o
Aldo, com o seu à vontade, pôs-me à vontade também e o trabalho fluí muito bem.
Acho que num modo geral tudo o que fiz, tanto me deu divertimento como deu
algumas consequências, mas por outro lado me deu aprendizagem, crescimento, amadurecimento
e muitas histórias por contar, onde muitas fotografei ou reportava para os meus
telemóveis ou câmaras e mais tarde, revejo-as e divirto-me ao recordá-los
todos.
M.L: Também tem experiência na Moda e na Publicidade.
No caso da Moda, esta área específica a seu ver está hoje em dia muito
diferente do que quando começou a trabalhar como modelo?
S.A: Sim, a Moda e a Publicidade foi por onde eu
comecei, mas não acho que sejam muito diferentes. Mas sim na altura havia muita
oferta, os cachets eram outros, eu
lembro-me de estar horas em castings,
de fazer 3/4 castings no mesmo dia. O
meio sempre foi interessante e desafiador ao veres-te a conhecer muitas
pessoas, e trocar experiências, muitas horas a filmar, e claro os making-of sempre a rodar.
M.L: Participou como atriz na telenovela “Mistura
Fina” que foi exibida na TVI entre 2004/05, na qual interpretou a personagem
Fátima Benfeito. Que recordações guarda da sua estreia nas telenovelas e também
da sua personagem?
S.A: Tenho muitas
recordações boas, e muitas das cenas eram divertidas, a estreia foi um momento que
me marcou. Eu lembro-me de receber os parabéns e as críticas que na altura a
personagem desenvolveu, e no fim já não gostavam da Fátima Benfeito. Como já
tinha mania de filmar, tenho alguns dos making-of,
de alguns trabalhos, que no outro dia por acaso encontrei, e autocritiquei-me
claro, pois nunca estava satisfeita com uma cena, ou recordei alguns dos atores,
que já não estão entre nós como o Rodrigo Menezes e o Canto e Castro, e os que
ainda vejo que continuam na profissão como Eunice Muñoz, Adriano Luz, Custódia Gallego,
Ana Padrão, Maria João Luís, Luís Esparteiro, Manuel Sá Pessoa, Jorge Corrula,
São José Lapa, etc.
Sylvie Dias ("Solange Benfeito") & Sara Aleixo ("Fátima Benfeito")
M.L: Regressou recentemente à televisão como atriz na telenovela
“Paixão” (SIC), cuja sua personagem é a Tina. Tendo em conta que já não
representava em televisão há já bastante tempo, como é que surgiu o convite
para interpretar a Tina e o que a cativou nessa personagem?
S.A: O convite surgiu
através da minha agência Cast 39. Eu fiquei muito contente quando me ligaram a
dar a notícia e aceitei logo, pois há já algum tempo que estava a querer
voltar. Muito resumindo, digamos que a Tina vai criar alguns distúrbios, mas
não deixa de ser cativante, talvez por ser diferente das outras personagens que
tinha feito, até hoje, é sempre um desafio maior se formos a fugir daquilo que
realmente somos. Já batia saudades há já algum tempo e criou vontade de fazer
mais.
M.L: Que expectativas têm em relação ao seu regresso
como Tina no que toca à receção do público?
S.A: Espero que positivo, que
a personagem se desenvolve mais, e que o público goste do meu trabalho, e que
não deixe de dar apoio com a sua opinião. A expectativa é de desejar que outros
convites surgam, pois uma porta nova se está a abrir.
M.L: Qual conselho que daria a um/a aspirante tanto na
Comunicação Social como na representação?
S.A: Diria aos aspirantes para
estudarem, formarem-se, lutarem e seguirem os seus sonhos, sem desistir, pois
nada é fácil nesta vida. Temos é que acreditar!
M.L: Olhando para trás, sente-se de certa forma
orgulhosa do percurso que tem desenvolvido até agora como pessoa, como
apresentadora e como atriz?
S.A: Sim, se não fosse orgulhosa
do meu percurso de vida estava a ser muito ingrata, pois cresci muito como pessoa,
como profissional e como mulher, e tento fazer sempre com um sorriso .
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
S.A:Gostava de fazer tanta coisa, mas assim de repente eu
gostava de fazer cinema um dia, dar a volta ao Mundo, ir a países que eu não
fui ainda, gostava de casar e ter filhos um dia.ML
O interesse pelo Cinema surgiu quando tinha 6 anos e viu "Aconteceu no Oeste" (1968) do lendário Sergio Leone (1929-1989) e nas últimas duas décadas tem desenvolvido um percurso muito sólido nessa área, tornando-se num dos editores mais requisitados da atualidade e foi premiado em 2014 com o Óscar de Melhor Montagem pelo aclamado "Gravidade" (2013) de Alfonso Cuarón e protagonizado por Sandra Bullock e George Clooney. Em 2017, co-editou "Transformers: O Último Cavaleiro" de Michael Bay e o 5º filme da saga no espaço de uma década, e gostava de passar menos tempo a editar e mais tempo com a família. Esta entrevista foi feita no passado dia 18 de Julho.
M.L: Quando surgiu o interesse pelo Cinema?
M.S: Como qualquer miúdo,
eu fui sempre um fã de histórias, mas eu vi “Aconteceu no Oeste” (1968) quando eu tinha 6 anos e percebi que eu
queria contar histórias em cinema. A linguagem de (Sergio) Leone ainda é tão
apelativa para mim e então eu fiquei transfixado desde uma idade precoce. Essa
foi a faísca. Eu então tornei-me fã de muito do cinema americano dos anos 70,
particularmente o trabalho de (William) Friedkin e (Alan J.) Pakula. Cresceu a
partir daí.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto editor?
M.S: Eu não costumo ser
liderado por referências pessoais ou influências se eu puder evitá-lo. É mais
sobre cometer a visão do realizador para o ecrã, portanto as minhas referências
são o que queremos tentar alcançar dramaticamente em qualquer cena. Então, na
essência, a minha grande referência é o realizador que contratou-me para
colaborar em qualquer história específica.
M.L: Em duas décadas de
trabalho no cinema, houve um projeto específico que pode considerar como o mais
difícil e desafiante que fez até agora?
M.S:
Para mim, a resistência é sempre o maior desafio num filme e por essa razão
“Gravidade” (2013) foi o mais duro na minha carreira. Durante a pré-produção,
não fazíamos a mínima ideia se o filme iria ter luz verde pelo estúdio, então
durante as filmagens e a pós-produção nós não tínhamos uma data de estreia.
Então às vezes achava que estávamos executando um sprint numa corrida sem linha
de chegada. Dessa perspetiva, foi o mais desafiante e, sem dúvida, o mais
exaustivo.
M.L: Em 2014, ganhou,
juntamente com Alfonso Cuarón, o Óscar de Melhor Montagem por “Gravidade”. Qual
foi a sua sensação, quando Anna Kendrick e Gabourey Sidibe anunciaram o seu nome?
M.S:
Honestamente, eu acreditei que o meu amigo Christopher Rouse iria ganhar por
“Capitão Phillips”, portanto foi uma surpresa genuína. Naquele momento, acabou
por se tratar de agradecer a toda a equipa. Há tantos heróis desconhecidos que
trabalham nos bastidores sem o crédito apropriado que foi extremamente
importante para mim e que todos e cada um deles foram agradecidos. Então eu fiz
um esforço concertado para lembrar de todos no meu discurso, o que não é fácil
à frente de 50 milhões de pessoas eu lhe posso garantir, mas graças a Deus eu
consegui de alguma forma.
Gabourey Sidibe, Mark Sanger, Alfonso Cuarón, Anna Kendrick
M.L: Como olha para os
altos e baixos da indústria cinematográfica, pelo menos desde que se iniciou há
duas décadas?
M.S:
Fazer cinema nunca é fácil, é sempre uma batalha. A este respeito, as coisas
não mudaram e eu não acredito que elas deveriam. Algumas das maiores obras
artísticas vêm das profundezas dessas batalhas. Mas eu acho que houve uma
reversão no tamanho e alcance da produção de filmes. Quando eu comecei havia
muitos filmes pequenos a serem feitos e alguns blockbusters de verão. Agora parece que há mais blockbusters e alguns projetos pequenos.
Talvez isso seja porque muitos destes migraram para a Netflix e Amazon, que
fornecem ambientes de trabalho ricos para storytellers
criativos, mas acho que provavelmente é mais difícil obter financiamento para
filmes independentes do que nos velhos tempos e foi bastante difícil então.
M.L: Recentemente, co-editou
“Transformers: O Último Cavaleiro” de Michael Bay, que foi lançado em Junho
passado e é o quinto filme da saga “Transformers”. Como é que este projeto chegou
até si?
M.S:
A verdade é que eu tenho um agente muito bom que me consegue ofertas e
projetos!
M.L: Como foi trabalhar
com Michael Bay, durante o processo de edição?
M.S:
Eu aprecio todas as formas de colaboração de equipa e este foi o melhor exemplo
de coesão de equipa editorial com a qual participei até agora. A tarefa era
enorme. Múltiplos editores, 900 mil metros de filme e, felizmente, um líder
forte no controlo de tudo. O processo de Michael é fazer seleções diárias e
depois dar-nos cada liberdade criativa para trabalhar com as cenas, como nós
gostamos. Normalmente, todos os editores reuniam-se pela manhã para discutir as
seleções de Michael e, em seguida, o que pretendíamos fazer com as nossas
cenas, para garantir que sempre nos comunicássemos. Foi um processo intenso
devido ao horário, mas foi sempre um processo aberto e criativamente
colaborativo. Eu nunca tinha trabalhado com ninguém da equipa do “Transformers
5” e acabei por fazer amigos para a vida.
Michael Bay e Mark Sanger no lado direito da fotografia
M.L: A saga
“Transformers” celebrou 10 anos de existência em 2017. Como olha para este
ícone da cultura pop que as pessoas
tanto adoram como odeiam?
M.S:
Para mim, eu tenho que dizer que acho que a sua popularidade duradoura é, em
parte, ao facto de que Michael Bay é um genuíno génio cinematográfico. Quantos
realizadores lá fora são conhecidos pelo seu próprio estilo único? O Michael faz
parte de um seletivo grupo internacional que têm o talento e a experiência para
serem reconhecidos como artistas puramente do seu estilo visual. Essa é a razão
pela qual as pessoas se reúnem para ver os seus filmes.
M.L: Gostava de, um
dia, fazer a sua estreia na realização?
M.S:
Sim, eu estou ligado a alguns projetos para fazer exatamente isso. Mas a edição
é a minha paixão por agora.
M.L: Qual conselho que
daria a alguém que queira ingressar numa carreira cinematográfica?
M.S:
A verdade é que a realidade da indústria é muitas vezes um reflexo sombrio da
paixão com que entras em relação ao cinema. No entanto, isso não quer dizer que
não pode ser tudo o que imaginaste. Se realmente tens uma paixão, fica com as tuas
armas. Aprende o teu ofício desde o início e lembra-te de que a ambição é
excelente, desde que nunca seja à custa dos outros. Aceita qualquer trabalho
que puderes na indústria e cria o teu próprio nicho para alcançares o teu
objetivo. A experiência é tudo e a paciência é uma virtude.
M.L: Que balanço faz do
percurso que tem desenvolvido até agora como editor?
M.S:
Eu sabia o que eu queria fazer desde muito cedo e recebi as oportunidades de
manter um plano de décadas até agora. Muito poucas pessoas conseguem os intervalos
que tive e então eu considero-me muito sortudo. Mas há muito mais que eu quero
alcançar.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
M.S: A edição é a minha
segunda paixão. A primeira é a minha família e gostava de passar menos tempo a
editar e mais tempo com elas.ML