A actriz Marina Albuquerque é a autora do terceiro texto publicado no "Mário Lisboa entrevista...", a propósito do Dia Mundial do Teatro.
"Dia Mundial do Teatro
1% para a
cultura! No fundo é o mais importante, os outros países da Europa têm
anualmente atribuído à sua cultura, este valor ou maior, que vem do orçamento
geral do estado! Portugal subiu de uns miseráveis 0,2% do orçamento do estado
para a cultura para 0,25%! Chega, basta! É inacreditável as décadas de desprezo
pela cultura que é a alma e o coração de um povo! O TEATRO sempre fez parte da
vida dos portugueses, mas também ao longo dos tempos tem vindo a ser transformado
num exercício para uma elite, cinco dias em cena no CCB, dois ou três dias na
Culturgest, dez dias no Teatro Nacional, quinze no São Luiz, 7 no Rivoli são
alguns exemplos. O público anónimo, não chega a perceber o que está em cena em
Lisboa e no Porto! No resto do país é ainda mais difícil, a criação de
companhias profissionais em todas capitais de distrito é ainda um sonho, pois
os equipamentos estão lá, os centros culturais e antigos teatros foram
construídos, recuperados e bem, numa época em que o orçamento para a cultura
era maior que o actual, falta agora utiliza-los na sua plenitude! A minha
geração deixou os programadores e agentes teatrais estrangularem a chamada
“carreira” dos espectáculos, quem continua a fazer serviço público são as
companhias mais antigas, com excepção do Teatro Meridional, por regra os
criadores têm os seus espectáculos muito pouco tempo em cena, neste Dia Mundial
do Teatro, era tão bom se fôssemos de facto mundiais, com a nossa língua que é
a sexta mais falada no mundo! Viva a nossa classe, que respeito como a vida! Viva
o Teatro! É hora!"
Continuando com a minha iniciativa de publicar textos individuais de pessoas com percursos artísticos diferentes, a propósito do Dia Mundial do Teatro, aqui deixo o segundo texto escrito pela actriz Suzana Borges que se estreou com a peça "O Despertar da Primavera"/"Tragédia Infantil", o clássico de Frank Wedekind, em 1979.
"Suzana Borges, 40 anos de carreira em 2019
Reflectir sobre 40 anos de
carreira no espectáculo, é de algum modo assustador... Mas tenho por vezes, uma
visão de mim própria, quando estou para entrar em cena, como de um plano
picado, em que estou ali no teatro, com o palco e o público, e eu, numa alegria
expectante, ali, à espera de entrar, e penso: ainda cá estou. Pois neste mundo
do espectáculo, a sobrevivência é uma outra arte... Algumas coisas mudaram
nestes 40 anos, mas devo ao meu grande mestre José Osório Mateus, com quem
trabalhei na primeira peça “Tragédia Infantil” de Wedekind, o ter-nos
preparado com tanta clarividência e sabedoria, e amor, para as nossas
carreiras, e melhor ainda para o que pensar sobre elas e sobre nós nelas.
Primeiro que tudo amor pelo trabalho, disciplina e método. O resto é a
descoberta diária, e por vezes em saltos qualitativos, de como estamos nós
naquele texto ou naquela situação. Não importa o tamanho do papel, mas sim o
que o trabalho transforma em nós, e como nos transformamos na personagem. E
estas regras de ouro centram-nos não no reconhecimento, ou na fama, mas numa
criação, sempre in progress, de nós
próprios e das condições de trabalho. Na posse delas, que nos conferem grande
respeito por nós próprios, é mais fácil lutar contra a injustiça, a
desqualificação e o demérito que a profissão tem sofrido. E depois, pensando
retrospectivamente, há as memórias dos autores que fui fazendo: Borges, com o
seu animismo panteísta, ou assim gosto de lhe chamar, Conrad, com as suas
construções de ideias e palavras que nos levam para um sítio - como um remoinho
- obscuro da nossa percepção e do mundo, Sacha Guitry, oh! que elegância
inteligente e galante, Shakespeare, que só fiz enquanto recitante em ópera, em
que as palavras e o dizê-las infundem uma alegria de passagem de testemunho de
beleza, engenho, e arte. Noël Coward, mestria na rapidez, ritmo, e muita
sofisticação na simplicidade, Wedekind, cujo mistério dos jovens adolescentes
foi mais claro para mim em 79, do que agora quando o abordo. Claudel, em que
linguagem nos eleva para uma transcendência espiritual e poética - comparável à
natureza? Howard Brenton, poesia e horror na intimidade da linguagem, do
pensamento e dos actos... Mishima, e o quanto a sua sonoridade e cultura japonesas,
consegui habitar e viver na personagem, numa experiência de transformações
múltiplas. E também a grande comunhão quando se representa autores vivos, como
Luís Assis e Pedro Pinheiro, de poder perguntar-lhes: o que queres dizer com
esta frase? O que sempre me interessou no teatro é a nossa capacidade de
transmitir e deixar impressões no espectador de alguém que é uma personagem de
ficção, que não somos nós. Essa transcendência e a grande aventura pressentida
todas noites no escuro de antes de entrar em cena, do risco e da emoção, do
novo. Do que nunca aconteceu, e que não sabemos como será.
Hoje (27 de Março) é o Dia Mundial do Teatro. O Teatro é uma das minhas áreas artísticas de eleição e certamente a que melhor representa este ser versátil que é o actor. Ao longo destes últimos anos, eu tenho feito os possíveis e os impossíveis para, através do meu trabalho, dar voz aos que trabalham no meio artístico e a propósito deste dia em particular eu vou publicar textos individuais de pessoas com diferentes percursos artísticos. O primeiro texto foi escrito pela actriz Carmen Santos que celebra 45 anos de carreira profissional em 2019.
"A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DO TEATRO
Em 1974 o TEATRO também
mudou em Portugal.
Reivindica um estatuto de
Serviço Público e expande-se por todo o território nacional. Integra-se nas
campanhas de divulgação cultural em colaboração com as forças armadas. Fez-se
teatro em salas, ao ar livre, em sociedades recreativas, em celeiros, em
lugares urbanos ou fora deles. Há uma grande aproximação entre gente do teatro
e o público. O espectador cresce ao lado dos agentes teatrais.
No final do século XX,
porém, essa energia começa a esmorecer. Resistir, e não desistir, foi o que as
circunstâncias exigiram. Companhias de teatro sossobraram, por contingências
sociais, económicas, políticas... O teatro tem um cordão umbilical que nunca
pode ser cortado – uma ligação indestrutível com a sociedade humana.
No século XXI a organização
teatral é, efectivamente, diferente e diversa. Desapareceram as
“companhias” teatrais, caracterizadas por um núcleo básico de cariz artístico,
por um colectivo de actores. Agora existem núcleos de produção, de maior ou menor
vitalidade, ou iniciativas circunstanciais de produção teatral, que cumprem
projectos mais ou menos pontuais, com um contingente artístico arrebanhado de
acordo com a necessidade.
As entidades teatrais de
estado ou municipais seguem regras semelhantes - “acolhem” projectos externos
que alimentam o seu currículo.
Muitos projectos acabam
por ser estrangulados pelo agendamento mínimo que é oferecido. Em geral, há um
desajuste grande entre o tempo de preparação (invisível para o público) e o
exíguo tempo de exibição. O actor está a ser encurralado pela fraca
visibilidade que lhe é concedida. E o espectador perde, eventualmente, a
desejada e necessária capacidade de critério, na avaliação do visível.
Nota: Por favor, conservar o C nas palavras ACTOR e
ESPECTADOR. De contrário, o actor não ata nem desata, e o espectador espeta sem
critério."
Margarida Cardeal, Maria Ana Filipe, Tânia Alves, Mónica Garnel, Custódia Gallego, Lia Carvalho, Diana Costa e Silva
Com tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen, "Hamlet(a)" é uma abordagem diferente da clássica peça de William Shakespeare, com um elenco inteiramente feminino, e pretende mostrar outro ponto de vista, outra forma de sentir e abordar o texto. As histórias de Shakespeare e os seus temas são universais, com personagens que podem ser interpretadas por qualquer pessoa, de qualquer género, e é esse o propósito de "Hamlet(a)".
Maria Ana Filipe ("Hamlet") e Custódia Gallego ("Ofélia")
Maria Ana Filipe ("Hamlet") e Margarida Cardeal ("Cláudio")
Maria Ana Filipe ("Hamlet"), Tânia Alves ("Alertes"), Margarida Cardeal ("Cláudio"), Diana Costa e Silva ("Polónio") e Lia Carvalho ("Gertrudes")
Suzana Borges, Guilherme Barroso, Maria Dias, Martinho Silva
Escrita originalmente em 1930 e adaptada pela primeira vez ao cinema no ano seguinte, "Private Lives-Vidas Privadas" retrata o amor nas suas mais quentes, e mais frias, expressões. Amanda (Suzana Borges) e Elyot (Martinho Silva), divorciados há cinco anos reencontram-se por acaso, com novos esposos (Guilherme Barroso e Maria Dias), em segunda lua de mel num hotel em Deauville. Quando a chama entre eles se reacende, fogem juntos para Paris, onde uns dias mais tarde os novos esposos os vêm procurar.
Suzana Borges e Guilherme Barroso
Suzana Borges e Martinho Silva
Suzana Borges, Guilherme Barroso, Maria Dias e Martinho Silva no fim de uma sessão da peça
Iniciou-se na produção audiovisual aos 30 anos, quando lhe pediram ajuda para produzir um anúncio, e desde então tem desenvolvido um percurso artístico muito prolífico que inclui a passagem por diferentes produtoras como, por exemplo, as antigas Miragem e NBP. Em Novembro de 2014, lançou-se no maior desafio da sua vida e fundou, juntamente com a produtora Marta Lima, a agência/produtora Agente a Norte que junta as duas vertentes de agenciamento de atores, neste caso do Norte do país, e da produção de conteúdos audiovisuais. Esta entrevista foi feita na sede da Agente a Norte no Porto.
M.L: Quando surgiu o interesse pelo audiovisual? D.R: Foi por acaso. Foi
quando comecei a ser produtora. Eu já tinha cerca de 30 anos, nunca me tinha
passado pela cabeça, e pediram-me ajuda para produzir um anúncio, onde entravam
alguns dos meus filhos como atores, e eu comecei a ajudar na produção e
senti-me completamente à vontade. Percebi que tinha jeito, e depois começaram a
investir em mais coisas, e quando dei por isso já estava a trabalhar como
produtora na Miragem (atual Hop Filmes).
M.L: Quais são as suas referências nessa área?
D.R: Talvez tenham sido os
trabalhos que eu fiz primeiro na Miragem como produtora. Também um programa,
“Clube dos Totalistas” (RTP), onde eu fazia tudo praticamente sozinha, que era
muito giro, com a minha querida amiga Cristina Esteves, e que era sobre as pessoas que ganhavam o
Totoloto e aquilo que elas faziam com o dinheiro. Foram bastantes naquela
altura. Depois disso, as minhas referências, em termos audiovisuais, são boas
séries portuguesas e estrangeiras, bons filmes, etc.
M.L: De tudo o que tem feito até agora a nível
profissional, qual é a parte do seu percurso que guarda com muita estima?
D.R: É muito difícil. Eu
adorei os meus anos na Miragem. A seguir, fiz produção de novelas na antiga
NBP. Fazia também produção de publicidade na Nova Imagem e depois na Show Off
Films que era parte da produção da Nova Imagem. Na verdade, eu posso dizer-te
que cada vez que eu estava bastante tempo a fazer novelas, tinha saudades da
publicidade. Quando eu estava a fazer publicidade durante um tempo, ficava com
saudades de fazer novelas/ficção. Portanto, alternava entre as duas coisas
sempre com muito prazer.
M.L: Que recordações guarda do tempo em que trabalhou
na NBP (atual Plural Entertainment Portugal)?
D.R: Eu adorava. Ainda estão
lá pessoas que trabalharam comigo naquele tempo, e fiquei com amigos para toda
a vida que, entretanto, até encontro noutras produções e noutras coisas, e
agora, como agente, vou encontrando nas produtoras que contratam os nossos
atores e até, às vezes, quando vêm ao Porto trabalhar.
M.L: Nasceu em Lisboa e vive no Porto desde os dois
anos de idade. Como olha, hoje em dia, para a cidade?
D.R: Eu gosto do atual
Presidente da Câmara (Rui Moreira), porque é uma grande mudança e uma grande
evolução em relação ao anterior, em termos culturais. Tivemos muita sorte,
porque, neste momento, o Rui Moreira é um homem verdadeiramente interessado na
cultura da cidade ao contrário do que era o Rui Rio. Portanto, é uma lufada de
ar fresco e estou muito contente com o que se tem passado e espero que se
continue a passar durante mais tempo e que isto seja só o início. A cidade está
a crescer e isso nota-se. As pessoas estão mais evoluídas, têm mais acesso à
cultura e acontecem mais coisas. Há uma coisa muito importante que eu gostava
de enaltecer que são as nossas escolas de teatro, de cinema. Muito boa gente
sai daqui para ir trabalhar por este país fora, e há muito boas escolas e muito
boa formação.
M.L: Co-fundou a agência/produtora Agente a Norte que
iniciou a sua atividade em Novembro de 2014. Como é que tem sido para si a sua
evolução?
D.R: Nós temos feito tudo o
que podemos para chamar a atenção para os atores do Norte do país, a todos os
níveis. Já conseguimos muito, já conseguimos, pelo menos, centralizá-los aqui,
portanto quando alguém vem filmar ou fazer qualquer coisa ao Porto sabe que na
Agente a Norte encontra bons atores e que vale a pena conhecer e isso não
existia. Por outro lado, também tentamos levá-los para fora desta centralização
e deste mundo pequenino que é o Porto e dá-los a conhecer ao resto do país e
aos poucos temos conseguido. A generosidade dos atores do Porto é muito grande,
é diferente, portanto eles levam-se uns aos outros e a certa altura fazem mesmo
questão de conversarem entre eles quando estão nas suas produções, de darem a
conhecer os colegas, de falarem sobre os colegas. Essa rede de contactos acaba
por ser muito importante e estabelece aqui uma rede que ajuda todos.
M.L: Iniciou o seu caminho artístico aos 30 anos. Qual
foi para si a parte boa ou menos boa que foi determinante para este caminho?
D.R: É engraçado que me
perguntes, porque a parte menos boa foi uma parte antes de criar a Agente a
Norte, onde eu estive parada. Trabalhava numa empresa e não correu bem. Era
empregada e fiquei sem saber o que fazer e, parecendo que não, às vezes esse
impasse dá origem a qualquer coisa muito boa e neste caso foi a Agente a Norte.
Foi o não saber o que fazer e haver uma paragem na vida. De repente, há um
estalido e vamos mudar de rumo e vamos fazer outras coisas. E mudamos eu e a
Marta (Lima) e resolvemos montar a agência que nos dá um gozo enorme, porque na
verdade é um sonho. Significa que podemos fazer a diferença e isso é muito bom.
Mas, acima de tudo, porque continuamos a poder fazer os nossos trabalhos de
produção e a agarrar trabalhos de produção, que também é um gozo, porque não
precisamos de deixar de fazer umas coisas para fazer outras.
Marta Lima & Diana Roquette
M.L: É mãe do ator Pedro Roquette. Sendo mãe e também
agente dele, sente-se aliviada pelo que o seu filho tem feito até agora?
D.R: Sim, claro que gostava
que ele fizesse muito mais, mas também gostava que todos os outros agenciados
fizessem muito mais. Mas o facto de ter um filho ator e o facto da Marta ter um
marido ator (Pedro Frias), ajuda-nos muito a perceber quais são os verdadeiros
problemas que eles têm e também ter a visão deles das coisas. Não ser só uma
visão económica ou eventualmente uma visão de produção e de produtora. Em
relação ao Pedro, ele é sempre um orgulho, mas é um orgulho como filho e é um
orgulho como um todo.
M.L: Assumiu diferentes funções no meio audiovisual.
Gostava de um dia assumir, por exemplo, a realização ou a escrita?
D.R: A escrita mais um
bocadinho, porque gosto de escrever, mas não me imagino a escrever um argumento
com pés e cabeça e com bons diálogos. A realização também não. Acho que como
produtora tenho um espírito super-prático, portanto dificilmente teria a
criatividade que se exige num realizador. São atos completamente diferentes.
Acho que a minha capacidade é tornar possível o que o realizador imagina. Ele conta
o que imagina e nós, com o nosso espírito pragmático, tentamos pôr aquilo em
prática. É muito mais essa a minha função.
M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira
ingressar numa carreira artística?
D.R: Que se prepare para
ouvir muitos “nãos”, que se prepare para ter muitas desilusões, e que seja
muito resiliente, persistente e capaz de se levantar todos os dias com um ânimo
diferente.
M.L: Que balanço faz do percurso profissional que tem
desenvolvido até agora?
D.R: Eu já passei por tantas
fases diferentes na vida que acho que francamente tive um bom percurso e uma
boa vida profissional. Acho que foi muito interessante e que dificilmente
imaginaria quando comecei que poderia ser tão interessante, portanto estou
contente.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
D.R: O que eu adorava neste
momento era que a agência tivesse o maior sucesso e que os nossos atores
conseguissem todos mostrar o seu talento por este mundo fora e por este país
fora e que fossem reconhecidos. Isso seria altamente gratificante.ML