Entrevista com... Sérgio Graciano (Realizador)
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
domingo, 25 de dezembro de 2016
Mário Lisboa entrevista... Manuela Ortigão
Natural de Espinho e filha de uma professora, o interesse pelo ensino surgiu na universidade, tendo começado a trabalhar como professora na área de Físico Química em 2000 e desde aí tem desenvolvido um percurso que tem tanto de versátil como de interessante. Muito apaixonada pelo que faz e reconhecida nomeadamente a nível internacional pelo seu trabalho, tem como lema de vida "querer é poder" e prefere não fazer grandes planos, pois também gosta de surpresas. Esta entrevista foi feita no passado dia 8 de Novembro.
M.L: Quando surgiu o interesse pelo Ensino?
M.O: O meu interesse pelo
ensino surgiu na universidade, ou melhor, se calhar esteve cá sempre e eu não
me tinha apercebido. Nessa altura tinha muitos interesses, era muito curiosa,
imatura, gostava de desafios e de fazer experiências no laboratório. Ingressei
na universidade com 17 anos e, tal como acontece com muitos dos meus alunos do
12º ano, não tinha a certeza de qual seria a minha futura profissão mas estava
certa que se centrava nas ciências. Terminei a Licenciatura em Química
Analítica aos 21 anos, trabalhei na investigação no departamento de Química da
Universidade de Aveiro (UA) e apercebi-me que não estava completamente
realizada apesar de considerar a experiência muito enriquecedora. Sempre gostei
de estudar em grupo e sentia-me muito confortável a trocar ideias e a explicar,
com sucesso, a alguns colegas conteúdos quando estudávamos para os exames.
Fui-me apercebendo que tinha que redirecionar os meus estudos e ingressei
novamente na UA tendo concluído a Licenciatura em Ensino de Física e Química
passados três anos.
M.L: Quais são as suas referências nesta área?
M.O: A minha mãe foi
professora e eu sempre vivenciei a escola através dela, admirava o seu
profissionalismo e a forma como se dedicava à escola e aos seus alunos. Adorava
vê-la a corrigir testes e às vezes pedia-lhe para “dar mais uns pontinhos”
quando o aluno estava muito próximo de 50%. Já no final de carreira, dizia-me
para não seguir o ensino que a profissão era muito desvalorizada pela sociedade,
que o ambiente nas escolas tinha mudado e que seria muito desgastante e
desmotivador para mim. A sua opinião, apesar de muito importante para mim,
acabou por não me demover daquilo que acabei por descobrir ser a minha paixão.
Ao longo do meu percurso tive bons professores mas recordo dois em especial que
me marcaram e me ajudaram a definir a minha identidade enquanto docente. O Dr.
João Oliveira, meu orientador de estágio científico e meu coordenador na
investigação no departamento de Química da UA, foi o meu grande mentor que
sempre me desafiou a superar-me e que foi responsável pela minha grande
indecisão entre a investigação científica e o ensino. A Dra. Fátima Paixão que
conheci aquando da minha licenciatura via ensino, deslumbrou-me pela forma como
conduzia uma aula, ouvia atentamente as intervenções, as dúvidas e receios dos
futuros professores. Foi a minha orientadora no mestrado em didática
da física e química que terminei em 2013 e continua a ser o meu pilar na
atualidade pois temos continuado a trabalhar juntas em alguns projetos. Não
posso deixar de referir os inúmeros colegas de trabalho com quem fui
trabalhando em várias escolas, que me marcaram muito pelo seu profissionalismo,
entrega e amizade.
M.L: Durante o seu percurso como professora, houve
algum momento em particular que a deixou muito orgulhosa de si própria e do que
faz como profissão?
M.O: Não sei se posso
eleger um momento particular que me tenha deixado orgulhosa pois, felizmente,
muitos foram esses momentos! Fico muito contente por manter o contacto com
alguns dos meus ex-alunos, como é o teu caso Mário, saber as novidades que têm
para me dar, festejar com eles os sucessos e apoiá-los nas suas fraquezas.
Aprecio quando os alunos vêm ter comigo na rua para me cumprimentar mesmo
correndo o risco de eu já não me lembrar deles. Fico orgulhosa dos prémios que
eles recebem na sequência de trabalhos que vou orientando. Orgulha-me também a
confiança que os Encarregados de Educação depositam em mim quando sou diretora
de turma solicitando a minha manutenção no cargo no ano subsequente. Acima de
tudo aquilo que mais me orgulha é o facto de me esforçar diariamente para
garantir a aprendizagem dos meus alunos respeitando sempre os seus ritmos e a
forma como aprendem. Portanto, orgulha-me muito o profissionalismo que assumo
na docência e o facto de este ser apreciado e valorizado pelos meus alunos.
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| Eu e a Manuela Ortigão no Centro Multimeios de Espinho. Uma das minhas melhores amigas que também foi minha professora. |
M.L: A Educação, no contexto português, tem passado
por tempos difíceis. Numa altura muito desafiante para esta área específica,
vale a pena lutar pelo futuro das gerações mais novas e assim diminuir a muita
ignorância que existe atualmente?
M.O: Não sei se concordo
com a palavra ignorância para classificar a geração de jovens da nossa
sociedade. Parece-me um chavão utilizado muitas vezes pelos mais velhos quando
denotam nestes jovens falta de cultura geral, e, nesse contexto posso concordar
parcialmente contigo. Repara no significado da palavra ignorância no
dicionário: “aquele que ignora; que não tem instrução, que não sabe bastante da
sua profissão”. Estamos na presença de uma das gerações mais qualificadas, que
enfrenta desafios terríveis no mercado de trabalho, a quem são exigidas
competências que não foram trabalhadas convenientemente na escola. Será que são
estes jovens ignorantes? Não creio. Estes jovens são o produto de um
desinvestimento na educação, da incongruência entre os curricula lecionados nas
escolas e as necessidades do mercado de trabalho, de uma falta de um ensino
centrado no aluno que o obrigue a pensar, a tomar decisões, a comunicar, a
colaborar e a sentir-se como agente ativo numa aula e não como mero espectador.
Precisamos de uma escola do século XXI pois os nossos alunos estão ávidos dela!
Será que vale a pena investir neles? Claro que sim. Dará muito trabalho uma
escola do século XXI, é preciso mudar mentalidades fomentando a colaboração,
repensar aquilo que é ensinado e como é ensinado nas escolas, valorizar os
professores e reconhecer o seu trabalho, dar-lhes condições de trabalho e
reduzir a sua precariedade.
M.L: Como professora, especializou-se em Físico
Química. O que a cativa mais nesta disciplina específica?
M.O: Como sabes esta
disciplina aborda duas grandes áreas da ciência: a física e a química. Se por
um lado é extremamente exigente pois obriga o professor a atualizar-se
cientificamente em duas ciências, por outro é apaixonante pois as ligações
entre estas e a matemática e as ciências naturais são uma constante. Esta
particularidade apela frequentemente à interdisciplinaridade o que me agrada
bastante e me ajuda a desmitificar a ideia de compartimentação que os alunos
têm acerca das disciplinas. Costumo dizer-lhes que não existem “gavetinhas”
fechadas onde se coloca a “matéria” de cada disciplina, é preciso estabelecer
ligações para que a construção do conhecimento faça sentido e perdure no tempo.
Outra das vertentes que me agrada muito nesta disciplina é a sua componente
laboratorial/experimental. Gosto muito de preparar atividades para os meus
alunos, fico um pouco apreensiva no início, às vezes até ansiosa, com a
possibilidade de não serem motivadoras para eles, ou de não conseguir atingir
os objetivos a que me propus. Quando oriento estas aulas, sinto-me como uma
criança pois partilho do entusiasmo deles, gosto muito de os ver experimentar,
tirar conclusões e sugerir alternativas. Aprendo muito com os meus alunos!
M.L: Tem viajado muito pelo Mundo profissionalmente e
também tem recebido prémios pelas Escolas onde tem trabalhado. Como é que se
sente ao conhecer culturas diferentes devido ao seu trabalho e também ao ter um
reconhecimento que na verdade é mais internacional do que nacional?
M.O: O facto de conhecer
lugares novos, culturas diferentes e simultaneamente partilhar experiências de
formação no estrangeiro tem sido uma mais-valia para mim. Gosto muito de viajar
pois é uma forma de aprender fantástica, que me cativa muito e tenho tido o
privilégio de o conseguir acrescentar à minha carreira profissional. A
colaboração com professores estrangeiros permite-me ter uma visão mais
abrangente relativamente à educação na Europa e simultaneamente perceber de que
forma é que eu posso contribuir para que no meu país os alunos tenham acesso a
oportunidades, projetos e atividades idênticas às dos seus congéneres europeus.
Este é um esforço acrescido ao trabalho que faço diariamente na escola pois
obriga-me a dedicar tempo também em formação contínua online na modalidade de MOOC, cursos ou videoconferência. Tento
também partilhar boas práticas letivas com a comunidade educativa na área das
ciências pois também sou co-autora de publicações em revistas nacionais e
internacionais e tenho participado também em algumas conferências nacionais e
internacionais como oradora. Relativamente ao reconhecimento a que te referes,
considero que os artigos que publiquei, as comunicações orais que fiz, os
projetos para os quais fui convidada, os prémios que recebi acabam por “dar
voz” ao meu trabalho. Nas diversas avaliações de desempenho que fui tendo, o
meu trabalho também tem sido apreciado e valorizado quer pelos meus
coordenadores quer pelos meus pares nas escolas por onde já passei. No entanto,
na minha carreira profissional todo este esforço não é reconhecido a nível nacional
porque a progressão na carreira de um professor em Portugal (está congelada há
anos…) não está centrada no mérito, não existem prémios de desempenho e um
professor para o MEC, infelizmente, não passa de um número. Talvez por isto
tudo, o meu trabalho acabe por ter mais visibilidade e reconhecimento
internacionalmente.
M.L: Trabalha como professora desde 2000. Que balanço
faz dos últimos 16 anos em que tem exercido essa atividade?
M.O: O balanço é positivo!
Tal como em todas as profissões os anos de experiência ajudam-nos a melhorar, a
enfrentar os desafios com maior maturidade e a lidar com as situações
analisando-as de uma forma mais ponderada e assertiva. Ter lecionado em 11
estabelecimentos de ensino não foi das experiências que mais me agradou pois
não me permitiu dar continuidade ao meu trabalho e os alunos acabam sempre
prejudicados com a instabilidade do corpo docente. A itinerância entre escolas
também me obrigou a esforços monetários acrescidos pois cheguei a percorrer 200
km diários para lecionar (há quem faça muito mais!), o que em nada contribuiu
para o meu bem-estar físico, psicológico e afetou a minha vida pessoal. Por
outro lado, esta experiência aguçou-me a capacidade de adaptação, a
perseverança, a resiliência permitindo-me perceber e assumir rapidamente as
funções que iria desempenhar em cada ano letivo. A recente entrada para os
quadros do MEC foi um alívio que veio acabar com a angústia anual que se gerava
quando se aproximava o final do mês de Agosto. Apesar de tudo, continuo a gostar
muito da minha profissão, “vesti a camisola de todas as escolas onde estive”
nunca as encarando como uma passagem, trabalhei muito, tive muitas alegrias,
conheci gente fantástica e, por isso tudo o balanço é positivo!
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira na área do Ensino?
M.O: Ser professor
atualmente é muito duro principalmente no início de carreira. Provavelmente
daria o conselho que a minha mãe me deu quando eu tomei essa decisão mas com a
ressalva de que devemos seguir a nossa vocação e, se esta passar pelo ensino,
então temos que lutar por ela até onde for possível! Os nossos alunos
agradecem!
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
M.O: Tal como toda a gente tenho sonhos e coisas que
gostaria de fazer mas sou uma pessoa muito realista. Apesar de ter como lema de
vida “querer é poder” sei que muitas vezes isso não basta e, por isso, ligo-me
muito ao presente procurando desfrutar de tudo o que a vida me dá, não esquecendo
o meu passado e aquilo que me ensinou. Em relação ao futuro prefiro sempre não
fazer grandes planos pois também gosto de surpresas…ML
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Mário Lisboa entrevista... Sofia Correia
Estreou-se profissionalmente em 2006 com a peça "Orgia" de Pier Paolo Pasolini nos Artistas Unidos e tem desenvolvido nos últimos dez anos um percurso muito bem preenchido como actriz nomeadamente a nível teatral. Natural do Porto e licenciada em Ciências da Comunicação, tendo estagiado tanto na Antena 1 como na Rádio Oxigénio, também é professora de Expressão Dramática e considera que o melhor do teatro são as pessoas, e recentemente participou na telenovela "Rainha das Flores" que está em exibição na SIC e foi o seu primeiro grande projecto televisivo. Esta entrevista foi feita no passado dia 6 de Dezembro, poucos dias antes do fim das gravações de "Rainha das Flores".
Esta entrevista não está sob o novo Acordo Ortográfico
M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
S.C: Comecei a fazer teatro na escola com 15 anos, no Grupo
de Teatro Aurélia de Sousa no Porto. Foi uma experiência muito intensa e que me
marcou, mas na altura nem sonhava ser possível fazer disto profissão. Vim viver
para Lisboa aos 18 para estudar Ciências da Comunicação. Aos 20, voltei ao teatro
num grupo universitário. Uma noite ao sair de um ensaio tive a clara noção que
queria ser actriz mas ainda demorei a assumir a ideia. Mal acabei o
curso, fui directa para o Conservatório de Teatro.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto actriz?
S.C: Tenho várias. A
Beatriz Batarda, a Isabel Abreu, a Carla Galvão, o Gonçalo Waddington e o Nuno
Lopes são alguns dos actores que conheço pessoalmente e que me
inspiram a tentar ser melhor. Lá fora, amo a Isabelle Huppert, a Julianne
Moore, a Julia Roberts e a Meryl Streep.
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| Isabel Abreu, Regina Duarte, Sofia Correia |
M.L: Como actriz e também como pessoa, se voltasse
atrás faria tudo de novo?
S.C: Faria. A vida está
sempre a mostrar-nos que está tudo certo, mesmo quando nos parece errada. Estou
numa fase óptima da minha vida e foi o caminho que fiz que
me trouxe até aqui.
M.L: Em 2010, participou na peça “Um Eléctrico Chamado
Desejo” de Tennessee Williams e encenada por Diogo Infante no Teatro Nacional
D. Maria II. Que recordações guarda de representar Tennessee Williams pela
primeira vez?
S.C: Foi maravilhoso. Era
o regresso da Alexandra Lencastre ao teatro e por isso foi especial. Os actores
e a equipa eram fantásticos e adorei trabalhar com o Diogo Infante, que era o
encenador. Tinha dois papéis mínimos, mas aprendi tanto a ver.
M.L: Celebra
10 anos de carreira em 2016, desde que se estreou como actriz profissional com
a peça “Orgia” de Pier Paolo Pasolini nos Artistas Unidos em 2006. Que
balanço faz destes últimos 10 anos?
S.C: Um percurso feliz.
Tive quase sempre trabalho. Fiz muito teatro, alguma televisão. Trabalhei
com encenadores maravilhosos, conheci gente incrível. Costumo dizer que o
melhor do teatro são as pessoas. O meu desejo nesta altura era
fazer uma novela do princípio ao fim e aconteceu. A cereja no topo do
bolo. Só espero ter cada vez mais trabalho para poder descobrir-me cada vez
mais como actriz e como pessoa.
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| "Orgia", a estreia profissional de Sofia Correia |
M.L: Trabalhou com os Artistas Unidos entre 2006/08.
Como olha para o percurso que a companhia de Jorge Silva Melo tem desenvolvido
desde 1995 até agora?
S.C: Acho incrível. Os Artistas
Unidos têm sido ao longo dos anos uma porta aberta a novos actores, novos
autores e isso é tão refrescante e entusiasmante. Foi uma óptima casa para me
estrear e adoraria voltar a trabalhar com eles.
M.L: Além da representação, também é professora de
Expressão Dramática. A representação e o ensino podem, a seu ver, coincidir-se
no que toca a inspirar as gerações mais novas por um Mundo melhor?
S.C: Acredito que sim. O
teatro obriga-nos a pensar e reflectir sobre o Mundo ajuda a querer torná-lo
melhor. Aulas de teatro acho que deviam ser obrigatórias para todas as
crianças: estimulam a criatividade, o trabalhar em grupo e sobre si
mesmo, abre novos mundos e ajudam a pensar “out of the box”.
M.L: Actualmente participa na telenovela “Rainha das
Flores” que está em exibição na SIC, onde tem na “Lia” a sua primeira grande
personagem televisiva. “Rainha das Flores” tem sido para si um projecto muito
gratificante principalmente no que toca à sua personagem em si e ao timing cómico da própria “Lia”?
S.C: A Lia é um bombom que
me foi dado. É uma personagem muito engraçada, que vive para encontrar o
Amor e não desiste à primeira. Tem um lado trágico-cómico maravilhoso. E adoro
o visual de pin-up. A equipa é espectacular, e este projecto vai ficar sempre
no meu coração.
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| Sofia Correia como "Lia" em "Rainha das Flores" |
M.L: Vive em Lisboa, mas é natural do Porto. A seu
ver, Porto está muito melhor agora artisticamente do que quando começou a
trabalhar profissionalmente como actriz?
S.C: Nunca
cheguei a trabalhar profissionalmente no Porto. Mas tento acompanhar a agenda
cultural da cidade. Há cada vez mais teatro e pessoas talentosas a fazer
do Porto um polo cultural cada vez mais interessante.
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| Sofia Correia e o seu Porto |
M.L: É licenciada em Ciências da Comunicação e
estagiou tanto na Antena 1 como na Rádio Oxigénio. Gostava de, um dia,
prosseguir com uma carreira paralela na Comunicação Social?
S.C: Há uns anos atrás
pensei nisso mas percebi que não era compatível. Pelo menos no início, sinto
que tinha que ter as coisas bem definidas e escolhi ser actriz. Mas não
importava nada de voltar a fazer rádio. Nunca se sabe o que pode acontecer. Mas
neste momento, estou focada em ser actriz.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
S.C:
Escrever um livro para crianças. Aliás, publicar que já tenho umas histórias
escritas.MLEsta entrevista não está sob o novo Acordo Ortográfico
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Mário Lisboa entrevista... Marcello Urgeghe
Já demonstrava ter ainda em criança uma mente muito criativa, daí o interesse pela representação, e com o passar dos anos tornou-se num ator muito respeitado, cujo percurso igualmente respeitado passa nomeadamente pelo teatro e pelo cinema. Considera-se um privilegiado no que toca a fazer tudo o que gosta e atualmente participa na ambiciosa trilogia teatral "Os Últimos Dias da Humanidade" que vai passar logo em Janeiro pelo Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa, após ter sido estreado em Outubro passado no Teatro Nacional São João no Porto. Esta entrevista foi feita no passado dia 6 de Novembro no Teatro Nacional São João.
M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
M.U: Logo em criança e a
primeira coisa que eu adorava era ver os amigos de família, as pessoas que iam
lá à casa, eu adorava títulos, fazia muitas imitações… Aliás, um dos “pratos”
favoritos da família era fazer imitações dos amigos, da minha mãe, do meu pai,
e as pessoas adoravam. Foi aí que eu comecei a interessar.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto ator?
M.U: Basicamente, tudo vem
da literatura. Li muito em criança e foi aí que eu comecei a ver nascer
personagens, mas grandes referências como ator são, por exemplo, o realizador
John Cassavetes e os atores que trabalharam com ele (Gena Rowlands, Ben
Gazzara, Seymour Cassel). Especialmente, algum cinema americano fez parte da
minha formação.
M.L: De tudo o que tem feito até agora como ator, qual
foi o trabalho em particular que foi muito pessoal de se fazer?
M.U: Todo o trabalho que
fiz com o José Álvaro Morais, já falecido, um realizador de cinema que fez não muitos
filmes (“O Bobo” (1987), “Zéfiro” (1993), “Peixe-Lua” (2000), “Quaresma”
(2003). Foi talvez o realizador com quem tive mais familiaridade e onde vivi
mais e como ator.
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| José Álvaro Morais (2 de Setembro de 1943-30 de Janeiro de 2004) |
M.L: Durante estas últimas décadas, tem trabalhado
principalmente em teatro e cinema, e alguma televisão também. No caso da
televisão, gostava de, um dia, experimentar o género telenovela, caso haja essa
possibilidade?
M.U: Não, tanto que eu
recuso continuamente. É um género que eu não quero experimentar, já sei o
resultado, basta ver, acho que não tem interesse nenhum para um ator. Houve
agora um surto de séries na televisão e fiz pequenas participações em algumas
(“Terapia” (RTP), “Os Boys” (RTP). Isso já me interessa mais, já são coisas que
acho que um ator pode fazer, mas sinceramente sou sempre puxado mais ao teatro
e ao cinema. É o meu território.
M.L: No caso do cinema, tem participado numa mão-cheia
de longas-metragens que têm tido mais projeção internacional (“Mistérios de
Lisboa” (2010), “Sangue do Meu Sangue” (2011), “Linhas de Wellington” (2012),
etc.). A seu ver, estas projeções internacionais podem impulsionar mais o
cinema feito aqui em Portugal?
M.U: Sim, absolutamente. Sempre
que se internacionaliza um país, ele é depois conhecido e falado, e de facto as
pessoas não têm noção, mas o nosso país tem muito bons atores, muito bom cinema
como já não há em muitos sítios. Nós aqui temos de facto uma tradição de bom
trabalho em cinema e em teatro. Somos de facto bons nisso, é verdade.
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| Marcello Urgeghe com o elenco e o produtor (Paulo Branco) de "Linhas de Wellington" no 69º Festival de Veneza em 2012 |
M.L: Gostava de, um dia, ponderar a hipótese de
estrear-se na realização ou na encenação?
M.U: Sim, gostava, é um
facto. Apesar disso, o mais que posso, porque eu gosto muito é de representar,
mas acho que chegou a altura de abrir esse capítulo e estou agora a começar a
trabalhar nisso. Tenho dois projetos que quero levar à frente, um deles é o
“Ricardo III” de William Shakespeare e o outro é uma coisa escrita por mim, são
coisas pessoais.
M.L: Atualmente participa na trilogia teatral “Os
Últimos Dias da Humanidade” que vai passar pelo Teatro Nacional D. Maria II em
Janeiro de 2017 e que para mim é a produção teatral mais antecipada de 2016. Já
alguma vez imaginou que uma produção desta dimensão pudesse ser levada à cena
não só em Portugal como no Mundo em geral?
M.U: Não imaginava de
facto. Mas a verdade é que este é um texto incrível e mais atual não pode ser.
É um texto que fala da Primeira Guerra Mundial, mas nós vemos tudo igual ao que
se passa hoje. Hoje estamos nos primórdios de uma Terceira Guerra Mundial, está
a começar hoje nos mesmos sítios. Não imaginava, mas de facto este pode escalar
a um outro nível sim.
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| Marcello Urgeghe em "Os Últimos Dias da Humanidade" |
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira na representação?
M.U: O conselho que dou é
antes de fazer pensar e depois quando for para fazer não pensar.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como ator?
M.U: É o meu percurso, é a
minha vida.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
M.U: Não tenho uma coisa que gostasse de fazer. Tenho
feito tudo o que gosto. Sou um privilegiado nesse aspeto.ML
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
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