Está em cena no Centro Cultural da Malaposta até ao próximo dia 26 de Maio, o espetáculo "Desculpa, Não Percebi" que é da autoria de Isabel Medina (https://mlisboaentrevista.blogspot.com/2011/09/mario-lisboa-entrevista-isabel-medina.html), Diana Costa e Silva e Rafaela Covas e protagonizado por Diana Costa e Silva, Rafaela Covas, Raquel Oliveira e DJ Tita Machado.
Estreado originalmente no Teatro da Comuna em Outubro de 2018, "Desculpa, Não Percebi" é um espetáculo em que as próprias intervenientes levantam e se interrogam sobre vários aspetos da vida. Questões como "Quem sou eu? Quem és tu? Quem somos nós? Quantos sou eu? Quantos és tu? Quantos somos nós? Quero brincar. Queres brincar? Como é que te sentiste?" são levantadas e que definem os seus próprios caminhos.
Diana Costa e Silva
Rafaela Covas
Raquel Oliveira
Diana Costa e Silva, Rafaela Covas, Raquel Oliveira
Estreia hoje no Teatro Nacional São João no Porto, como parte da programação deste ano do FITEI-Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, o espetáculo "Tchékhov é um Cogumelo", que foi estreado originalmente no Brasil em 2017, encenado por André Guerreiro Lopes e protagonizado por Helena Ignez (https://mlisboaentrevista.blogspot.com/2013/01/mario-lisboa-entrevista-helena-ignez.html), Djin Sganzerla e Michele Matalon.
Em 1900, Anton Tchékhov escreveu "As Três Irmãs", metáfora da crise do diálogo, da ação e do sonho, num tempo às portas da revolução que intuiu. Em "Tchékhov é um Cogumelo", André Guerreiro Lopes faz dela uma síntese poética e política, uma espécie de haiku sensorial onde ecoa o presente do seu país, "em que as pessoas se sentem presas num círculo de angústia e ansiedade em relação ao futuro". Três atrizes de gerações distintas (três irmãs ou a mesma mulher em três tempos da vida) trazem excertos da peça de Tchékhov para um espaço-tempo cuja tessitura se faz de elementos de texto, música, dança e recursos audiovisuais. Este "cogumelo" multimédia remete para o transe do tempo cénico, esse "agora" atemporal do teatro. Para ele contribui singularmente André Guerreiro Lopes, ao meditar na boca de cena durante todo o espetáculo, sendo a sua atividade cerebral transformada em impulsos elétricos que acionam uma instalação visual e sonora, interferindo na ação. Neste jogo cénico imiscui-se uma entrevista de 1995 ao diretor do Teatro Oficina, Zé Celso, feita pelo próprio encenador ainda jovem, sobre a montagem radical mas abortada de "As Três Irmãs" em 1972, em plena ditadura brasileira. Esse sonho de criação e memória de resistência elevam "Tchékhov é um Cogumelo" a um horizonte de esperança.
“O corpo é uma paisagem, as suas ações o Tempo. A Emoção é Movimento. Tudo o que se move é vivo!”
Representar é um jogo em que não existe vencedores e derrotados, sem dúvida, todos são criadores e ninguém é absoluto. A psicologia das personagens, os seus traumas, as suas carências, a sua existência, os seus conflitos servem para contar uma história com imagens. A obra é o resultado de uma relação criativa, um encontro entre atores, diretores e dramaturgia.
O Ator Imaginário é um Método criado por Christian Duurvoort para que atores e diretores desenvolvam os seus projetos artísticos. O Método propõe um caminho que fortalece a compreensão e apropriação da dramaturgia por indivíduos através da experiência cinestésica.
A Oficina Ator Imaginário propõe a atores e diretores um contacto aprofundado com o Método Ator Imaginário desenvolvido por Christian Duurvoort que é o resultado de mais de 30 anos de experiência como ator, encenador, realizador, preparador de elenco e pesquisador.
O Método Ator Imaginário é um conjunto de propostas, conceitos e exercícios que visam ampliar os recursos criativos dos atores para fortalecer a sua técnica, tornar a relação com o desenvolvimento do projeto mais prazeroso alcançando uma representação rica em nuances e imagens.
O Método Ator Imaginário tem sido amplamente aplicado tanto em atores experientes como inexperientes em diversas produções audiovisuais como, por exemplo, "Lixo" (2014), "Ensaio Sobre a Cegueira" (2008), "Capitães da Areia" (2011), "A Glória e a Graça" (2017), "O Banheiro do Papa" (2007), "Xingu-A Expedição" (2011), "Entre Nós" (2014), "A Estrada 47" (2015), "Noel-Poeta da Vida" (2006), "400 Contra 1-Uma História do Crime Organizado" (2010), "Jogo Subterrâneo" (2005), "Cidade dos Homens" (TV Globo), "3%" (Netflix), "Os Experientes" (TV Globo), "Destino: São Paulo" (HBO Brasil), "Filhos do Carnaval" (HBO Brasil) e "Pedro & Bianca" (TV Cultura).
Oficina Ator Imaginário
A Oficina é uma prática, trabalhamos com técnicas de representação aplicadas ao Cinema e técnicas de direção de atores a partir dos conceitos do Método Ator Imaginário. O principal objetivo é trabalhar com a consciência, prazer e menos desgaste, buscando qualidade e densidade na representação, cheia de subtilezas e um aproveitamento considerável do tempo de filmar.
A metodologia consiste em fortalecer o indivíduo (ator/atriz) no seu modo de pensar, de agir e de sentir, dando-lhe mais motivação e permitindo que o ator entregue-se à criação com convicção. As aulas seguem o caminho de uma preparação de elenco. Na oficina são utilizados exercícios físicos, respiratórios, jogos, improvisações, estudos de cenas para aumentar a concentração, a flexibilidade, a disponibilidade, a disciplina e a imaginação.
Os temas da oficina são: a técnica de representação no audiovisual, o tratamento com os atores, as necessidades dos atores, a dramaturgia, a construção da personagem, níveis de tensão e níveis de discurso.
A Oficina Ator Imaginário é destinada a atores e diretores.
Tudo é um exercício da Imaginação.
Metodologia
A Oficina Ator Imaginário segue o percurso de uma preparação de elenco. A proposta é composta por várias horas de trabalho prático e momentos teóricos onde os conceitos do Método são apresentados. Na oficina o espaço é compartilhado entre o debate sobre todas as nuances e camadas do trabalho do ator e as experiências individuais.
Inicialmente é dada atenção à técnica do ator: os aspetos físicos e especiais; o que cada um produz com a sua imagem e como produz; a relação com o espaço exterior, interior e interpessoal. Após é apresentado o Método Ator Imaginário, os seus conceitos teóricos que orientam a técnica e o caminho aplicado à criação que incluem a relação com a dramaturgia e a atitude diante da câmara e das diferentes propostas de linguagem.
Objetivos
a) Fortalecer o indivíduo e desenvolver os seus recursos técnicos e expressivos adequando o seu modo de representar às necessidades da linguagem audiovisual e adaptando a sua interpretação ao trabalho com câmara.
b) Apresentar o Método Ator Imaginário, a sua funcionalidade e as suas ferramentas para desenvolver uma representação rica em imagens, densidades e potencializar os recursos.
c) Instigar o participante a buscar propostas originais para construção das personagens e execução de cenas.
Programa da Oficina (20 horas)
Tema 1: Expansão/Concentração. Introdução; Conceitos básicos; Exercícios de consciência corporal; Exercícios no espaço; O Silêncio; A Relação com a sua imagem.
Tema 2: Pressão, Tensão, Ritmo, Dinâmica. A teoria do Método. Exercícios e jogos de relação; Análise de Movimento; A relação Tempo e Espaço.
Tema 3: Afetividade, Agressividade, Desejo, Afirmação, Intimidade. A dramaturgia e a ação. Leitura de texto. Debate. Improviso.
Exercícios com câmara.
Datas e Horários da Formação: 10 de Maio das 19h00 às 23h00 | 11 e 12 de Maio das 10h30 às 18h30. O local da formação é nas instalações do Instituto das
Artes e da
Imagem, Travessa General Torres, junto ao Cais de Gaia.
Natural do Porto, o interesse pela representação surgiu muito cedo na sua vida, iniciando um percurso artístico que já conta com duas décadas de existência e que pauta pela versatilidade e pela dedicação à profissão. O palco, segundo a própria, é onde mais consegue afastar-se e aproximar-se de si própria. Recentemente participou nas longas-metragens "Uma Vida Sublime", "Imagens Proibidas" e "Gabriel", e atualmente participa nas peças "Fantasmas?" e "Casal Aberto", que estão em digressão. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 4 de Abril.
M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
S.S: Desde cedo. Sempre gostei de contar histórias. E de
ouvir histórias. Tive a sorte de crescer na presença de livros e filmes. Quando
era miúda via tanto cinema em casa, filmes difíceis e inquietantes, Bergman, Dreyer, Antonioni, Visconti, Godard, por exemplo. Ser atriz foi uma decisão que surgiu como um prolongamento
de algo que me era vital, quase como uma bolsa de oxigénio. A curiosidade e até
necessidade (sou filha única) de me ocupar pelas histórias que falavam do mundo
interior de outros que não eu, e consequentemente do mundo lá fora, da condição
humana. Fui estudar teatro após me licenciar na área de estudos políticos. A
vontade de intervir, de comunicar, de retirar as personagens dos livros e de as
levar ao público, apesar de a literatura ser a minha grande paixão ainda hoje, foi
mais forte. Acho que aprendi a falar com o teatro. Aprendi a ouvir, a ver. Ainda
hoje o palco é o lugar mais paradoxal que conheço, é ali que mais consigo
afastar-me e aproximar-me de mim própria.
M.L: Quais são as suas referências, enquanto atriz?
S.S: Admiro muito o trabalho da Isabelle Huppert, Cate Blanchett, Meryl
Streep e, claro, da Liv Ullmann.
M.L: Houve algum trabalho em particular como atriz que
lhe permitiu entrar na profundidade de uma personagem de uma maneira muito
surpreendente?
S.S: Quando trabalhas uma “personagem” estás a trabalhar a
tua subjetividade sobre uma narrativa e simultaneamente a abrir o teu campo de
visão. São sempre os teus olhos sobre as coisas. Com isto quero dizer que são
sempre as emoções, as sensações e os teus pensamentos que estás a requisitar e
a agitar. Tive processos de trabalho mais fortes que outros, que me exigiram “uma
observação” mais de perto. Acredito no efeito de contaminação, de osmose. É uma
(des)arrumação contínua, interior e, por vezes, só depois é que tens noção dos
seus reflexos, dos ecos que ficaram em ti dessas “personagens”.
M.L: Tem experiência no Ensino como professora e
também na escrita. No que toca ao Ensino, teve alguma vez um momento “Clube dos
Poetas Mortos” com os seus alunos?
S.S: Tive a sorte de ter
dois professores de filosofia que me revelaram o prazer de pensar e um professor
de português que nos lia livros como quem ama. Guardei uma imagem na minha
memória, de o ver, encostado à janela da sala de aula, a ler-nos “Os Maias”. Era
como se ele estivesse num outro lugar que não ali, um lugar maior e que eu
desconhecia e no qual ele parecia muito feliz. E foi assim que li o romance do
Eça, à procura daquele lugar. Mal sabia eu, nessa altura, que dez
anos depois iria fazer a Maria Eduarda no Teatro Experimental do Porto, durante
cinco anos. Felizmente reencontrei os meus professores e pude agradecer-lhes. Com
os meus alunos, já tive momentos maravilhosos: sempre que algum deles me diz
que ficou a pensar no que discutimos em aula e a conversa se prolonga pelo
intervalo, ou quando uma aluna me diz que comprou um livro de que lhes falei,
ou de cada vez que os vejo a seguir com muita atenção a imagem, o diálogo de um
filme que lhes mostro, que os sinto ali, no presente, para mim vale a pena. Quero
que eles se encantem com a vida, se comprometam consigo próprios. Não sei se pode
afirmar que tenho experiência na escrita, já tive uma curta-metragem que
escrevi num festival de cinema, um anúncio publicitário a passar nas rádios e
um segundo prémio para um conto infantil que escrevi, mas são episódios
esporádicos. Escrevo com frequência para as aventuras teatrais dos meus alunos,
mas não tenho nada publicado.
M.L: Estreou-se na televisão como “Nicha” na telenovela
“A Lenda da Garça” (RTP) em 1999. Vinte anos depois, como olha para a sua
primeira experiência televisiva?
S.S: Tudo era novo, tudo
era aprendizagem. Olho com muito carinho, como acho que devemos olhar para o
nosso passado.
Susana Sá como "Nicha" ao lado de Maria João Guimarães
M.L: Recentemente participou na longa-metragem
“Gabriel”, que marca a estreia do produtor Nuno Bernardo na realização de longas-metragens.
S.S: Sim, e gostei muito
do resultado final, sou suspeita mas é verdade. É um filme com um ritmo
diferente. É cru, é real. E o Nuno Bernardo dedicou muito tempo ao trabalho de
interpretação do ator. E isso faz muita diferença. Para além de trocarmos
impressões, tivemos o apoio da Karla Muga antes de iniciarmos as rodagens,
tivemos ensaios, houve espaço para experimentar possibilidades.
Susana Sá e Sérgio Praia
M.L: Atualmente co-protagoniza a peça “Casal Aberto”,
de Dario Fo e Franca Rame, que está em digressão. A seu ver, a escrita de Dario
Fo está mais do que nunca atual?
S.S: Dario Fo foi Prémio Nobel,
creio que este facto fala por si mesmo. As obras que nos deixou são altamente
conscientes relativamente ao poder, com referências constantes às consequências
práticas do abuso de poder, da falta de igualdade, liberdade e humanismo. E
usou o riso como arma e veículo. A sua escrita continuará atual porque a
injustiça e a diferença de tratamento, seja em relação ao género, em relação às
classes sociais ou à gestão e distribuição de riqueza ainda continuam, em
diferentes escalas e configurações, mas continuam. O homem é o lobo do homem e
não basta alterar a lei, é imprescindível que os comportamentos acompanhem a
sua evolução, é necessária a sua inscrição ética. Dario Fo sabia-o como podemos
ler nos seus textos de teatro ou nas suas entrevistas. A peça foi escrita em
1982 e se havia alguma ponte temporal a construir, a encenação de Rui Dionísio e
o cenário e figurinos da Ana Paula Rocha, fizeram-na. Gosto mesmo muito de
fazer este espetáculo com o Eurico Lopes, há uma relação muito direta com o
público, muito “olhos nos olhos”, muita cumplicidade e tem sido tão
gratificante, tão bom.
Susana Sá e Eurico Lopes
M.L: Participou também, em 2019, nos filmes “Uma Vida
Sublime” e “Imagens Proibidas”. Quais são os seus próximos projetos?
S.S: Sim, “Uma Vida
Sublime” de Luís Diogo que ganhou uma quantidade de prémios lá fora, e “Imagens
Proibidas” de Hugo Diogo, um filme sensível baseado num livro sensível de Pedro
Paixão, que tive a oportunidade de conhecer e entrevistar. Quanto ao teatro, continuamos
(TEatroensaio e Cendrev) com a digressão da comédia “Fantasmas?”, de Eduardo de
Filippo. E com a digressão da comédia “Casal Aberto”, com a companhia Cegada -
estaremos dias 27 e 28 de Abril no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo.
Em meados deste mês começo os ensaios de “Bonecas”, com encenação de Ana Luena
que vai estrear em Julho, no Porto, no TECA, depois estará no Teatro Garcia de
Resende em Évora e, no próximo ano, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Continuo com
as minhas locuções e dobragens na RTP, a escrevinhar peças de teatro
infanto-juvenis e a fazer investigação em artes performativas e audiovisuais na
Faculdade de Letras de Lisboa (escrevemos o nosso primeiro livro o ano passado!).
Susana Sá como "Graça" em "Imagens Proibidas"
Susana Sá e Eric da Silva, o protagonista de "Uma Vida Sublime".
M.L: Que conselhos daria a alguém que queira ingressar
numa carreira na representação?
S.S: Respeito pela profissão,
humildade, resiliência, paciência. E muita literatura. Ver muito cinema e
teatro. Fazer investigação e estar disponível para procurarnovas formas de abordar as (mesmas) questões.
É indispensável sabermos de onde viemos, é importante percebermos quem somos, a
nossa “identidade”, assim como é mais que fundamental estar atento aos outros,
à questão da alteridade. O ato criativo, para mim, é um processo de dentro para
fora. O ator é um aprendiz até ao fim, um profissional em constante construção,
nunca está completo.
M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido
até agora como atriz?
S.S: Positivo, mas podia ser melhor. Sou mais feliz quando
estou a trabalhar, é uma sina. Consegui, até hoje, manter a minha independência
a trabalhar na área que escolhi mas ser ator, artista em Portugal é um duplo ato
de resistência. A instabilidade instalou-se, não há horizonte nem rede. O
panorama atual do teatro é da possibilidade de produção artística para cada vez
menos artistas. Não se estão a criar pontes suficientes. Ganha o mais forte mas
o mais forte não é necessariamente aquele que tem mais mérito. Penso que
vivemos um quase-retrocesso.
Susana Sá como "Antónia Félix" na série "Massa Fresca" (TVI)
Susana Sá como "Barbara", ao lado de Duarte Gomes, na telenovela "Jogo Duplo" (TVI)
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda nesta altura da sua vida?
S.S: Tantas coisas. Vários autores e muitas viagens.
Bem, já plantei uma árvore, agora falta o resto.ML
A actriz Marina Albuquerque é a autora do terceiro texto publicado no "Mário Lisboa entrevista...", a propósito do Dia Mundial do Teatro.
"Dia Mundial do Teatro
1% para a
cultura! No fundo é o mais importante, os outros países da Europa têm
anualmente atribuído à sua cultura, este valor ou maior, que vem do orçamento
geral do estado! Portugal subiu de uns miseráveis 0,2% do orçamento do estado
para a cultura para 0,25%! Chega, basta! É inacreditável as décadas de desprezo
pela cultura que é a alma e o coração de um povo! O TEATRO sempre fez parte da
vida dos portugueses, mas também ao longo dos tempos tem vindo a ser transformado
num exercício para uma elite, cinco dias em cena no CCB, dois ou três dias na
Culturgest, dez dias no Teatro Nacional, quinze no São Luiz, 7 no Rivoli são
alguns exemplos. O público anónimo, não chega a perceber o que está em cena em
Lisboa e no Porto! No resto do país é ainda mais difícil, a criação de
companhias profissionais em todas capitais de distrito é ainda um sonho, pois
os equipamentos estão lá, os centros culturais e antigos teatros foram
construídos, recuperados e bem, numa época em que o orçamento para a cultura
era maior que o actual, falta agora utiliza-los na sua plenitude! A minha
geração deixou os programadores e agentes teatrais estrangularem a chamada
“carreira” dos espectáculos, quem continua a fazer serviço público são as
companhias mais antigas, com excepção do Teatro Meridional, por regra os
criadores têm os seus espectáculos muito pouco tempo em cena, neste Dia Mundial
do Teatro, era tão bom se fôssemos de facto mundiais, com a nossa língua que é
a sexta mais falada no mundo! Viva a nossa classe, que respeito como a vida! Viva
o Teatro! É hora!"
Continuando com a minha iniciativa de publicar textos individuais de pessoas com percursos artísticos diferentes, a propósito do Dia Mundial do Teatro, aqui deixo o segundo texto escrito pela actriz Suzana Borges que se estreou com a peça "O Despertar da Primavera"/"Tragédia Infantil", o clássico de Frank Wedekind, em 1979.
"Suzana Borges, 40 anos de carreira em 2019
Reflectir sobre 40 anos de
carreira no espectáculo, é de algum modo assustador... Mas tenho por vezes, uma
visão de mim própria, quando estou para entrar em cena, como de um plano
picado, em que estou ali no teatro, com o palco e o público, e eu, numa alegria
expectante, ali, à espera de entrar, e penso: ainda cá estou. Pois neste mundo
do espectáculo, a sobrevivência é uma outra arte... Algumas coisas mudaram
nestes 40 anos, mas devo ao meu grande mestre José Osório Mateus, com quem
trabalhei na primeira peça “Tragédia Infantil” de Wedekind, o ter-nos
preparado com tanta clarividência e sabedoria, e amor, para as nossas
carreiras, e melhor ainda para o que pensar sobre elas e sobre nós nelas.
Primeiro que tudo amor pelo trabalho, disciplina e método. O resto é a
descoberta diária, e por vezes em saltos qualitativos, de como estamos nós
naquele texto ou naquela situação. Não importa o tamanho do papel, mas sim o
que o trabalho transforma em nós, e como nos transformamos na personagem. E
estas regras de ouro centram-nos não no reconhecimento, ou na fama, mas numa
criação, sempre in progress, de nós
próprios e das condições de trabalho. Na posse delas, que nos conferem grande
respeito por nós próprios, é mais fácil lutar contra a injustiça, a
desqualificação e o demérito que a profissão tem sofrido. E depois, pensando
retrospectivamente, há as memórias dos autores que fui fazendo: Borges, com o
seu animismo panteísta, ou assim gosto de lhe chamar, Conrad, com as suas
construções de ideias e palavras que nos levam para um sítio - como um remoinho
- obscuro da nossa percepção e do mundo, Sacha Guitry, oh! que elegância
inteligente e galante, Shakespeare, que só fiz enquanto recitante em ópera, em
que as palavras e o dizê-las infundem uma alegria de passagem de testemunho de
beleza, engenho, e arte. Noël Coward, mestria na rapidez, ritmo, e muita
sofisticação na simplicidade, Wedekind, cujo mistério dos jovens adolescentes
foi mais claro para mim em 79, do que agora quando o abordo. Claudel, em que
linguagem nos eleva para uma transcendência espiritual e poética - comparável à
natureza? Howard Brenton, poesia e horror na intimidade da linguagem, do
pensamento e dos actos... Mishima, e o quanto a sua sonoridade e cultura japonesas,
consegui habitar e viver na personagem, numa experiência de transformações
múltiplas. E também a grande comunhão quando se representa autores vivos, como
Luís Assis e Pedro Pinheiro, de poder perguntar-lhes: o que queres dizer com
esta frase? O que sempre me interessou no teatro é a nossa capacidade de
transmitir e deixar impressões no espectador de alguém que é uma personagem de
ficção, que não somos nós. Essa transcendência e a grande aventura pressentida
todas noites no escuro de antes de entrar em cena, do risco e da emoção, do
novo. Do que nunca aconteceu, e que não sabemos como será.