domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mário Lisboa entrevista... Paula Santos

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Paula Santos. Desde muito cedo que se interessou pela representação, sendo um dos talentos mais promissores do meio artístico português, e tem desenvolvido um versátil percurso como atriz que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Morangos com Açúcar" (TVI) e "Rebelde Way" (SIC). Workaholic assumida, desdobra-se em vários projetos (sendo, por exemplo, criadora do blogue "Paradoxo de Realidades" (http://paradoxosemmim.blogspot.pt/) e mentora, com a cantora Kiara Timas, do projeto "O que me traz o maior sorriso" que tem como objetivo incentivar quem sai à noite a ajudar os sem-abrigos) e, atualmente, participa na telenovela "Sol de Inverno" que está em exibição na SIC. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 19 de Dezembro.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
P.S: Confesso que, desde miúda, sempre fui muito espontânea para com a minha criatividade, era (e ainda sou um bocadinho) a artista da casa sempre pronta a entrar no meio da sala sem medos e fazer uma peça de teatro, interpretar uma canção, vestir uma personagem de um filme ou um ícone da História e deixar todos com um sorriso no rosto. Sou uma alegre caixinha de surpresas para a família, confesso. 
O estudo de comportamentos, a analise constante de emoções e pôr-me no papel do “outro” enquanto vivências relacionamentais também foi sempre algo muito presente na minha forma de estar na vida e que sempre me estimulou. Perante estas minhas tendências, poderia afirmar que nasci atriz, mas conscientemente comecei a ficar com o “bichinho da representação” a fazer anúncios para TV os quais requerem algum acting, pois damos vida a uma personagem numa história, mesmo que só para uma marca ou para um produto. Por isso, posso dizer que foi oficial, na minha mente, o casamento com esta paixão, com a publicidade há cerca de 11 anos.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto atriz?
P.S: Apaixonam-me atores que consigam construir A personagem de uma forma subtil, que seja notória a construção através do Método de Stanislavski, que através de gestos simples, mas fortes, olhares intensos que, praticamente, não precisem de texto para falar, se perceba a intensão e emoção da cena. Por isso, vejo inspiração para o meu trabalho em atrizes como Charlize Theron, Meryl Streep, Natalie Portman e em atores como Daniel Day-Lewis, Anthony Hopkins e Johnny Depp.

M.L: Faz teatro, cinema e televisão. Qual destes géneros que mais gosta de fazer?
P.S: Enquanto atriz, é gratificante qualquer uma destas áreas, pelo menos para mim que felizmente já pude experienciar as 3, precisamente por terem formas distintas de construção de personagem. Em novela, por exemplo, o percurso da personagem está, até ao final, a ser escrito, por isso é sempre uma surpresa para nós, enquanto atores, do futuro da mesma, o que nos obriga a uma ginástica maior em termos de memória e de emoções. Uma forma simples de explicar esta situação é: Hoje gravamos o nosso casamento e amanhã gravamos o início do namoro. Em termos de cronologia, não há uma constante de gravação. Já em cinema, temos um guião em mão por inteiro e sabemos o início e fim da história da nossa personagem com alguma antecedência, o que nos permite uma margem maior de trabalho de construção de personagem. Por outro lado, o facto de termos de gravar 5 vezes a mesma cena por causa dos planos, torna o trabalho de repetição mais difícil que em novela. No teatro, respiramos o público, temos uma liberdade de expressão corporal maior, sentimos, de imediato, a reação do nosso trabalho! É muito gratificante. E é o pai desta arte!!! Por isso, diria que a ser gratificante, num todo, é o teatro. Mas amo representar e poder explorar ser outras pessoas em mim, por isso dêem-me um guião, um espaço, uma personagem e público e estarei muito feliz em qualquer um dos 3 “moldes”.

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou, até agora, enquanto atriz?
P.S: Houve uma personagem que fiz numa peça de teatro que me apaixonou bastante: “Em Nome do Pai”. Uma menina que vivia no meio rural e que sonhava com Hollywood, que se refugiava no seu imaginário para fugir à morte de um pai e de uma família com muitos problemas financeiros. Foi muito bonito, para mim, senti-la e foi a personagem mais complexa em comparação a qualquer outro registo que tivesse feito.

M.L: Em 2010, participou na curta-metragem “Voice Mail” e na respetiva sequela intitulada “Voice Mail 2-A Vingança”, da qual foram escritas e realizadas por Artur Ribeiro. Que recordações guarda destes dois trabalhos?
P.S: Foi delicioso! Muito bom e engraçado. Surgiu de uma brincadeira entre mim e o Artur, de um desafio para os 2 o qual funcionou muito bem, tanto que se tornou numa sequela. Numa esplanada a lancharmos, o Artur disse-me: “Se escrevesse algo para amanhã e chegasse ao pé de ti com uma câmara, alinhavas em fazer uma curta-metragem meio louca?”. Eu que adoro desafios, (ainda que estivesse um pouco assustada, pois não sabia que texto ia ter, não teria tempo para decorar e trabalhar a personagem) disse logo: “SIM!!!”. E resultou lindamente!!!

M.L: Como foi trabalhar com Artur Ribeiro?
P.S: O Artur é um excelente profissional e um amigo que tem uma sensibilidade e qualidade natas para a escrita. Uma pessoa muito sensível à vida e aos pequenos pormenores da mesma. Posso dizer, sem qualquer receio, que se há algo que vai ser escrito pela mão dele vai ser muito bom! 
Vemos isso no guião para a curta-metragem “Voice Mail” que surgiu de uma brincadeira e do qual ele conseguiu pôr a força de uma psicótica, junta alguma comédia e drama em texto subentendido. Por isso, foi maravilhoso trabalhar com o Artur e espero voltar a repetir.

M.L: Qual foi o momento que mais a marcou, até agora, enquanto atriz?
P.S: O primeiro guião que tive em mão para interpretar foi, sem dúvida, o momento que mais me marcou. Precisamente por ser o começo de tudo, do sonho.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
P.S: Seria óbvio dizer que sim, mas não. Ainda que seja uma lutadora e aventureira, sempre sonhei com os pés bem assentes na terra e sei o quanto difícil é conseguirmos mostrar o nosso trabalho a nível artístico lá fora. Adoro Londres e a forma como lidam com a arte, sou facciosa por filmes de Hollywood, mas sou, acima de tudo, muito realista, quanto ao sistema de como esta indústria (que é a arte de representação) funciona. 
Muitos colegas meus tentaram, mas muito poucos conseguiram chegar a além-fronteiras. Admiro-os, mas não é o sonho que tenho para mim. Não digo que seja impossível, mas para mim não é A prioridade, quero fazer um bom trabalho e percurso, mas não obrigatoriamente lá fora, pelo menos nesta área. Se acontecer ótimo, mas não gasto a minha energia nesse sentido. Já escrever, por exemplo, talvez seja algo a explorar além-fronteiras... Hoje em dia, tenho os meus objetivos muito bem definidos e está tudo numa linha muito harmoniosa.

M.L: Quais são os atores, em Portugal, com quem gostava de trabalhar no futuro?
P.S: Sou uma sortuda neste ponto, pois tive a sorte não de trabalhar, mas de ter formação com Raul Solnado e com António Feio, que já não estão entre nós, e me transmitiram e incutiram princípios e normas, enquanto artista que jamais esquecerei. Depois têm-se cruzado no meu caminho profissional, os melhores colegas e profissionais que temos. Atualmente, trabalho com um conjunto de atores, que só me faz agradecer à vida por estar a ter esta experiência. Em carteira, ficam ainda Ivo Canelas, Ruy de Carvalho e Maria João Bastos, em falta.

M.L: Qual foi a situação mais embaraçosa que a marcou, até agora, enquanto atriz?
P.S: Chegar ao plateau para a 1ª cena da série “Rebelde Way” (SIC) e dizerem-me: “A cena começa com as 2 personagens aos beijos em grande clima de paixão”. Imagina!!! Eu que nem conhecia o meu colega na altura. Fiquei completamente sem jeito e até pensei que fosse partida por ser o meu 1º dia de gravações!!! Mas era mesmo verdade e acabou por correr tudo lindamente graças a toda a equipa e colegas e direção de atores.

M.L: Gostava de experimentar outras áreas como, por exemplo, a escrita?
P.S: Já o faço, há cerca de 3 anos. Sempre senti uma grande adrenalina e entusiasmo pela escrita, sempre fui de publicar posts em redes sociais, intelectualmente provocadores, sempre gostei de um bom debate e sempre soube expressar muito bem em escrita o que, por vezes, as palavras ditas não soltam. E, curiosamente, também sempre tive ótimos feedbacks, por parte de quem me “lê”. Isso fez com que o apelo de avançar com a escrita, tomasse uma forma real e que fez muito sentido para mim! Assim comecei por começar regularmente a escrever textos soltos e poemas com os quais criei o Blogue “Paradoxo de Realidades” e, recentemente, textos mais impactantes, que abordassem temas com os quais as pessoas se identificassem, aos que chamei de “Crónicas de Santos Paula”. E posso dizer, com alguma certeza, que a escrita irá continuar a cruzar-se no meu caminho, enquanto artista e enquanto indivíduo.

M.L: Qual foi a pessoa que a marcou, até agora, enquanto atriz?
P.S: Enquanto atriz e no meio, foi, sem dúvida, a panóplia de formadores da área que tive no meu primeiro curso, pois foram eles que me moldaram para o início deste caminho. Mas não posso deixar de frisar que é quem me dá a mão no meu caminho e quem acredita em mim que me marca a alma, pela generosidade e confiança que em mim depositam.

M.L: Qual o conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na representação?
P.S: Excelente pergunta para a resposta que há tanto quero dar relativamente a quem diz, sem pensar, que quer ser ator.

Tenham consciência que terão de estudar muito! Ter um conhecimento geral de TUDO o que a vida tem, vão ter de estar informados sobre TUDO, de começar a estar preparados para ler pessoas, controlar emoções e saber de A a Z, desde profissões a doenças existentes assim como culturas, religiões, etc. E principalmente ler muito, ter um vocabulário vasto e estar preparado para saber esperar.
Logo ser ator/atriz é, talvez, a profissão mais difícil de gerir.

Por isso, o conselho é:
– Sejam prudentes, quando escolherem esta profissão, mas arrisquem se estiverem mesmo apaixonados, pois terão a maior das bênçãos por conseguirem viver outras pessoas em vocês e dar ao público uma vida com mais cor, emoções e sorrisos.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito, até agora, como atriz?
P.S: Gostava de ter tido oportunidades com mais regularidade, e de não ter estado durante tanto tempo com a minha imagem “colada” a séries juvenis pois o trabalho do ator é mostrar sempre algo novo e tentar não ficar vinculado a um só registo. Mas, no geral posso dizer que o meu percurso é sóbrio e que, aos poucos, vou conseguindo chegar aos objetivos que mais ambiciono.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
P.S: Neste momento, estou a trabalhar em TV, num projeto com uma qualidade muito grande, de horário nobre e composto por colegas que admiro muito. Paralelamente, estou com uma peça de teatro infantil “Missão Terra” no âmbito das ciências do ambiente, no qual podemos passar por escolas, hospitais, levar um sorriso e aprendizagem sobre os mais novos, algo que é muito gratificante. E também sou mentora, com a cantora Kiara Timas, do projeto “O que me traz o maior sorriso”, uma ação individual que tem como objetivo incentivar quem sai à noite a ajudar os sem-abrigos. Para já e em curso, estes são os meus projetos aos quais estou dedicada de corpo e alma. Mas também sou Relações Públicas de um Hostel maravilhoso e estou envolvida em projetos paralelos que, gradualmente, vão acontecendo. Sou workaholic, logo haverão sempre novidades quanto ao meu percurso.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
P.S: Poder ajudar pessoas mais carenciadas, crianças... Estar ligada a grandes causas humanitárias através da minha imagem, poder conciliar a realização profissional à pessoal, é e sempre foi a minha maior ambição.

M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?
P.S: Estou numa fase muito tranquila e harmoniosa da minha vida, por isso neste momento não mudaria nada. Até porque tudo acontece na altura certa, mais cedo ou mais tarde.ML

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