Escrita originalmente em 1944, "Huis Clos-No Exit" é sobre três desconhecidos (Lia Carvalho, Miguel Raposo, São José Correia) fechados numa sala: é isto a eternidade, sem rodeios, entre a simplicidade e a intrincada complexidade do Ser Humano. Seremos o reflexo daquilo que os outros pensam de nós, eternamente condenados à mercê de quem nos observa? Ou serão os nossos atos que definem quem somos? De olhos bem abertos, a eternidade, entre quatro paredes, onde “o Inferno são os outros”.
Começou por ser assistente de bordo e o interesse tanto pela representação como pela Comunicação Social foi crescendo naturalmente e nas últimas duas décadas tem desenvolvido um percurso muito bom como atriz e como apresentadora, sendo muito acarinhada pelo público português. Casada desde 2002 com o fotógrafo americano Tracy Richardson, dedica-se também à causa do cancro da mama através do projeto Guerreiras Portugal, atualmente apresenta o programa "Faz Sentido" na SIC Mulher e recentemente regressou à ficção televisiva com a telenovela "Coração d'Ouro" que foi exibida na SIC. Esta entrevista foi feita no passado dia 27 de Setembro.
M.L: Quando surgiu o interesse tanto pela
representação como pela Comunicação Social?
A.D.S: Não consigo
precisar, foi um desejo que foi crescendo conforme o outro que tinha, de ser
assistente de bordo, foi satisfeito. Trabalho em TV desde 1994 e durante um
tempo fiz ambos com alguma satisfação. Mas lentamente apareceu a necessidade de
me especializar, de melhorar a minha formação e preparação, e a partir daí
segui o caminho da TV sem grandes hesitações.
M.L: Quais são as suas referências nestas duas áreas?
A.D.S: Na televisão, o Aurélio Gomes, um
entrevistador que de facto deixa ver o entrevistado sem artifícios nem edições
de natureza manipuladora, para obter um resultado. Na representação, o Ruy de
Carvalho, pela integridade e dedicação, pela educação e relação com os colegas.
Não consigo gostar de um ator que não cuida da sua contracena.
M.L: Como atriz, houve algum trabalho em particular
que deixou um impacto tanto pessoal como emocional em si?
A.D.S: Não me recordo,
confesso. Tendo a fazer e a esquecer.
M.L: Entre 2004/05, participou na telenovela “Mistura
Fina” que foi exibida na TVI, na qual interpretou a personagem Daniela Macário.
Que recordações guarda de interpretar uma figura da autoridade?
A.D.S: Da dificuldade em
entrar na personagem. Exercer autoridade publicamente não é fácil para mim, não
vem de uma forma orgânica. Foi duro, tive vários problemas, mas depois correu
bem.
Adelaide de Sousa como "Daniela Macário" em "Mistura Fina"
M.L: Como apresentadora, passou tanto pela televisão
generalista como por cabo e na RTP apresentou o popular programa dos anos 90,
“Jet 7”, onde também interpretou a divertida Dolly. Vinte anos depois, as
pessoas ainda falam do programa, quando vêm ter consigo?
A.D.S: Não, penso que isso
já não está presente na mente das pessoas. Se calhar vou ressuscitá-la!
M.L: Desde 2002 que é casada com o fotógrafo americano
Tracy Richardson. Como olha para o percurso que o seu marido tem desenvolvido
até agora?
A.D.S: Enquanto fotógrafo tem sido irregular, tem
havido momentos de muita produção e momentos de paragem, com exceção do projeto
Guerreiras Portugal, em que esteve bastante ativo também como escritor. O meu
marido tem procurado outros caminhos na vida, que eu apoio completamente. Penso
que ele tem muito mais para mostrar do que o que foi visto até agora, e creio
que muito irá ser visível em breve, aqui e noutros lugares do mundo.
Adelaide de Sousa com o seu marido Tracy Richardson e o filho de ambos Kyle
M.L: Nasceu em Moçambique, onde viveu até aos 6 anos
de idade e voltou para lá para gravar a série da TVI, “A Jóia de África”, em
2002. A seu ver, África ainda tem atualmente o seu fascínio e encanto apesar
dos seus altos e baixos?
A.D.S: Eu não tenho estado muito a par de como anda
a África, até porque é um continente e eu só posso dizer que conheço Moçambique.
Mas mesmo Moçambique, não vou lá desde essa altura, e isso foi há 14 anos. No
entanto, sendo África o berço do mundo, penso que tem sempre um lugar especial
no nosso sentido de identidade comum. Claro que tenho esperança de que as
tensões e conflitos constantes acabem um dia, o que seria milagroso dadas as
intermináveis variáveis que estão em jogo.
Adelaide de Sousa como "Eugénia da Cunha" em "A Jóia de África"
M.L: Regressou recentemente à ficção televisiva como a
sofrível Sofia Aguiar na telenovela da SIC, “Coração d’Ouro”, que tem tido
reconhecimento internacional nos últimos tempos. Como é que se preparou para
interpretar esta personagem, tendo em conta que era o seu 1º papel televisivo
em alguns anos e que neste caso passa por algumas mudanças ao longo da trama?
A.D.S: Houve tempo para ensaios antes de começarmos
as gravações, bastante tempo, o que ajudou muito a que eu conseguisse reentrar
no registo de representação por oposição ao registo da apresentadora de TV. A
SIC aposta nesse tempo de ensaio de várias semanas e isso dá frutos visíveis.
Quase não vemos atores a fazerem «bonecos» neste canal, o que marca uma grande
diferença. Mas a culpa não será tanto dos atores, que às vezes podem ser
preguiçosos em criar o tempo e trabalhar como deveriam na sua preparação para
gravar, mas mais das produções que não acautelam essas semanas de trabalho em
conjunto com outros atores e com a direção de modo a estabelecermos os laços
que depois sustentam cada cena. Foi um desafio, até porque as reviravoltas da
trama nem sempre são suportadas pelo perfil psicológico da personagem ou pela
intuição do ator, mas compensou bastante ser esticada nessas diferentes direções,
foi como ir ao ginásio com um novo programa de treino todos os dias.
Adelaide de Sousa com João Reis e Mariana Monteiro, a sua "família" em "Coração d'Ouro"
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira seja na representação ou na Comunicação Social?
A.D.S: Que tenham muita paciência e perseverança,
que se preparem tecnicamente tanto quanto possível, que não hesitem em aceitar
trabalhos de outra natureza porque isso lhes dará experiência de vida e que,
por favor, invistam na sua cultura geral. É confrangedor ver quão pouca cultura
geral existe neste meio, o que empobrece imenso o trabalho. E que nunca
sacrifiquem tudo em prol desse sonho: não compensa.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como atriz e como apresentadora?
A.D.S: Penso que tem sido um percurso num sentido
evolutivo. Isto não quer dizer que tenha sempre a subir, de todo. Tivemos muito
mais baixos do que altos, e o bom disso é que me deu uma apreciação especial
pelos altos, deu-me uma referência constante de que nada me era devido, nem as
oportunidades de trabalho, nem o sucesso ou reconhecimento, nem o dinheiro. Não
tenho partido de uma posição de «tenho 30 anos disto, já deviam dar-me isto ou
aquilo», o que é sempre uma tentação quando vemos gente a chegar, gente a sair
e nem sempre fazemos parte dos projetos com mais visibilidade. Mas considero
que o percurso foi positivo porque sou uma melhor prestadora de serviços nessa
área do que era há 30 anos atrás. No final das contas, só interessa a maneira
como tratamos as pessoas que trabalham connosco, mais nada.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
A.D.S: Ser mãe de família, dona-de-casa, algo que é
muito desvalorizado nesta cultura de produção-a-todo-o-custo, de números e
resultados. Criar uma família, ser um elemento agregador em casa e na
sociedade, é a missão mais importante que podemos ter na vida. Essa está por
cumprir.ML
Uma semana depois de ter estreado nos EUA, estreou em Portugal no passado dia 22 de Setembro o biopic "Snowden" que marca o regresso de Oliver Stone à realização 4 anos depois do intenso "Selvagens" (2012) e com um elenco muito bom de que fazem parte, por exemplo, Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo (http://mlisboaentrevista.blogspot.pt/2015/05/mario-lisboa-entrevista-melissa-leo.html), Zachary Quinto, Tom Wilkinson, Scott Eastwood, Timothy Olyphant, Rhys Ifans e Nicolas Cage.
Exibido no Toronto International Film Festival e no San Sebastián Film Festival, "Snowden" retrata a história verídica do controverso Edward Snowden que em 2013 divulgou informação confidencial da Agência de Segurança Nacional (NSA), o que o levou a exilar-se na Rússia onde vive atualmente. Uma figura dos nossos tempos, cujo o seu futuro está incerto e que tanto é um herói para alguns como traidor para outros.
Oliver Stone, Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Melissa Leo e Zachary Quinto no Toronto International Film Festival a propósito de "Snowden"
Natural de Chaves, o interesse pelo jornalismo surgiu de uma maneira muito natural, começando muito nova a experimentar essa área e tem-se revelado como um grande talento jornalístico que nunca deixa um desafio de lado. Desde 2003 a trabalhar na SIC, também tem experiência na apresentação de programas sobre automóveis ("TV Turbo" & "Volante"), e considera-se como alguém que tem muito para aprender. Esta entrevista foi feita no passado dia 24 de Setembro.
M.L: Quando surgiu o interesse pelo jornalismo?
L.C: Sempre fui curiosa
por natureza e desde muito pequena que falava muito nas aulas. De alguma forma
o bichinho do jornalismo sempre esteve dentro de mim. Depois tive a
oportunidade de participar em algumas experiências que alimentaram ainda mais a
minha paixão pelo jornalismo. Aos 11 anos, já tinha escrito para o jornal
"O Primeiro de Janeiro" e pouco tempo depois comecei a trabalhar numa
rádio local, a antiga "Rádio Larouco", com uma rubrica de culinária
de segunda a sexta-feira. Ao mesmo tempo, tive bons professores de português
que sempre me incentivaram e foram muito criteriosos na aprendizagem e uso
da língua portuguesa. Em casa, sempre senti a liberdade de escolha. Os meus
pais nunca fizeram qualquer tipo de imposição.
M.L: Quais são as suas referências nesta área?
L.C: São tantas e tenho a
sorte de trabalhar numa casa feita de grandes jornalistas. É um privilégio
poder aprender todos os dias, desde o primeiro dia, com "senhores e
senhoras" do rigor, da isenção e da verdade. Sem querer ser injusta,
destaco exemplos como o José Manuel Mestre, o Pedro Coelho ou a Cândida Pinto. Mas
quero deixar claro que a SIC está cheia de grandes profissionais em todas
as áreas.
M.L: Desde 2003 que trabalha na SIC e tinha 11 anos de
idade, quando o canal foi lançado em 1992. Como vê a evolução que a SIC tem
tido, desde que ingressou no canal até agora?
L.C: A comunicação social
é o espelho do que se passa no mundo. A realidade está em permanente mutação e
de forma cada vez mais rápida. Creio que a SIC tem sabido adaptar-se
constantemente e responder de forma assertiva aos desafios, sem perder a
identidade e os valores-base do jornalismo.
Liliana Carvalho na condução do programa diário "Opinião Pública" na SIC Notícias
M.L: De todos os trabalhos que tem feito até agora como
jornalista, qual foi o mais marcante para si a nível de profundidade e investir
o seu tempo?
L.C: Sou uma pessoa que
gosta de desafios. Em televisão não há tarefas mais importantes do que outras,
mas cada uma tem as suas especificidades. Seja em que papel for, de pivô, a
repórter, passando pela coordenação, tento dar a cada segundo o melhor de mim. Já
passei por várias áreas e acredito que todos os dias crescemos um bocadinho
como pessoas. São os nossos princípios que fazem a diferença na vida, como no
jornalismo. De todas as formas, tenho muito para aprender.
M.L: É natural de Chaves e desde 1999 que vive em
Lisboa. Gostava de, um dia, regressar ao Norte no que toca a viver e trabalhar lá?
L.C: Sou de Chaves e muito
orgulhosa de ser flaviense. Preciso sempre de voltar às minhas origens, até
porque é lá que está grande parte da minha família. Adotei Lisboa como cidade
do meu coração há muitos anos e depois de ter vivido em Madrid, senti ainda
mais saudades do Tejo, do mar, da serra, da luz, dos encantos da cidade que me
acolheu também. Não se pode prever o futuro a longo prazo, não sei onde irei
parar, mas para já, é aqui a minha vida.
M.L: Tem experiência na apresentação de programas
sobre automóveis (“TV Turbo” & “Volante”). Como olha para o futuro da
indústria automóvel nos próximos anos?
L.C: As vendas
de automóveis servem muitas vezes de indicador do estado da economia de um
país. Quanto à indústria do setor automóvel diria que está em ebulição com
enormes desafios pela frente. Não é possível travar a revolução tecnológica e a
necessidade de eficiência energética.
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira na área jornalística?
L.C: Creio que
deveria procurar conhecer a realidade do mercado laboral e conhecer
todo o processo que envolve o trabalho jornalístico antes de tomar uma decisão.
É-se jornalista 24h sobre 24h. Não é daquelas profissões que dá para desligar
ao sair do local de trabalho e voltar a ligar no dia seguinte. Parece-me que
muitos jovens não têm uma noção clara dos sacrifícios pessoais e familiares que
a nossa profissão exige. Querer ser jornalista tem que vir do âmago do nosso
ser. Só assim é possível ultrapassar desafios e obstáculos e são muitos.
Ninguém quererá saber se passámos a noite em branco, se estamos tristes, se
temos problemas. O nosso "eu" fica de fora, na hora de informar os
portugueses, porque eles merecem o melhor de nós.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como jornalista?
L.C: É um balanço muito
positivo, com a noção que o caminho que tenho pela frente é muito longo e que
tenho muito ainda para aprender e para dar.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
L.C: Termino esta entrevista como comecei. Falta tanta
coisa e acho que faltará sempre, até ao meu último dia de vida. Porque é assim
que eu sou: "insatisfeita por natureza".ML
Nicolau Breyner, recentemente condecorado como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique a título póstumo, é um dos meus grandes ídolos e também uma das minhas principais influências na vida nomeadamente pela sua carreira multifacetada que desenvolveu ao longo de 56 anos, pela sua maneira de estar na vida e pela marca que deixou no Mundo, mais concretamente este país lusitano chamado Portugal, e por isso eu estava com expectativas enormes em 2009 quando estreou o thriller policial, "Contrato", que marcou a sua estreia na realização para cinema após vários anos a realizar para televisão.
Baseado no livro "Requiem por D. Quixote" de Dinis Machado e com um elenco liderado por Pedro Lima e Cláudia Vieira, "Contrato" retrata Peter McShade (Pedro Lima), um hitman atormentado, e a sua jornada de cumprir o contrato de assassinar o poderoso mafioso Georgios Thanatos (Nicolau Breyner) e na altura foi um sucesso de bilheteira apesar de ter sido alvo de saco de pancada por parte da crítica. O que para mim foi injusto, pois apesar de não ser um filme perfeito, eu acho que é uma decente primeira realização de Nicolau Breyner que fez o melhor filme possível, apesar das limitações tanto de orçamento como de dias, e rodeado dos melhores profissionais do meio audiovisual português. E eu tenho que salientar a minha cena favorita de todo o filme que é uma conversa muito tarantinesca* entre McShade e Thanatos, pois uma das coisas que eu gosto imenso em cinema principalmente é de momentos em que as personagens apenas falam.
"Contrato" é apesar de tudo uma boa diversão no cinema, um bom entretenimento para se ver por exemplo num sábado à noite e também um contributo português para o género noir merecedor de ser mais visto nem que seja para conhecer um pouco mais do lado realizador do chamado "Pai da Ficção Nacional".
Mário Lisboa
*Referência ao realizador/guionista Quentin Tarantino