quinta-feira, 4 de outubro de 2018

"Os Lobos" (1998/99)


1998 foi um ano muito marcante por várias razões (a Expo 98 e o Mundial 98 são exemplos disso), e Portugal estava mais do que nunca otimista em relação ao futuro. Mas no que toca à teledramaturgia portuguesa, 1998 marcou o regresso do falecido ator/autor Francisco Nicholson à escrita de telenovelas após uma ausência de 6 anos com "Os Lobos", que a então NBP produziu para a RTP e em Novembro de 2018 celebra 20 anos da sua estreia.


"Os Lobos" é, para mim, uma das melhores telenovelas portuguesas de todos os tempos, com uma trama de proporções shakespearianas, e um retrato da sociedade portuguesa de então que só o Francisco Nicholson podia fazer, pois ele era um dos que melhor retratava Portugal tal como é na verdade. É uma telenovela onde tanto a parte técnica como a parte narrativa são boas de maneira igual e o seu incrível elenco liderado pelo carismático Sinde Filipe é um dos meus favoritos no que toca às telenovelas.

João Lagarto, Henrique Viana, Diogo Infante, Sinde Filipe, Sofia Alves, Manuela Maria, Patrícia Tavares, Fernanda Serrano
Diogo Infante e Sinde Filipe respetivamente como o ambicioso "Jorge Lobo" e o seu avô "Lourenço Lobo"
Sofia Alves como "Sabrina Venâncio"
Ana Brito e Cunha e Paula Mora respetivamente como "Raquel Lobo" e "Salomé Lobo"
São 200 episódios de uma telenovela que cada vez que a vejo numa reposição faz-me sempre sentir bem, o que é um bom sinal. "Os Lobos" é um forte exemplo da chamada "literatura televisiva", que havia muito nos primórdios das telenovelas em Portugal, e acho que faz muita falta autores como Francisco Nicholson, que era bastante ousado nas suas histórias, e eu estou esperançoso que haja mais telenovelas como "Os Lobos" no futuro.

Reportagem da TV Guia sobre "Os Lobos" - 1ª Parte
Reportagem da TV Guia sobre "Os Lobos" - 2ª Parte
Sinde Filipe no lançamento de "Os Lobos"


Mário Lisboa

sábado, 21 de julho de 2018

Mário Lisboa entrevista... António Borges Correia

Interessou-se desde muito cedo pelo audiovisual, tendo-se iniciado nessa área nos anos 90 e desde então tem desenvolvido um percurso bastante sólido como realizador, conciliando frequentemente cinema e televisão. A nível televisivo, trabalha atualmente na Plural Entertainment Portugal, e recentemente realizou a longa-metragem "As Horas de Luz", que teve a sua estreia mundial na última edição do IndieLisboa, e a telenovela "A Herdeira", que está atualmente em exibição na TVI. Esta entrevista foi feita no passado dia 11 de Julho.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo audiovisual?
A.B.C: Muito cedo, em criança, mas só na juventude é que decidi que queria estudar cinema, apesar de ter entrado no Conservatório um pouco tarde (com 22 anos), pois nessa altura fui obrigado a cumprir o serviço militar. Mas desde muito cedo comecei a interessar-me por filmes. Onde vivia, havia dois cinemas (Academia Almadense e Incrível Almadense). Creio que a maior parte do tempo, em criança e jovem, era passado nessas salas de cinema ou na rua com amigos. Mas o meu espaço de liberdade e evasão era a sala de cinema.

M.L: Quais são as suas referências nessa área?
A.B.C: Há imensas. A maior parte das referências foram acontecendo na Escola de Cinema onde nos apaixonamos pelos (Jean-Luc) Godard, (Jean) Renoir, (Robert) Bresson, (Michelangelo) Antonioni, (John) Ford). Mas isto é um fenómeno que não se interrompe. Ainda hoje continuo a ser surpreendido por filmes ou séries que me influenciam, porque os criadores que questionam a gramática cinematográfica e que a confrontam para lhe acrescentar algo nunca deixarão de existir. São esses os objetos que me interessam, aqueles que usam os códigos para corrompê-los. Também me interesso pelo cruzamento das linguagens documental e ficcional, de que modo estão balizadas e até que ponto estamos sempre a encenar ou a falsear uma situação para obter um resultado. Até que ponto não estaremos a partir da mesma essência?

M.L: Tem coordenado produções televisivas na atual Plural Entertainment Portugal desde 2008. O que é que tem aprendido ao exercer esse tipo de função nesta última década?
A.B.C: Acima de tudo, manter o equilíbrio entre as realidades artísticas e orçamentais, mas também, manter a calma quando aparecem imprevistos e relativizar as coisas menos boas. Neste meio, como em outros meios, aprende-se muito sobre a natureza humana, principalmente no que diz respeito à gestão dos egos.


M.L: Uma das primeiras telenovelas que realizou foi “A Senhora das Águas”, que a RTP exibiu entre 2001/02. Que recordações guarda desse projeto em particular?
A.B.C: Creio que foi mesmo a minha primeira novela. Antes só tinha feito séries. O que me vem à memória desde logo é o facto de ser uma equipa muito unida. E o elenco era muito especial. O ambiente era espetacular. Foram 6 meses a rir.



M.L: Realizou o documentário “Antes de a Vida Começar”, sobre a atriz Isabel de Castro, e que estreou após o seu falecimento em Novembro de 2005. 13 anos depois, houve alguma coisa que conseguiu extrair da sua interação com a própria naquela altura?
A.B.C: A Isabel foi uma atriz enorme que sempre quis passar despercebida. Fez vinte e tal filmes em Espanha e não se reconhecia nos cartazes da Gran Vía em Madrid. Bastantes vezes dizia “carreiras… só de autocarros”. É impossível esquecê-la. O documentário que fiz com ela, sobre ela, ensinou-me, sobretudo, aquilo que é uma pessoa a não se dar muita importância a si própria, mas, ao mesmo tempo, tentar alcançar uma relativa liberdade.



M.L: Nestes tempos difíceis, retratar histórias humanas é cada vez mais uma urgência no cinema?
A.B.C: Sim, talvez, mas mais importante que a história é a abordagem que se escolhe. No cinema ou qualquer arte o que faz sentido é usar as suas próprias ferramentas. No cinema, as ferramentas são a Câmara e a Montagem e o objetivo de um filme deve procurar uma reflexão sobre essas ferramentas e sobre o mundo onde vivemos. O cinema não serve para alienar nem para comer pipocas.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira no meio audiovisual?
A.B.C: Que tenha coragem para isso e no momento de desistir que siga em frente. Faça em vez de se queixar.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido até agora como realizador?
A.B.C: Não faço a mais pequena ideia. Isso é trabalho para quem analisa, escreve e critica.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
A.B.C: Ler e meditar todos os dias.ML

quinta-feira, 12 de julho de 2018

sábado, 26 de maio de 2018

"Macbeth"


Uma das experiências teatrais mais memoráveis que eu tive em 2017 foi esta versão de "Macbeth", a chamada "peça escocesa" de William Shakespeare, que foi encenada por Nuno Carinhas e protagonizada por João Reis como a ambiciosa personagem-título.


Desde que me lembro que William Shakespeare é um dos meus autores favoritos, pois as suas histórias sempre me despertaram interesse e têm tudo o que eu espero de uma história nomeadamente a nível narrativo. Para além de serem histórias com temas muitíssimo pertinentes. E é principalmente por ser um fã de Shakespeare que no verão de 2017 eu estava com enormes expectativas em relação a "Macbeth", pois por incrível que pareça foi a primeira vez que fui ver Shakespeare em teatro, e sempre tive curiosidade em relação a "Macbeth", à sua história e às suas personagens, e na altura eu fiquei imensamente agradado com o que vi principalmente a encenação, o desempenho do elenco e o ambiente sombrio em termos de tom. A única desilusão que eu tive na altura ao ver "Macbeth", foi a Lady Macbeth (Emília Silvestre), pois achei que esta versão da personagem não correspondia à ideia que eu tinha dela, mas ao ver a peça pela segunda vez eu passei a compreender melhor a Lady Macbeth.

Emília Silvestre como a igualmente ambiciosa "Lady Macbeth"

"Macbeth" é um exemplo do quanto o trabalho que William Shakespeare desenvolveu em vida ainda é muito atual e é para mim uma das melhores histórias que envolvem ambição, poder, corrupção e vingança que o Mundo já alguma vez viu.

O grandioso elenco de "Macbeth"

Mário Lisboa

domingo, 22 de abril de 2018

Mário Lisboa entrevista... Rui Pedro Tendinha

O Cinema é a sua grande paixão desde muito cedo, ficando amigo do chamado "monstro" segundo o próprio, o que o levou à Comunicação Social, e desde aí tornou-se num dos mais carismáticos jornalistas/críticos de cinema em Portugal, com uma genuidade e uma acessibilidade só comparável ao igualmente carismático Mário Augusto. Com alguma experiência na realização, apresenta desde 2013 o programa "Cinetendinha" que é exibido tanto na SIC Radical como nos Canais TVCine e Séries, e gostava de desenvolver uma ideia de residências artísticas de Cinema. Esta entrevista foi feita na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

M.L: Quando surgiu o interesse tanto pela Comunicação Social como pelo Cinema?
R.P.T: Eu acho que foi o Cinema que me levou para a Comunicação Social, porque eu desde criança fiquei amigo do “monstro”. O Cinema é um “monstro”, o Cinema em si simboliza, atrai e molda a vida, e a dada altura o Cinema foi um espelho que eu tive para ver os outros e ver a vida. No fundo, não era só um entretenimento. Mesmo desde criança, era algo vital, era quase uma bolsa de oxigénio. E a partir de muito cedo, o Cinema foi de facto uma atração fatal para mim.

M.L: Quais são as suas referências nestas duas áreas?
R.P.T: Eu acho que o discurso de alguém que escreve sobre cinema tem que ter uma vertente pessoal e tem que ter uma componente também de relação muito pessoal com o objeto de arte. Nesse sentido, eu gosto de textos que me desafiem, pelo menos enquanto leitor, a pôr-me no lugar do objeto de arte, e isso para mim é o que me dá mais gozo quando leio críticas, e nesse sentido eu gosto muito do Peter Travers, da falecida Pauline Kael. No Cinema, eu gosto de pensar que ninguém é sagrado, eu não ponho ninguém intocável, mas claro que eu tenho os meus próprios ídolos como, por exemplo, o David Lynch e o (Stanley) Kubrick.

M.L: De tudo o que tem feito até agora tanto na Comunicação Social como no Cinema, houve algum trabalho em particular que foi tanto divertido como pessoal de se fazer?
R.P.T: Eu gostei muito de arrancar com o “Cinetendinha”, que foi uma ideia que o Pedro Boucherie Mendes me propôs e que era precisamente mostrar o que é o meu dia-a-dia de uma forma informal e verdadeira e isto é muito gozo. Em 2016, eu pude ir aos Óscares e achava que era uma coisa inacessível e de repente estava lá ao lado das estrelas todas, e fui também aos Independent Spirit Awards e esse tipo de coisas, para alguém que cresceu a amar o cinema, é forte.


Rui Pedro Tendinha na altura dos Óscares 2016
M.L: Também tem alguma experiência na realização. Gostava de, um dia, desenvolver uma carreira paralela como realizador?
R.P.T: Quando eu faço cinema documental, tenho feito de uma ordem de muita encomenda. Eu não tenho aspirações artísticas, quando faço os documentários. A minha vocação é escrever sobre cinema.

M.L: Em 2012, escreveu o livro sobre auto-ajuda no cinema “100 Filmes Que Podem Mudar a Sua Vida”. 6 anos depois da publicação do livro, acha que as pessoas ainda podem precisar de auto-ajuda no que toca ao cinema?
R.P.T: Eu podia fazer outro volume, mas agora se me desafiarem para escrever um livro, eu gostava de escrever um livro de entrevistas. Uma pessoa está triste, com depressão, que vá ao cinema, faz bem ir ao cinema.



M.L: Numa era muito tecnológica, complexa e sombria e em que o Cinema está muito mais evento, acha que o Cinema ainda pode ter capacidade de dar alegria e emoção como no passado?
R.P.T: É verdade que o Cinema está muito mais evento, mas há sempre lugar para tudo, há sempre um lado de resistência, e festivais como o Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira são um bom exemplo de haver ainda quem faça um cinema pessoal, experimental, de ensaio. O Cinema pode ter sempre um grande ponto de interrogação e de questionamento a nível artístico e nesse sentido poderá sempre haver esse cinema mais mainstream, mas há de haver sempre esse lado mais resistente.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira seja na Comunicação Social ou no Cinema?
R.P.T: A Comunicação Social está a viver momentos difíceis. O jornalismo é uma profissão que se desvalorizou quer se queira quer não. Temos que ser todos muito mais analíticos. O jornalismo parece que sobre isso está a ganhar ao jornalismo de pensamento e isso é uma pena. Eu acho que o jornalista tem que ter uma opinião e tem que ter uma coisa que, por exemplo, o Eduardo Prado Coelho tinha que era o cálculo de não só dizer uma opinião, mas de pensamento, de fluição sobre o mundo que vê. Hoje em dia, como temos tantos acessos às críticas e aos sites, nós precisamos é de seletores que pensem e que não façam só o trabalho preguiçoso. Esse é o meu conselho que eu dou.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido até agora como jornalista de cinema?
R.P.T: Abdiquei da minha vida pessoal, passo a vida a viajar, eu já tive três divórcios e nunca consegui ser pai, porque o Cinema absorveu-me.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
R.P.T: Eu gostava muito de fazer uma ideia de residências artísticas de Cinema. É uma utopia.ML

segunda-feira, 16 de abril de 2018