Falecido no passado dia 14 de Março, o lendário ator Nicolau Breyner faria hoje 76 anos de idade e a propósito do seu aniversário e de prestar homenagem a uma figura maior do que a vida que ainda hoje tem muita importância para mim, eu publico aqui no "Mário Lisboa entrevista..." uma entrevista que o Nico me concedeu no Hotel InterContinental no Porto 1 semana antes do seu falecimento e que foi feita originalmente para um documentário que eu estou a desenvolver sobre o falecido realizador de televisão brasileiro Álvaro Fugulin, com quem o Nicolau Breyner trabalhou principalmente nos tempos da sua produtora NBP (atual Plural Entertainment Portugal).
M.L: Quando conheceu o Álvaro Fugulin?
N.B: Poucos dias depois de
ele chegar a Portugal, confesso que não sei que ano é que foi. Depois ele
trabalhou para mim na NBP (atual Plural) e foi uma amizade de uma série de anos
muito sincera, muito leal e muito bem-disposta. Ele era uma pessoa fantástica,
além de que era um grande profissional, com imensa graça, com grande senso de
humor e era uma pessoa aberta que era fácil de gostar dela. Eu fui muito amigo
dele.
M.L: De todos os trabalhos/momentos que teve com o
Álvaro, principalmente nos tempos da NBP, qual foi o mais marcante de todos?
N.B: Não faço a mínima
ideia. A televisão é uma atividade inconstante a momentos marcantes pela positiva
ou pela negativa. Um dia de televisão passam-se tantas coisas que não faço ideia
qual é que terá sido o mais marcante. O mais marcante para mim foi ter
conhecido aquele ser humano maravilhoso, aquela pessoa espantosa e aquele
grande profissional.
M.L: O Álvaro Fugulin trabalhou na NBP até ao seu
falecimento em Outubro de 2002. Como é que se sentiu quando soube que ele
faleceu muito novo?
N.B: Eu já não estava na
NBP na altura. Mas eu não estava em Portugal quando ele faleceu, estava a
filmar penso que em Espanha. Foi um choque para mim, porque ele era um homem
novíssimo, se bem que eu soubesse que ele tinha um problema de coração, cheio
de força, com tanta coisa para dar e para viver e foi realmente uma perda muito
grande.
M.L: O Álvaro foi um dos que contribuíram para a
criação de uma pequena indústria de ficção nacional. Como vê o legado dele para
as gerações futuras de profissionais do audiovisual?
N.B: Como disse é uma das
pessoas que pela sua atividade como realizador ajudou a consolidar um projeto
que nós começamos de fazer ficção em Portugal, portanto ele tem que ser olhado
como uma das pessoas que também contribuiu para esse impulso.
M.L: Se estivesse com o Álvaro num dia qualquer de
hoje em dia, o que é que diria a ele?
N.B: Eu não sei o que nós
estávamos a dizer, mas estávamos a rir com certeza. O que dizia também não era
muito relevante, mas estávamos com certeza a rir que era uma coisa que nós fazíamos
constantemente mesmo quando estávamos a trabalhar.ML
Eu e Nicolau Breyner, um momento verdadeiramente inesquecível para mim de conhecer pessoalmente um dos meus grandes ídolos e também uma das minhas grandes influências.
A representação surgiu na sua vida devido à necessidade de se expressar e tem desenvolvido um percurso como atriz que já conta com 3 décadas de existência e passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Chuva na Areia" (RTP), "Palavras Cruzadas" (RTP), "Passerelle" (RTP), "Ricardina e Marta" (RTP), "Telhados de Vidro" (TVI), "Verão Quente" (RTP), "Desencontros" (RTP), "Primeiro Amor" (RTP), "Filhos do Vento" (RTP), "Ballet Rose-Vidas Proibidas" (RTP), "Esquadra de Polícia" (RTP), "A Raia dos Medos" (RTP), "Alves dos Reis" (RTP), "Sonhos Traídos" (TVI), "O Processo dos Távoras" (RTP), "Lusitana Paixão" (RTP), "A Ferreirinha" (RTP), "Vila Faia" (RTP), "Morangos com Açúcar" (TVI), "Doida por Ti" (TVI). É casada desde 1998 com o escritor Francisco Moita Flores. Esta entrevista foi feita no passado dia 2 de Julho.
M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
F.G: Não sei bem. A representação
surgiu na sequência de uma necessidade de me expressar, passando primeiro por
outras artes (fotografia, dança, música, canto) que experimentei com maior ou
menor grau de empenho. Todas elas concorreram para me levar até à representação.
Penso que não fui eu que decidi ser atriz, foram as artes da representação que
me decidiram aceitar.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto atriz?
F.G: Muitos dos colegas
com quem tive o privilégio de trabalhar e me ensinaram tudo o que sei. Armando
Cortez, Henrique Canto e Castro, Nicolau Breyner, Manuela Maria, Eunice Muñoz, Pompeu
José, Raul Solnado, Graça Bessa, António Rodrigues e tantos outros
professores e amigos que são as minhas referências de trabalho e de
profissionalismo.
M.L: Houve um trabalho específico que tenha provocado
exigência e talvez algum desgaste emocional em si ao longo do seu percurso como
atriz?
F.G: Todos sem exceção,
por um motivo ou por outro, puseram à prova as minhas capacidades. Nem todos
me exigiram o mesmo esforço mas todos me entregaram alguma coisa preciosa pela
qual valeu a pena lutar. Alguns devolveram-me a alegria da recompensa do
aplauso e do reconhecimento, outros nem tanto. Sinto-me grata à minha
profissão, pelo que me tem dado e não conheço outro modo de trabalhar, sem ser
com uma entrega total. Por isso, não, não há um que se destaque.
M.L: Em 2002, participou na telenovela “Sonhos
Traídos” que foi exibida na TVI, na qual interpretou a personagem Maria de
Lurdes Pereira. Tendo em conta que era uma personagem ciumenta para com o
marido e que não conseguiu grandes feitos na vida, como é que se preparou na
altura para o papel no sentido de tentar entender a Maria de Lurdes e as suas
motivações?
F.G: Não compete ao ator/atriz
fazer juízos de valor à sua personagem, mas sim, compreender-lhe as motivações,
dentro das circunstâncias em que é posta. Que me lembre, a Maria de Lurdes era
uma dona de casa, costureira por necessidade, com uma instrução básica, preterida
pelo marido, a lutar por manter o lar enquanto trabalhava e criava um filho
sozinha. Uma mulher como tantas outras, guerreira do quotidiano, sem nome nos
jornais, nem medalhas no 10 de Junho, mas que, são o tecido mais profundo da
sociedade. Creio que a função narrativa da personagem era esta mesma. O
conflito da Maria de Lurdes é com a alteração de paradigmas que vêm abalar o
seu pequeno mundo, desestabilizando a sua relação com os outros e consigo.
Um mundo que ela não sabe, ou não quer compreender, acabando cruelmente louca e
encarcerada. Isto, foi o que eu compreendi da Maria de Lurdes. Se ela não
alcança grandes feitos, ou se é ciumenta, não sei, provavelmente será isso e
também tantas outras coisas. A verdade é que não há luz sem escuridão. Nunca
uma personagem, tal como as pessoas em que se inspira, é totalmente
"boa" ou "má", feliz ou infeliz, "escura" ou
"clara". É essa a função do ator/atriz. Extrair todos os cambiantes
possíveis dentro do espectro da personagem. Compete ao espectador avaliar
a verdade da representação do ator/atriz identificando-se ou não com a
"verdade" da personagem.
Filomena Gonçalves como "Maria de Lurdes Pereira" em "Sonhos Traídos" (0:03)
M.L: A meu ver, tem sido muito subestimada como atriz
ao longo das últimas 3 décadas de representação. Acha que, um dia, lhe vão dar
um maior reconhecimento a nível artístico?
F.G: Não me sinto
subestimada, mas sim, feliz, com o percurso que me foi possível fazer, pelo
qual lutei e continuo a lutar. Sinto-me estimada por colegas, dentro e fora de
cena, das mais diferentes idades ou proveniências. Respeitada pelo público que
não me esqueceu, apesar das maiores ou menores ausências, a que nos votamos. O
que me move é a esperança de alcançar melhor, construir mais, quando e sempre
que houver oportunidade. É um caminho que se vai percorrendo com as armas e a
bagagem que vamos tendo e ainda há muito para fazer. Não estou preocupada com o
julgamento do tempo, nem nunca trabalhei para alcançar reconhecimento, mas tão
só, com honestidade, tentar ultrapassar os diferentes desafios e obstáculos que
se vão apresentando, ao longo da minha carreira. Os criadores aprendem a
resiliência, estão preparados para aceitar a crítica, não esperam unanimidade e
tentam viver com graça os altos e baixos da vida. Não sei se correspondo a este
retrato mas são estas as linhas que me orientam.
M.L: Desde 1998 que é casada com Francisco Moita
Flores. Como olha para o percurso tanto artístico como policial e político que
o seu marido tem desenvolvido até agora?
F.G: Não olho. Os meus olhos são os da companheira que aceitou partilhar
a vida com alguém que ama e admira. É um olhar íntimo, pessoal, não sobre a
carreira mas o homem.
Filomena Gonçalves e Francisco Moita Flores
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como atriz?
F.G: É de facto o tempo
para balanço no Deve e Haver da minha carreira. Tenho consciência dos erros que
cometi e não quero voltar a fazer, do que está bem e pode ser explorado e
melhorado.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
F.G: Uma só? De um modo
genérico pretendo dedicar-me aos erros.ML
No passado dia 15 de Julho, celebrou-se o 28º Aniversário de "Die Hard-Assalto ao Arranha-Céus", o clássico de ação e suspense non-stop realizado por John McTiernan, que na altura já vinha de 2 longas-metragens seguidas ("Nómadas" (1986) e "Predador" (1987), e que tornou a então estrela televisiva Bruce Willis numa super-estrela internacional ao interpretar John McClane, um dos maiores heróis cinematográficos de todos os tempos que embora não era nada musculado não deixava de ser badass na mesma.
Co-escrito pelo lusodescendente Steven E. de Souza a partir do livro "Nothing Lasts Forever" de Roderick Thorp, eu descobri muito novinho esta gigantesca montanha-russa cinematográfica e desde aí tem sido um dos filmes da minha vida, onde atingiu praticamente a perfeição nomeadamente na parte narrativa e técnica e também no desenvolvimento das personagens. Além de McClane, há outras personagens por quem tenho preferência também como, por exemplo, a decisiva e independente Holly Gennaro-McClane (Bonnie Bedelia), o grande vilão Hans Gruber (Alan Rickman), o vingativo terrorista Karl (Alexander Godunov), o simpático polícia Al Powell (Reginald VelJohnson) que era o grande aliado de McClane, e o polícia burocrático Dwayne T. Robinson (Paul Gleason).
Alan Rickman, Bruce Willis, John McTiernan
Para mim, um dos melhores filmes passados na época natalícia de todos os tempos, "Die Hard-Assalto ao Arranha-Céus" tornou-se numa referência para o cinema de ação e deu origem a 4 sequelas (as 2 últimas são dispensáveis a meu ver). Recomendável para qualquer cinéfilo que se preze e com uma grande banda sonora do falecido Michael Kamen, para terminar cito a frase mais memorável de todo o filme e uma das minhas favoritas de qualquer filme ("Yippee Ki-Yay, Mother Fucker!").
Michael Kamen - "Die Hard-Assalto ao Arranha-Céus"
O grande tema natalício que se pode ouvir no fim do filme
Já dizia muito nova que queria ser atriz, de acordo com a Mãe, e nas últimas 2 décadas tem desenvolvido um percurso muito respeitável na representação que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Vidas de Sal" (RTP), "Filhos do Vento" (RTP), "A Lenda da Garça" (RTP), "Ganância" (SIC), "O Processo dos Távoras" (RTP), "Anjo Selvagem" (TVI), "Coração Malandro" (TVI), "Baía das Mulheres" (TVI), "Tempo de Viver" (TVI), "Deixa-me Amar" (TVI), "Casos da Vida" (TVI), "Olhos nos Olhos" (TVI), "Sentimentos" (TVI), "Sedução" (TVI), "Louco Amor" (TVI), "Belmonte" (TVI). Estreou-se como apresentadora ao substituir Felipa Garnel na apresentação do extinto talk-show da TVI Ficção, "Face to F@ce", e atualmente está no ar na TVI como atriz tanto na telenovela "Santa Bárbara" como na série "Massa Fresca". Esta entrevista foi feita no passado dia 21 de Junho.
M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
S.G: Em criança! A minha Mãe
conta que eu muito pequenina já dizia que queria ser atriz.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto atriz?
S.G: São muitas... O
Nicolau Breyner foi a primeira pessoa que me dirigiu. É uma referência para
mim. É uma falta grande para todos nós. Ficou um grande vazio na ficção
nacional.
Nicolau Breyner e Sofia Grillo
M.L: De todos os trabalhos que tem feito até agora
como atriz, qual foi o que a deixou imensamente orgulhosa do que fez?
S.G: A "Beatriz"
da Telenovela "Belmonte" (TVI) foi uma personagem que me deu muito
gozo fazer e que teve grande impacto! Foi difícil criar aquela personagem mas
acho que o resultado foi positivo.
M.L: Entre 2004/05, participou na telenovela “Baía das
Mulheres” que foi exibida na TVI, na qual interpretou a vilã Vera Moraes. Sendo
licenciada em Direito, reviu-se na Vera nesse aspeto da advocacia, apesar de
que era uma personagem duvidosa com alguns assuntos por resolver?
S.G: A Vera não era uma
personagem com muitos escrúpulos... Não me identifiquei enquanto licenciada em
Direito, mas foi muito aliciante o desempenho!
Sofia Grillo como "Vera Moraes" ao lado de Tozé Martinho em "Baía das Mulheres"
M.L: Fez formação tanto em Paris como em Nova Iorque e
participou em várias produções audiovisuais francesas. Apesar de se ter baseado
a sua carreira essencialmente em Portugal, gostava de, no futuro, apostar mais
no estrangeiro como atriz?
S.G: Faço de vez em quando
produções francesas e gosto muito! Gostava de continuar... Mas onde gosto de
trabalhar é mesmo em Portugal! É para mim mais interessante interpretar
personagens na nossa língua mãe.
M.L: Interpretou uma produtora de televisão em
“Sedução” (TVI) que foi a última telenovela portuguesa escrita por Rui Vilhena.
O que é que aprendeu na parte dos bastidores após ter interpretado a Carmo
Sampaio?
S.G: Que é um ambiente
muito stressante!!! Trabalha-se muito e com muita pressão!!! Não sei se era
capaz...
São José Correia, Maria João Bastos, Sofia Grillo
M.L: Como lida com o público que tem acompanhado a sua
carreira nas últimas 2 décadas?
S.G: Muito bem! É para ele
que trabalhamos, sem o apoio do público não somos nada. A minha relação tem
sido muito saudável e honesta. Fico agradecida por isso.
M.L: Estreou-se como apresentadora no extinto talk-show da TVI Ficção, “Face to F@ce”,
onde substituiu Felipa Garnel. Que recordações guarda dessa experiência?
S.G: Aprendi muito!!! Ouvi
histórias extraordinárias… Foi uma experiência fantástica.
Sofia Grillo entrevista Mónica Sintra em "Face to F@ce"
M.L: Em 2014, “Belmonte” foi nomeada para o Emmy
Internacional na categoria de Telenovela. Como é que se sentiu ao saber que
“Belmonte” recebeu essa nomeação?
S.G: Muito feliz! Foi muito
merecido. Nós trabalhamos para isso... Tivemos um enredo e atores
maravilhosos...
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira na representação?
S.G: Trabalho, dedicação e
amor por esta arte... E sobretudo não desistir ao primeiro "não".
Manter a Fé.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como atriz?
S.G: Balanço positivo. Tenho
tido um percurso muito feliz e estou agradecida por isso. Sobretudo agradecida
ao público que me tem acompanhado durante estes anos com grande fidelidade.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
S.G:
Gostava de voltar ao Teatro! Tenho muitas saudades de pisar o palco!ML