domingo, 21 de junho de 2015

Mário Lisboa entrevista... Alexandra Diogo

O interesse pela representação surgiu muito cedo e nos últimos 24 anos tem desenvolvido um considerável percurso como atriz que passa, essencialmente, pelo teatro, pela televisão e pelas dobragens. Mãe da atriz Sara Mendes Vicente, desde 2008 que tem trabalhado mais na Companhia de Teatro de Sintra/Chão de Oliva, onde vai regressar em Setembro com a peça "As Criadas" de Jean Genet e encenada por Paula Pedregal. Esta entrevista foi feita no passado dia 19 de Maio.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
A.D: Foi um processo que se desenvolveu em mim de forma inconsciente. Era um hábito ir ao teatro, ao cinema, ao bailado, a concertos... No meu núcleo familiar era habitual. O meu pai partilhava comigo estes seus gostos. Lembro-me que conversávamos muito sobre o que víamos, ouvíamos, mesmo em casa... Ele não dispensava a música, punha um vinil, e, havia uma sinfonia de Tchaikovsky que ele gostava particularmente, e de Mahler também, e íamos conversando sobre aquilo, sobre filmes... E depois, na família, próxima, havia gente ligada ao meio, do teatro e da televisão, portanto era um assunto habitual... Mas eu comecei pela Dança. Entrei no Conservatório com 11 anos. Houve, na altura uma boa preocupação do Estado quanto ao ensino artístico e era possível fazer as aulas de bailado e a escola. Passados cinco anos essa preocupação estatal acabou e, como eu, ficou muita gente sem poder concluir o curso. Só quem teve dinheiro para entrar em escolas particulares pôde conciliar horários e continuar caminho.

M.L: Quais são as suas referências, enquanto atriz?
A.D: Não consigo dissociar a minha profissão da pessoa que sou e, pessoalmente trago comigo boas referências. O meu pai, um Ser Humano maravilhoso, sempre disponível para os outros, impressionante, mesmo, e a minha filha, Sara Mendes Vicente, uma jovem linda, cheia de força e de coragem, uma valente, um exemplo de resistência. Admiro-a muito. E o meu marido, um exemplo de persistência, e de resistência também. Profissionalmente fico fascinada com o Al Pacino, Meryl Streep, Ian McKellen, James Dean em "Fúria de Viver" (1955), aquele "Hey Stella!" do Marlon Brando em "Um Elétrico Chamado Desejo" (1951), um grito que se entranha... Fica-nos na pele. Somos um produto do que passamos, do que passa por nós e do que fazemos com tudo isso. É muito belo. E, mais nomes que dissesse, das mais variadas áreas, das artes à Política, seria sempre injusta, porque ia esquecer-me de tanta gente que trago comigo e tantos outros que ainda não conheço.

M.L: Faz, essencialmente, teatro e televisão. Gostava de trabalhar mais em cinema?
A.D: Faço essencialmente teatro e dobragens de animação. Em telenovela tenho participações em quase todas elas, mas pequenas cenas. Apenas em duas fiz parte do elenco. Sim, gostaria muito, mesmo, de trabalhar em cinema. Mas o cinema, como todas as outras artes estão com inúmeras dificuldades em sobreviver, e compreendo que precisem de audiências, e as audiências são feitas através dos nomes mais conhecidos. Já não compreendo da mesma forma que isto comece a ser uma prática no teatro, e seja já assumidamente a prática da produção televisiva. O teatro terá de se impor de outras formas, com os apoios estatais, obviamente, pois faz um serviço público e muito comunitário, através de boa divulgação nos meios de comunicação, e a gravação de teatro em televisão poderia ser uma ajuda ao gosto e à criação de públicos. E no ensino, nas escolas, se houvesse um bom investimento por parte do Estado no ensino, o teatro sairia a ganhar. A produção televisiva quanto à sua qualidade está um caos. Os conteúdos são inúmeras vezes idênticos e de muito pouca qualidade. As pessoas não “crescem” em nada, não acrescentam nada ao seu conhecimento, isto numa perspetiva cultural. Pelo contrário, acho que regridem. Acho que há diversos tipos de “lápis azul”. É a minha opinião.

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou, até agora, durante o seu percurso como atriz?
A.D: Tenho um percurso extenso, mas só desde há uns 6 anos tive de facto as minhas melhores oportunidades. Tanto quanto às personagens que me foram distribuídas como relativamente ao tipo de trabalho consciente, organizado e burilado, que é a forma como decorrem os processos de trabalho na Companhia de Teatro de Sintra/Chão de Oliva, com quem tenho participado mais ultimamente. De há seis anos a esta parte tem sido nesta casa que tenho crescido, e por isso todos eles me marcaram muito, desde “As Três Irmãs”, “A Voz Humana”, a que eu hoje gostava de me atirar novamente, aos sketches do Karl Valentin em “E a cabeça tem de ficar?”, etc.

M.L: Entre 2009/2010, participou na telenovela “Perfeito Coração” que foi exibida na SIC, na qual interpretou a vilã Filipa. Que recordações guarda desse trabalho?
A.D: Do “Perfeito Coração” guardo comigo a recordação de querer ir mais além naquela personagem, o que não foi na altura possível. A personagem tinha alguma relevância, mas não tão grande que fosse exequível “perder-se” mais tempo com ela. A produção em televisão é uma vertigem constante, todos os segundos contam, e, se a cena saiu correta, não há possibilidade de a tentar melhor, porque já ficou certo assim. Mas tive pena, porque era uma personagem engraçada de trabalhar e podia dar pano para mangas.

M.L: É mãe da atriz Sara Mendes Vicente. Como vê o percurso que a sua filha tem desenvolvido até agora?
A.D: A Sara tem tido algumas oportunidades, que ela própria tem construído, não lhe apareceram apenas por sorte. Em 2008, estava na Universidade Nova de Lisboa e a fazer um Curso de Teatro em simultâneo. É uma grande lutadora. Filmou “Últimos Dias” (2009), uma curta-metragem da autoria e realização de Vasco Rosa, que estreou e esteve em cartaz no Cinema City Alvalade, na SIC gravou a “Lua Vermelha” (2010/2012), e a par disto participou com os Lisbon Players, dobrou séries de animação na Dialectus, na Pim Pam Pum, na MDL, enfim… a Sara é barra, como se costuma dizer, a dobrar, é uma atriz extremamente competente e rápida, e isso agrada imenso aos estúdios, claro.

M.L: Em 2010, protagonizou o monólogo “A Voz Humana” de Jean Cocteau, encenado pelo seu marido João de Mello Alvim e produzido pela Companhia de Teatro de Sintra/Chão de Oliva, onde tem trabalhado mais desde 2008. Na sua opinião, de que forma este texto mantém-se atual, tendo em conta o seu retrato da solidão?
A.D: “A Voz Humana”, do Cocteau, é um desafio monstruoso. Fala de solidão e é ele próprio também um exercício solitário para a atriz. A contracena não existe, é o telefone, e o que ela  imagina que alguém do outro lado possa estar a dizer, esforço que também é exigido ao espectador. É tudo “Um”, repare, uma mulher, uma qualquer mulher, sem adornos na representação, uma mulher anónima, um telefone, um espaço limitado como área de representação… acho que foi um “grito” do Jean Cocteau, partiu segundo recordo da altura em que andei em pesquisas, de várias divergências dentro do meio artístico que ele frequentava, da crítica também… quer dizer, o teatro é uma comunhão, uma cerimónia, repare, e ali deixa de haver a comunhão, porque, mesmo o espectador vê-se confrontado com um exercício solitário. Hoje em dia, a solidão é também um assunto muito presente, todo o tipo de solidão. Há acessos a tudo e mais alguma coisa em termos de tecnologias, há inúmeras pessoas que nos rodeiam a cada minuto, e muitos de nós vivemos completamente isolados na mesma. Penso, entre outras coisas que, a velocidade, a forma vertiginosa como vivemos, a necessidade enganosa do imediato e de que tudo tem de ser muito rápido, nos isola, porque nos desvia da profundidade de algumas coisas na vida que têm mesmo de ser pensadas e refletidas. Esta forma de vida tem-nos sido imposta aos poucos, e não é inocente.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na representação?
A.D: Que tenha um “Plano B” à mão. Continua a ser muitíssimo difícil ser artista, seja de que área se trate. E não é exclusivo do nosso país, atenção.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem desenvolvido, até agora, como atriz?
A.D: Um balanço com coisas positivas e com coisas menos positivas. Gostaria muito de ter tido algumas oportunidades mais cedo. Só se cresce trabalhando.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
A.D: Estou a preparar um projeto meu, que não sei ainda quando vou ter pronto, “O Conto da Ilha Desconhecida”, do José Saramago, para espaços convencionais (salas de espetáculo), e não convencionais (Escolas, Bibliotecas, etc.), e em Setembro vou voltar a trabalhar na Companhia de Teatro de Sintra/Chão de Oliva para “As Criadas”, do Jean Genet, juntamente com a Sofia Borges, encenação da Paula Pedregal e cenografia do Miguel Gorjão Clara.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
A.D: Gostaria de trabalhar no estrangeiro, em teatro, em cinema, gostaria de trabalhar ainda mais em dobragens, adoro gravar desenhos animados, e, olhe, gostaria de poder viver tranquila na minha atividade profissional, que continua sendo uma atividade intermitente, menos no que respeita às obrigações fiscais, essas são obrigatórias e implacáveis.

E também quero agradecer-lhe a oportunidade que me deu para deixar aqui estas minhas palavras, Mário.ML

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