sábado, 25 de julho de 2015

"Black Angel"


Em 1980, o realizador e cenógrafo britânico premiado com um Óscar da Academia, Roger Christian, estreou-se na realização com a curta-metragem, "Black Angel", um épico de fantasia de baixo orçamento filmado nas mais belas paisagens da Escócia e estreado em certas salas de cinemas juntamente com "Star Wars: Episódio V-O Império Contra-Ataca".

Perdido durante mais de 30 anos e recuperado recentemente, "Black Angel" vai-se tornar agora numa longa-metragem protagonizada por Rutger Hauer, John Rhys-Davies e Laura Weissbecker e que está a ser alvo de uma campanha de crowdfunding para conseguir financiamento para a sua concretização (https://www.indiegogo.com/projects/black-angel-a-fantasy-feature-film#/story).


Entrevista de Roger Christian no "VHS-Vilões, Heróis e Sarrabulho"
















Mário Lisboa

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Mário Lisboa entrevista... Daniel Louro

Desde cedo que se interessou pelo audiovisual e tem desenvolvido um versátil percurso nessa área passando por fases diferentes. Apaixonado pelo Cinema, desde 2012 que é co-anfitrião da série de podcasts, "VHS-Vilões, Heróis e Sarrabulho", que é dedicada nomeadamente ao chamado Cinema chunga, e gostava de, um dia, fazer uma longa-metragem seja documental ou de ficção. Esta entrevista foi feita no passado dia 18 de Julho.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo audiovisual?
D.L: Cedo. Muito provavelmente na primeira vez que entrei numa sala de Cinema, numa daquelas sessões de Cinema infantil, com filmes como “Em Busca do Vale Encantado” (1988). O Cinema sempre foi para mim a mais fascinante arte de contar histórias. Como qualquer garoto criado nos anos 80 e crescido nos 90, devo ter comido mais horas de televisão do que qualquer outro media, mas o encantamento só acontecia naquela sala de tela gigante. Já manifestei muitas vezes, por exemplo, aquele que para mim é o filme que mais me marcou: “Parque Jurássico” (1993). Acho que é capaz de ser o “Star Wars” da minha geração e a cassete que mais vezes rolou no videogravador lá de casa.

M.L: Quais são as suas influências nesta área?
D.L: É difícil. Quando penso em influências, penso num bolo imenso de Cultura popular. Nem quero imaginar que respostas terão os garotos de hoje em dia quando lhes perguntarem isso daqui a 30 anos, visto que vivemos num mundo onde tudo acontece tão depressa. De forma muito geral, a ficção científica sempre mexeu comigo. Era um daqueles miúdos de óculos e aparelho que devorava ovnilogia e sentia que o “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” (1977) podia muito bem ser um documentário. Por isso já aqui vão 2 referências ao Steven Spielberg. Acho que ele é capaz de ter sido uma das mais pesadas influências.

M.L: Qual foi o trabalho que mais o marcou, até agora, durante o seu percurso profissional?
D.L: Nunca tive nada verdadeiramente marcante. Sou um tipo que já fez tanta coisa dentro do audiovisual, que acabo por me perder. Mas já que me pergunta isso, relembro aqui uma webserie, cuja ideia original não foi minha mas para a qual contribui em peso para que se tornasse na minha primeira coisa a sério com um público atento e alguma ressonância: chama-se “Super Mercados” e foi um projeto que fiz em parceria com a Sapo Vídeos no estúdio onde comecei a trabalhar em 2007. A ideia era visitar mercados municipais e interagir com clientes e comerciantes. O resultado era um magazine semanal, ao estilo da “Liga dos Últimos”, e foi a primeira vez que contribuí para algo que contava com milhares de visualizações diárias e um feedback muito positivo. Ainda está tudo online aqui: http://videos.sapo.pt/supermercados.

M.L: Tem passado por fases diferentes, durante o seu percurso na área do audiovisual. Gostava de, um dia, ter a possibilidade de dirigir um projeto cinematográfico?
D.L: Gostava, claro. E ideias não faltam. Mas o comodismo profissional nunca me deixou arriscar nessa área. Mas nunca é tarde!

M.L: Desde 2012 que é co-anfitrião da série de podcasts, “VHS-Vilões, Heróis e Sarrabulho”, que é dedicada nomeadamente ao chamado Cinema chunga (https://www.youtube.com/user/VHSPodcast/videos). Já alguma vez imaginou que o “VHS” tivesse a evolução considerável que tem tido até agora?
D.L: “Evolução considerável” é capaz de ser uma descrição um pouco exagerada. Ganhamos o nosso público de curiosos e seguidores, mas a verdade é que o formato podcast ainda não foi abraçado pelos portugueses. Até me faz alguma comichão como é que há tanto ouvinte de programa de rádio, dos mais diversos programas e contudo ninguém se digna a procurar na Internet e a descarregar para o telemóvel a oferta online gratuita que já existe por aí, seja em inglês ou português. Somos capazes de fazer uma viagem de autocarro ou automóvel a ouvir rádios que passam as mesmas 5 músicas quase em loop um dia inteiro quando se calhar, há 1 ou 2 tipos algures no Mundo a fazer um podcast ou uma setlist musical muito mais interessante e informativa. E que é a nossa cara! Não digo que o “VHS” seja melhor que isso tudo, pelo contrário (o nome “chunga” não veio por acaso). No entanto, ainda nos auto-flagelamos muito como público, em Portugal.

M.L: Na sua opinião, qual foi o momento mais marcante destes quase 3 anos de existência do “VHS-Vilões, Heróis e Sarrabulho”?
D.L: Terei de cair na repetição e dizer, como julgo que o Paulo já disse, a entrevista com o realizador Albert Pyun. De um momento para o outro, e graças à Internet, tínhamos ali à nossa frente, metaforicamente falando, um dos grandes realizadores do tal Cinema chunga. E abriu-se uma caixa de Pandora! Neste momento temos na calha uma lista de atores, realizadores e muitos outros, que contribuíram para uma série de filmes da nossa geração e que são, por incrível que pareça, gente comum e extremamente acessível. E cheios de vontade de contar histórias por detrás dessa máquina de sonhos! E olhe que não há muitos podcasts, mesmo internacionais, a fazer isto.

M.L: O “VHS-Vilões, Heróis e Sarrabulho” também tem como co-anfitrião o Paulo Fajardo. Como é trabalhar com ele?
D.L: Bom… o Paulo que me perdoe, mas ele é um chato do caraças. E ele se for honesto vai dizer o mesmo de mim! Mas acho que a piada é mesmo essa. Chateamo-nos um ao outro, discordamos visivelmente (ou melhor dizendo, audivelmente) nas gravações, mas olhando para a génese, o conceito teria mesmo de ser esse. Dois tipos a falar de filmes, sem filtros, como fazemos desde que nos conhecemos. E como é lógico, isso teria de ficar agreste de vez em quando!

M.L: Como vê, atualmente, o audiovisual, a nível global?
D.L: Negro e tenebroso, como um velho qualquer diria! Mas sendo realista, tenho alguma inveja do que se vive hoje a nível de influências culturais e o Cinema é a grande prova disso. Quando era puto, não havia YouTube, não havia “Harry Potter”, não havia bullying. Ok, havia, mas era “levar porrada” e isso não tinha charme nenhum. Hoje afinaram-se os gostos e já ninguém tem vergonha de dizer que tem um boneco do Homem-Aranha ou do Batman no quarto. Mesmo com 30 anos. Já não estamos sozinhos. O mundo audiovisual sabe disto tudo e tem orgulho dele próprio. Vivemos uma era saudosista e experimentalista ao mesmo tempo. São tempos curiosos, os que vivemos.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na área do audiovisual?
D.L: Que pape de tudo um pouco. Que veja filmes de que goste e que não goste. Que crie opiniões e que se foque. Que questione o politicamente correto, que é uma das piores pragas das redes sociais neste momento. Que seja sonhador e que ocupe os tempos livres a experimentar e a criar.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
D.L: Uma longa-metragem, documental ou de ficção. Ah, e correr nu com uma GoPro na cabeça. Ainda não decidi qual o projeto mais realista.ML

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Mário Lisboa entrevista... Moema Silva

Iniciou-se como jornalista em 1981 e desde aí tem desenvolvido um considerável e sóbrio percurso na área do jornalismo que já conta com 34 anos de existência. Filha de portugueses e nascida no Brasil, especializou-se nomeadamente no intercâmbio luso-brasileiro, e o seu próximo projeto é criar o seu próprio blogue. Esta entrevista foi feita no passado dia 5 de Julho.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo jornalismo?
M.S: O meu interesse pelo jornalismo surgiu muito cedo. Aos 8 anos de idade, depois de ter querido ser princesa loura e de olhos azuis, anunciei aos meus pais que iria ser jornalista. Nunca mais mudei de ideias.

M.L: Quais são as suas referências nesta área?
M.S: Fui muito influenciada pelo jornalismo brasileiro, que por sua vez, segue o estilo norte-americano. Gosto de conversar com os meus entrevistados e não de os interrogar. Para isso, é preciso preparar bem o trabalho de casa. Ser descontraído não significa obrigatoriamente improvisar.

M.L: Como vê, atualmente, a Comunicação Social em Portugal?
M.S: Acho que a Comunicação Social, não apenas em Portugal como no Mundo inteiro, está a sofrer mudanças radicais devido ao advento do digital. Praticamente, já nenhum órgão de Comunicação Social consegue dar notícias em primeira-mão, pois com a Internet, toda a gente sabe de tudo quase ao mesmo tempo.

M.L: Em 2015, celebra 34 anos de carreira, desde que começou como jornalista em 1981. Que balanço faz destes 34 anos?
M.S: O balanço é positivo. Sinto-me realizada por ter conseguido manter-me até hoje na profissão que escolhi. Não tenho um emprego, tenho uma carreira. E orgulho-me bastante dela. Mas confesso que nunca me sinto tão velha a ponto de ter já mais de 30 anos de jornalismo. E ainda não me considero uma veterana.

M.L: Vive em Portugal, mas nasceu no Brasil, sendo filha de portugueses. Como vê, hoje em dia, os dois países, a nível de intercâmbio?
M.S: Esta é uma pergunta complexa, pelo que vou cingir-me apenas ao aspeto cultural do intercâmbio luso-brasileiro. Brasil e Portugal estão unidos pelo nosso maior património comum, que é a língua. Nesse sentido, haverá sempre muito o que fazer para incrementar o intercâmbio, pois há que garantir esta herança para as futuras gerações. Do ponto de vista artístico, durante varias décadas houve a sensação de que os portugueses admiravam mais os brasileiros do que vice-versa. Mas penso que nos últimos anos, Portugal tem marcado presença constante no Brasil e mudado um pouco essa perspetiva. Veja-se o exemplo de António Zambujo e Carminho no Fado ou de Leonel Vieira no cinema. Veja-se as inúmeras parcerias que se têm criado no campo das artes plásticas, da dança, do teatro e até da televisão. Acho que, hoje em dia, o intercâmbio está muito mais equilibrado.

M.L: Entrevistou personalidades de diferentes áreas e nacionalidades ao longo de 34 anos como jornalista. De todas as entrevistas que fez, qual foi a mais marcante para si?
M.S: É quase impossível escolher uma única entrevista entre centenas... Mas posso dizer que me senti privilegiada por ter tido a oportunidade de falar com a Madre Teresa de Calcutá. Uma entrevista de poucos minutos, realizada no Aeroporto de Lisboa, mas muito marcante para mim. Mas como na verdade sou especialista em artistas brasileiros, não posso deixar de citar nomes como Fernanda Montenegro, José Wilker, Marília Pêra, Antonio Fagundes, entre dezenas de outros... Com destaque particular para a minha atriz favorita, Glória Pires, que entrevisto regularmente desde o início da minha carreira e com quem é sempre um grande prazer conversar. E na música, Ney Matogrosso, que é super-culto e super-charmoso.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na área do jornalismo?
M.S: Não me sinto à vontade para dar conselhos gerais. Acho que cada caso é um caso. Penso, no entanto, que continua a ser importante ter vocação para o jornalismo.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
M.S: O meu próximo projeto é criar o Blog da Moema.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
M.S: Ainda não viajei pelo Mundo tanto quanto gostaria. Mas não perdi a esperança de o fazer!ML

Fotografia: António Pedro Ricardo

domingo, 5 de julho de 2015

Brevemente...

Entrevista com... Moema Silva (Jornalista)

Fotografia: António Pedro Ricardo 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Mário Lisboa entrevista... Rui Neto

Estreou-se na representação em 1999 com a peça "O Achamento" e desde aí tornou-se num dos atores mais dotados da sua geração, com um percurso que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "O Último Beijo" (TVI), "Queridas Feras" (TVI), "Floribella" (SIC), "Vingança" (SIC), "Resistirei" (SIC), "Sedução" (TVI), "Sinais de Vida" (RTP), "Sol de Inverno" (SIC) e "Água de Mar" (RTP). Além da representação, também tem experiência como encenador, e, recentemente, participou na peça "Amor e Informação" de Caryl Churchill, encenada por João Lourenço e foi premiada com o Prémio Autores na categoria de Melhor Espetáculo de Teatro. Esta entrevista foi feita no passado dia 14 de Junho.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
R.N: Foi por acaso. As praxes da Faculdade levaram-me até ao grupo de teatro da Faculdade e daí a curiosidade e o gosto que fui criando fizeram-me procurar mais formação e encarar o percurso artístico como uma possibilidade profissional. Sempre fui tímido e recatado. Nunca fui um espalha-brasas com uma grande “latosa”. Mas sempre gostei muito de ler e de brincar. De alguma forma entretinha-me nas minhas próprias brincadeiras e nas histórias que imaginava. Talvez tenha sido o primeiro passo para a criatividade artística.

M.L: Quais são as suas referências, enquanto ator?
R.N: O meu avô. Foi a pessoa que me ensinou a brincar, que perdeu tempo a contar-me histórias intermináveis, que me fazia sonhar com universos onde tudo era possível. É a ele que dedico o meu trabalho como ator, que me inspira a ser melhor ator e melhor pessoa. Claro que agora há inúmeros autores e artistas que me inspiram. (Samuel) Beckett talvez seja o autor onde me revejo mais no tipo de universo criativo.   

M.L: Qual foi o trabalho que mais o marcou, até agora, durante o seu percurso como ator?
R.N: Muitas vezes o trabalho que mais marca está também ligado ao período da vida em que se está. Uma coisa influencia a outra. Tive projetos que pela dificuldade em entrar neles foram extremamente marcantes. E outros que foram marcantes, porque estava a atravessar um período mais complicado a nível pessoal. Houve um atelier ainda no tempo da minha formação na ESTC, que me marcou muito pela descoberta que foi para mim enquanto ator. Era um trabalho sobre o “Macbeth”, de (William) Shakespeare. A intensidade e profundidade do trabalho que estava a ser orientado pela atriz e encenadora Joana Craveiro ainda hoje reconheço a marca que deixou.

M.L: Em 2007, participou na telenovela “Vingança” que foi exibida na SIC, na qual interpretou a personagem Fernando Semedo. Que recordações guarda desse trabalho?
R.N: Foi uma novela que fiz no decorrer do último ano do curso de ator na ESTC - o chamado Conservatório. Lembro-me de me sentir um canastrão e de achar que era exagerado chorar em quase todas as cenas, mas de alguma forma isso marcou essa personagem e acabou por fazer sentido. Lembro-me sobretudo de alguns momentos especiais na contracena com alguns atores que tive o privilégio de trabalhar, como a Carla Chambel, Paula Mora, Nuno Melo, Diogo Morgado, Filomena Cautela… que muitas vezes me inspiravam com o seu trabalho.

M.L: Como vê, atualmente, o teatro e a ficção nacional?
R.N: Naquilo que conheço, acho que há muita gente nova a mexer-se para ver os seus projetos concretizados, muitos criadores e atores que se juntam e dinamizam projetos artísticos de valor. Quanto às companhias, certamente passam por períodos complicados com cortes nos subsídios, e cada vez mais se torna complicado desenvolver uma programação coerente, e como ator ser chamado para produções teatrais... pois há cada vez menos meios e recorrem aos da “casa”. Em termos de ficção nacional, acho que as coisas estão bem lançadas e parece-me que existem diversos projetos com alguma diversidade em cada um dos canais, ainda que pudessem apostar mais em séries e noutros formatos que não novelas.

M.L: Em 2015, celebra 16 anos de carreira, desde que se estreou como ator com a peça “O Achamento” em 1999. Que balanço faz destes 16 anos?
R.N: Dizes que são 16 anos? Eu não sei. Não os contei. Parece que foi ontem. E para mim foi ontem. O balanço que faço é um bom balanço. Acho que tive boas oportunidades de trabalho, mas também uns pais que me apoiaram financeiramente. Creio que consegui fazer um trabalho diversificado em várias vertentes. Tenho pena de não ter tido maior fluidez nas oportunidades que foram surgindo, mas ainda assim não me posso queixar, porque de uma forma geral sempre consegui ter trabalho. A vida artística e sobreviveres dela, parece depender mais de vontades exteriores, lobbies, gostos, manias, birras, fetiches, agentes e oportunidades do que de valores relativos às competências e resultados artísticos, e solidez profissional. Neste País a nossa profissão não é reconhecida como deveria ser. Os artistas são trabalhadores a recibo verde, sem direitos nenhuns. A profissão não tem quem a defenda, quem crie estatutos profissionais, quem ponha em causa estruturas e entidades patronais no sentido de proteção de uma classe artística. Em Portugal só dois ou três têm carreiras sólidas, os outros ou são marcas com 100 mil Likes no Facebook ou ninguém sabe quem és.

M.L: Além da representação, também tem experiência como encenador. Em qual destas atividades em que se sente melhor?
R.N: A encenação é uma extensão do meu trabalho como ator. Não surgiu por uma decisão “ai agora vou encenar”. Aconteceu porque num determinado período tinha escrito um texto, e achei que faria sentido levá-lo a cena e dá-lo a conhecer ao público, e como era um monólogo demasiado íntimo, achei que não tinha distanciamento para ser eu a interpretá-lo. Quando dei por mim tinha escolhido um ator, estava a dirigi-lo e tinha estreia marcada. As responsabilidades de ser ator ou encenador são próximas e muito distintas em simultâneo. Como ator acabo por ser mais “egocentrado” na minha pesquisa, nas orientações do encenador que me dirigir. Como encenador, acabo por ter de me relacionar e delegar mais a uma equipa. E os nervos são diferentes: como ator é o medo de falhar, de não conseguir, é um medo pessoal; como encenador é um medo que as coisas falhem, que os outros não consigam, um medo mais exterior. 

M.L: Recentemente, participou na peça “Amor e Informação” de Caryl Churchill e encenada por João Lourenço, na qual interpretou múltiplas personagens. Na sua opinião, acha que devia haver mais produções teatrais diferentes e não-convencionais como esta?
R.N: Não acho este espetáculo particularmente diferente. A peça em si, foge um pouco à norma, devido à sua estrutura. Mas há milhares de peças que fogem à norma. E mesmo uma peça convencional poderá resultar num espetáculo extraordinariamente inesperado, ou exatamente o oposto,  dependendo de quem o encene. Cada vez existem mais “criadores” e menos “encenadores”. Os criadores talvez sejam artistas mais livres para inventar o teatro com balizas mais alargadas do que o texto aponta, cruzando diversas disciplinas artísticas que nem sempre são convocadas num teatro mais clássico. Acho que cada vez mais é esse o teatro que temos. Talvez nem todos tenham a sorte de terem a visibilidade que o “Amor e Informação” teve. Mas que existe bastante diversidade, lá isso existe. Fruto do desemprego e falta de apoios, muitos atores tiveram de se tornar criadores dos seus próprios projetos, dando origem a uma geração de uma vasta diversidade de estilos e estéticas, muito para além das companhias teatrais.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na representação?
R.N: Se achares que não tens nada a dizer, nada a acrescentar, ao panorama artístico então não percas tempo e vai fazer outra coisa. Se achares que sim, então aprende inglês e vai para fora. É difícil em todo o lado, a diferença é que lá fora quando tiveres uma oportunidade irás ser notado por ela. Cá ninguém quer realmente saber. É muito provável que tenhas talento e não tenhas trabalho. Não confundas ser ator com ser famoso. Não confundas ser um borracho com ter talento. Mentaliza-te que podes ter que ser tu a criar o teu próprio trabalho, e que não terás nunca um subsídio de desemprego. 

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
R.N: Irei lançar o meu primeiro livro, com dois textos para teatro, no dia 24 de Junho, no Teatro da Trindade. Irei estrear uma criação minha, “Mechanical Monsters”, de 17 de Julho até 26 de Julho, no Teatro da Comuna, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
R.N: Artisticamente, gostava de fazer cinema, como ator. Gostava de conseguir realizar alguns projetos de teatro importantes que estão na gaveta. Gostava de trabalhar com o Miguel Seabra.


Pessoalmente, gostava de ser pai e de ter disponibilidade financeira para fazer uma viagem longa, atravessar o Atlântico, ou pela Ásia.ML

Fotografia: Conceição Nunes

domingo, 21 de junho de 2015