domingo, 13 de outubro de 2013

Mário Lisboa entrevista... Cecília Henriques

Olá. A próxima entrevista é com a atriz Cecília Henriques. Desde muito cedo que se interessou pela representação, tendo-se estreado como atriz aos 14 anos, e desde aí tem desenvolvido um honesto e interessante percurso na área da representação, da qual passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão, e, em 2011, fundou, juntamente com Raimundo Cosme, Luís Lucas Lopes e Rita Chantre, a companhia Plataforma285, e também é manager da banda Lcomandante & General, que está a dar os seus primeiros passos. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 22 de Agosto.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
C.H: Estudei no Colégio Marista de Carcavelos dos 5 aos 13 anos. Desde muito pequena que dançava, e escrevia peças para o colégio, e participava nelas. Lembro-me que, quando tinha 12 anos, dizia que "queria mudar o Mundo através da Arte". Bem, hoje penso que é um propósito muito grande... Mas no fundo (ainda para mais agora com a minha companhia, onde posso trabalhar sobre o que acho necessário e urgente), acho que tento fazer isso. No 9º ano, sabia que queria ir para um curso de Teatro. Acabei por ir para o Chapitô-Escola de Artes e Ofícios. E foi aí que tudo começou, aos 14 anos.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto atriz?
C.H: Como atriz, sou muito instintiva. Tenho sempre um backgroud de pesquisa e referências. Mas quando as materializo, tento ser como uma criança, sem pré-conceitos. Enquanto atriz, acredito muito no trabalho de Stanislavski. Fiz dois workshops com Robert Castle sobre "O Método" e acho que me ajuda sempre muito, quando estou a interpretar. Enquanto artista, tenho imensas influências. Tanto no Cinema, como no Teatro. Desde (Ingmar) Bergman até (Quentin) Tarantino, (Pedro) Almodóvar e, mais recentemente, sou fascinada pelo realizador Steve McQueen e pelo Terrence Malick. Enquanto autores, o Enda Walsh continua a ser o meu "mais que tudo", mas passo pela malograda Sarah Kane, Mike Bartlett, (Bertolt) Brecht, (Samuel) Beckett, Tim Crouch... Tantos. Tenho medo de me esquecer de alguns e de certeza que me estou a esquecer.

M.L: Faz teatro, cinema e televisão. Qual destes géneros que mais gosta de fazer?
C.H: Teatro e Cinema são as minhas paixões. Mas gosto de fazer Televisão, dá-nos desenvoltura.  

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou até agora, enquanto atriz?
C.H: Esta pergunta é muito difícil... Todos me marcaram, de uma forma diferente. "A Mata", com os meus colegas do Chapitô no Festival de Almada com os Artistas Unidos, fez-me perceber que afinal podia mesmo ser atriz. Não era só eu que me divertia a fazer aquilo, deram-me a entender que se calhar até lhe "dava uns toques". Era tudo tão fácil nessa altura. O "Disco Pigs", com os Artistas Unidos e com o meu querido Pedro Carraca, e encenado pela Franzisca Aarflot (por quem tenho um carinho e uma admiração enorme), foi para mim a minha grande estreia, para além de amar o texto, diverti-me muito, e lembro-me que era uma grande responsabilidade para mim. Só dois atores em cena, um texto tão duro e doce ao mesmo tempo, tantas camadas. No "Onde Vamos Morar", fiz uma peça do José Maria Vieira Mendes, um autor que gosto muito e que acho que tanto no trabalho que faz com Os Praga, tanto nos Artistas Unidos é ótimo. "Esta Noite Improvisa-se" foi importante, porque era uma grande encenação no Teatro Nacional (D. Maria II) com muitos atores (amigos) que respeito muito e um espetáculo muito importante para os Artistas Unidos e para o Jorge Silva Melo. O meu primeiro espetáculo de cocriação foi muito especial, com o Raimundo Cosme: o "Esa cosa Llamada Amor". Para além de começar o meu trabalho como criadora, o que foi um grande desafio, comecei a criar laços com um outro tipo de Teatro, conheci o Teatro Cão Solteiro, que é uma das companhias que sigo sempre com muito gosto e alegria, porque merecem e fazem coisas que ninguém faz em Portugal. Daquelas coisas que tu dizes: "Como é que eles se foram lembrar daquilo? Também quero!" e a partir desse momento comecei a falar com o Raimundo Cosme e decidimos fundar a nossa companhia Plataforma285.

M.L: Entre 2010 e 2012, participou na série “Lua Vermelha” que foi exibida na SIC, da qual interpretou a personagem Matilde Borges. Que recordações guarda desse trabalho?
C.H: Guardo recordações muito boas. Eramos quase todos atores de Teatro ou não muito conhecidos em Televisão e isso fez com que estivéssemos muito unidos. Tanto atores, como equipa técnica. Nessa altura, trabalhávamos tanto que acho que eramos como uma grande família. Acho que fenómenos destes só se dão uma vez na vida, devido às condições anteriormente referidas. Para quase todos, era o primeiro ou o primeiro grande trabalho para Televisão, e isso era importante para nós. Lembro-me de estar com muito medo no início, porque até aí só tinha feito Cinema, com uma câmara, muito tempo, ensaios. Pensei que ia chegar lá e não perceber nada. Mas foi como uma escola de Televisão. E guardo até hoje um carinho muito grande pela equipa técnica e pelos atores e realizadores. Tenho pena de só ter trabalhado mais uma vez com a SP (Televisão), na série "Maternidade" (RTP), mas acredito que tudo têm um sentido, e que tudo estará em ordem mais tarde.

M.L: Como vê, atualmente, o teatro e a ficção nacional?
C.H: Acho que o Teatro é mal tratado em Portugal, devido ao facto de, na minha opinião, não existir uma "Política Cultural" e devido ao facto de sermos vistos como os coitadinhos dos que esperam pelos subsídios. Se somos (Cultura) 3% do PIB português, não devíamos ser subsidiados. Deviam era investir, mais e mais. Como fazem com as empresas. Investimento. Acho que precisamos de investir mais na "educação pela Arte". 

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
C.H: Quem é que não gostava? Sim, gostava. Falo muito bem Inglês (só Inglês, mesmo) e ainda estou à espera do telefonema do Steve McQueen a dizer: "Come on, girl. I'm waiting for you. Let's shoot my new movie..." (“Vamos lá, rapariga. Estou à tua espera. Vamos lá filmar o meu novo filme”). Quero muito fazer não só Cinema, mas Teatro lá fora.

M.L: Em 2011, fundou, juntamente com Raimundo Cosme, Luís Lucas Lopes e Rita Chantre, a companhia Plataforma285. Como é que surgiu a ideia de fundar a companhia?
C.H: Estávamos em 2011 e o Raimundo Cosme propôs-me fazermos um espetáculo no espaço da companhia Teatro Cão Solteiro. Fizemos o nosso primeiro espetáculo: "Esa Cosa Llamada Amor". E a partir daí, pensamos que tínhamos mais coisas para dizer, que queríamos trabalhar mais e que falávamos a mesma linguagem em termos de criação e estética. E assim decidimos juntar-nos ao Luís Lopes (ator) e à Rita Chantre (Fotógrafa). Fizemos a associação e já fizemos 4 espetáculos. Com suor e Lágrimas e alguns subsídios...

M.L: Que balanço faz do percurso que a companhia tem feito até agora?
C.H: É sempre muito difícil. Não somos uma companhia de 10 anos, mas pela força que temos de ter para continuar e continuar, parece que sim. Estamos constantemente a escrever projetos para apoios de entidades. Recebemos poucos até agora. Portanto mais do que lucro, que é quase ridículo, trabalhamos para pôr dinheiro na companhia e para podermos continuar a trabalhar. Mas há sempre aquela pergunta: "E quando não tivermos forças?". A questão é que somos casmurros e queremos mesmo fazer isto. Não é teimosia, é uma necessidade de comunicação. Temos momentos muito felizes (mesmo), em que estreamos ou recebemos um subsídio, e parecemos uns maluquinhos aos saltos. Mas neste momento, como estão as coisas no panorama cultural português, são mais os momentos em que dizemos: "Bem, não temos nada, mas temos que falar, temos que fazer, por isso vai custar, vai sair-nos do pêlo, mas é isto que temos a dizer, por isso vamos". E encontro, nestes momentos, muita coragem da parte do meu colega Raimundo Cosme e ele em mim. E a coragem, para mim, é das coisas mais bonitas do Mundo.

M.L: É agenciada pela H!T Management que foi fundada por Ana Varela e que pretende ser uma agência inovadora, da qual os seus agenciados são, em grande parte, atores com menor visibilidade. Como vê o percurso que a agência tem feito, desde a sua fundação até agora?
C.H: Adoro o João Louro e a Ana Varela, entre todos os outros que trabalham na H!T. Para além de serem hiper-profissionais, têm um valor humano enorme, são os primeiros agentes que encontro que realmente se importam com os seus atores. Que são sinceros. Tive uma experiência horrível na agência anterior, pensei mesmo em não ter mais agências. Aliás, todo o trabalho que tinha não vinha deles, mas de contactos que eu já tinha. No entanto, encontrei o João, falei com ele e acreditei. E estou muito contente com eles. Acho que fazem tudo como deve ser feito. Apostam em pessoas com formação e talento. Acho que estão a caminhar como se deve caminhar, com calma e juízo. E não duvido que serão uma das agências com mais atores a trabalhar daqui a uns tempos. Mesmo. Aliás, já o começam a ser. Bom para mim, bom para eles. 

M.L: Entre 2006 e 2009, trabalhou, frequentemente, com a companhia Artistas Unidos de Jorge Silva Melo. Como foi trabalhar com a companhia nessa altura?
C.H: Foram eles que pegaram em mim com 16 anos e levaram-me para o Teatro profissional. Foi com eles que aprendi a ser atriz. Eles foram a minha "escola". Conheci atores maravilhosos, autores maravilhosos, amigos maravilhosos. Foi um momento muito, muito feliz na minha vida. Trabalhei com o Jorge Silva Melo, com quem aprendi muito. Toda a minha escola de interpretação de textos veio dele e dos restantes Artistas Unidos. Bem como da Franzisca Aarflot. Guardo as melhores memórias com a Companhia e continuo a seguir o trabalho deles, sempre.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito até agora como atriz?
C.H: Trabalho profissionalmente, desde os 14 anos. Portanto (a brincar, a brincar), faço, este ano, 10 anos de carreira. No fundo, foi um percurso com mais altos que baixos. Desde há dois anos que tem sido mais difícil. Mas não deixo de lutar, até porque não há outra coisa que queria ou que, na realidade, saiba fazer! É uma profissão que me deixa feliz. Não como tratam o Teatro ou o Cinema em Portugal. Aliás, neste momento, como tratam os Portugueses em geral. Mas sou muito feliz como criadora e como atriz.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
C.H: Estreio, no início de Novembro, o novo espetáculo da minha Companhia Plataforma285: "Leilão" no Teatro Cão Solteiro. Em Outubro, vou participar no filme "Benoît Brisefer: Les Taxis Rouges", uma produção francesa da Filmes do Tejo. Agora estou a trabalhar noutra área que sempre me interessou muito: a Música. Sou Manager de uma banda que começa a dar os primeiros passos: Lcomandante & General, com Cláudio Teixeira e Filipe Almeida. São ótimos músicos e artistas. Sempre gostei de programação musical. E talvez outros projetos que aí venham... Nós nunca sabemos, não é?ML

Fotografia: Rita Chantre

domingo, 6 de outubro de 2013

Brevemente...

Entrevista com... Cecília Henriques (Atriz)

Fotografia: Rita Chantre

Mário Lisboa entrevista... Fátima Araújo

Olá. A próxima entrevista é com a jornalista da RTP Fátima Araújo. Natural do concelho de Santa Maria da Feira, interessou-se pelo jornalismo aos 13 anos, quando começou a trabalhar nas rádios piratas e locais, e desde aí tem desenvolvido um interessante e decente percurso como jornalista que passa, essencialmente, pela rádio e pela televisão (tendo trabalhado na extinta NTV e trabalha, atualmente, na RTP), sendo um dos grandes valores da nova vaga de jornalistas que têm surgido, em Portugal, nos últimos anos, e além do jornalismo, também é professora. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 18 de Junho.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo jornalismo?
F.A: Surgiu por volta dos 13 anos, quando comecei a trabalhar nas rádios piratas e nas rádios locais. Comecei por fazer animação e discos pedidos, depois fui acumulando com notícias e entrevistas, pelo que o interesse pela prática jornalística foi crescendo e amadurecendo.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto jornalista?
F.A: Procuro não ser muito influenciada por nada e por ninguém. Até porque entendo que um jornalista tem de ter uma identidade própria, um cunho próprio e um referencial diferenciador próprio. Mas, obviamente, tenho referências profissionais, de outros jornalistas que admiro, que me inspiram e que me fazem desejar, um dia, ter uma carreira tão sólida, tão preenchida e tão prestigiante quanto a deles.

M.L: Trabalhou na rádio, depois passa para a televisão, tendo trabalhado na extinta NTV e, atualmente, trabalha na RTP. Que balanço faz do tempo em que está no canal?
F.A: Todos esses períodos foram períodos de aprendizagem e de amadurecimento pessoal e profissional. Com mais ou menos inquietações, com mais ou menos oportunidades de trabalho, com mais ou menos realizações, tudo faz parte do processo de crescimento e de evolução. A chegada à RTP foi a possibilidade de fazer, de forma mais profissional, aquilo que comecei por fazer, de forma mais amadora, na NTV. Mas a NTV foi uma boa escola: de partilha, de trabalho em equipa, de vestir a camisola por um projeto, de sonhos e de vontades de crescer!

M.L: Além do jornalismo, também é professora. Em qual destas funções em que se sente melhor?
F.A: Sinto-me muito bem em ambas as funções! Gosto de fazer as duas coisas: Jornalismo e dar aulas! E acredito que desempenho bem as duas funções (pelo menos, é esse o feedback que tenho dos meus colegas de profissão, do público e dos meus alunos)!

M.L: Como vê, atualmente, a Comunicação Social em Portugal?
F.A: Os órgãos de comunicação social não são exceção ao que se passa com o país: falta de mercado de trabalho, precariedade laboral, baixos salários e apreensão quanto ao futuro. Do ponto de vista dos conteúdos editoriais, também se nota que as restrições orçamentais hipotecam a qualidade e a diversidade de conteúdos dos órgãos de comunicação. Por outro lado, os Media em Portugal caracterizam-se muito por um mimetismo e por um “andar a reboque” da concorrência que retira criatividade e alternativa aos conteúdos oferecidos aos públicos.

M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
F.A: Gostar, em teoria, gostava! Mas não penso nisso, não ambiciono isso, nem trabalho a pensar nisso. Se acontecesse, por algum feliz acaso, gostaria. Mas não é essa a minha meta, nem o meu objetivo!

M.L: É natural de Santa Maria da Feira. Como vê a evolução que o concelho tem tido ao longo dos anos?
F.A: É um concelho que se afirmou económica, social e culturalmente ao longo dos anos como muitos poucos o têm conseguido fazer. É um concelho que tem a marca de “concelho solidário” pela inúmera quantidade de projetos de apoio a crianças, jovens e idosos. É um concelho com uma oferta cultural ímpar que atrai milhares de pessoas, todos os anos, a Santa Maria da Feira. São disso exemplo, a Viagem Medieval, o Imaginarius, o Festival da Juventude, o Festival de Cinema Luso-Brasileiro, o Moda Feira, as inúmeras conferências, colóquios e debates que ocorrem frequentemente.

M.L: Gostava de passar a viver e trabalhar em Lisboa?
F.A: Já vivi e já trabalhei em Lisboa, quando acabei a Licenciatura e fui estagiar para a RTP, em Lisboa. Acabei por ficar na capital 3 anos, na RTP e na Rádio Renascença. Sei hoje, como o sabia na altura, que nunca deveria ter regressado ao Norte (porque as oportunidades de trabalho nesta área são muito maiores em Lisboa). Mas teve de ser!

M.L: A Comunicação Social tem estado em grande mudança nos últimos anos. Quais são os desafios que a Comunicação Social tem de enfrentar nos próximos anos?
F.A: O grande desafio dos Media passa pela diferenciação de conteúdos, de abordagens, de paradigmas e de procedimentos e pela eliminação de alguns vícios sistémicos de funcionamento e de hierarquias. E também passar pela adaptação dessa diferenciação ao público específico que se pretende que seja o nosso público. A lógica de querer agradar a gregos e a troianos, de fazer enlatados de notícias só porque os outros também falam disto ou daquilo não permite a nenhum órgão de informação afirmar-se como alternativa e como marca com identidade.

M.L: Qual o conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira no jornalismo?
F.A: Desista do Jornalismo e tire outro curso com maior índice de empregabilidade. O Jornalismo não é a profissão romanceada que muita gente julga que é.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito até agora como jornalista?
F.A: Ainda tenho muito para fazer e para aprender… Apesar de já ter dado muitas provas do meu valor e do meu talento, apesar de já ter havido quem quisesse potenciar esse meu valor e talento e apesar de já ter havido também quem tivesse emprateleirado esse meu valor e talento, o caminho faz-se caminhando, como em tudo na vida.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
F.A: Acabar de escrever os dois livros que nunca mais acabo de escrever, publicá-los e abrir um negócio próprio ligado ao turismo.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
F.A: As viagens à Índia, à Argentina e Patagónia, ao México, ao Camboja e ao Vietname, que tenho vindo a adiar de há 4 anos a esta parte!

M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?
F.A: (Quase) tudo!!!ML

Brevemente...

Entrevista com... Fátima Araújo (Jornalista da RTP)

sábado, 5 de outubro de 2013

Mário Lisboa entrevista... Marcelo Zarvos

Olá. A próxima entrevista é com o pianista e compositor brasileiro Marcelo Zarvos. Casado com a atriz americana Janel Moloney, desde muito cedo que se interessou pela música, sendo um dos grandes valores musicais da sua geração, com um percurso que passa por várias áreas incluindo cinema e televisão (onde trabalhou em produções cinematográficas como as longas-metragens "A Porta no Chão" (2004), "Hollywoodland" (2006), "O Bom Pastor" (2006), "O Ar Que Respiramos" (2007), "Pânico em Hollywood" (2008), "Autocarro 174" (2008), "Atraídos pelo Crime" (2009), "Lembra-te de Mim" (2010), "O Castor" (2011), "As Palavras" (2012) e "Flores Raras" (2013) e produções televisivas como a série "O Grande C" (2010-2013) e os telefilmes "You Don't Know Jack" (2010) e "Phil Spector" (2013), e, recentemente, conduziu a banda sonora das longas-metragens "Enough Said" (que conta, por exemplo, com a participação do recém-falecido James Gandolfini) e "The Face of Love" (que conta com a participação de atores como Robin Williams, Ed Harris e Annette Bening), e, atualmente, conduz a banda sonora da série "Ray Donovan" da chancela do canal por cabo norte-americano Showtime e protagonizada por Liev Schreiber, cuja segunda temporada está prevista para estrear em 2014. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 30 de Setembro.

M.L: Quando surgiu o interesse pela Música?
M.Z: Eu comecei a tocar piano aos dez anos de idade e a minha primeira atração foi por bandas sonoras de filmes como “The Sting” (“A Golpada”, (1973) e “The Godfather” (“O Padrinho”, (1972).

M.L: Quais são as suas influências nesta área?
M.Z: As minhas influências vêm tanto de compositores para cinema como Nino Rota, Ennio Morricone, Bernard Herrmann, Georges Delerue e clássicos como Bach, Steve Reich, (Sergei) Prokofiev e Morton Feldman. E na música popular, eu diria António Carlos Jobim e Thelonious Monk.

M.L: Qual foi o trabalho que mais o marcou, tanto como pianista e como compositor?
M.Z: “The Door in the Floor” (“A Porta no Chão”, (2004). Foi a minha primeira banda sonora para orquestra e ainda uma das minhas favoritas mesmo depois de tantos anos. Ainda recebo muitos elogios por essa banda sonora, inclusive de pessoas que nem viram o filme, mas escutam muito o CD com a banda sonora. Outra coisa que me marcou muito foi o meu quarteto de cordas Nepomuk's Dances. Eu recebo emails de grupos de toda a parte que querem tocar essa peça, inclusive de muitos grupos jovens, o que me deixa muito feliz.

M.L: Foi coautor da banda sonora da longa-metragem “O Bom Pastor” (2006) de Robert DeNiro. Que recordações guarda desse trabalho?
M.Z: Foi um trabalho muito intenso, com pouco mais de um mês para compor quase duas horas de música. Eu nunca tinha trabalhado num filme tão épico e, ao mesmo tempo, com uma sensibilidade tão distinta. 

M.L: “O Bom Pastor” marcou a segunda incursão de Robert DeNiro pela realização (estreou-se na realização em 1993 com a longa-metragem “Um Bairro em Nova Iorque” (A Bronx Tale”). Como foi trabalhar com ele?
M.Z: Foi um sonho. O DeNiro é um dos grandes cineastas de todos os tempos e muitos dos meus filmes e bandas sonoras favoritas foram projetos que ele participou como “Taxi Driver” (1976), “The Mission” (“A Missão”, (1986) e “The Godfather-Part II” (“O Padrinho-Parte II”, (1974). Ele é muito sensível e tinha uma ideia bem clara de como a música deveria funcionar no filme. Ele ficou muito feliz e eu tenho muito orgulho desse filme. 

M.L: Como vê, atualmente, a indústria da Música?
M.Z: Eu acho que a música está na linha da frente da revolução tecnológica que estamos passando. Embora, obviamente, certos elementos como discos estejam praticamente acabados, a necessidade de música do Ser Humano nunca foi maior. Eu fui um pouco poupado da crise da indústria fonográfica por estar trabalhando mais com Cinema, mas acho que ainda tem muita coisa boa acontecendo e a única dificuldade é como os artistas vão sobreviver. Uma das poucas áreas ainda relativamente intactas é a Música ao vivo e acho que por ali deve surgir um novo caminho para o público e os artistas interagirem.

M.L: Vive nos EUA, mas nasceu no Brasil. Como vê, hoje em dia, o Brasil, em termos artísticos?
M.Z: O Brasil passa por um momento muito interessante, com uma classe média que cresce muito rápido e que quer ver cada vez mais os seus valores refletidos nas artes. O Cinema cresce cada vez mais e a TV está passando por uma grande explosão de conteúdo. A dificuldade vai ser como gerar material que seja, realmente, Brasileiro e não somente uma cópia dos trabalhos dos americanos. A música continua a ser a grande paixão nacional e, realmente, a riqueza da música Brasileira é algo fenomenal.

M.L: É casado com a atriz americana Janel Moloney. Como vê o percurso que a sua mulher tem feito até agora?
M.Z: Ela tem uma carreira incrível e acho que muitas pessoas consideram “The West Wing” (“Os Homens do Presidente”, (1999-2006) como um dos grandes marcos da TV mundial. Ela continua muito ativa fazendo Cinema, Teatro e Televisão.

M.L: Qual o conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na área da Música?
M.Z: Eu diria isso. Se consegue viver sem Música, faça isso. O que eu quero dizer é que a vida na Música não é fácil. Eu tenho muita sorte, pois consegui um espaço de compositor muito confortável, mas a verdade é que eu faço isso, porque amo o meu trabalho e mesmo que tivesse que fazer de graça, eu continuaria sendo Músico. E acho que essa vontade é 100% essencial para qualquer pessoa que queira embarcar numa carreira musical.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito até agora como pianista e como compositor?
M.Z: Eu ainda tenho muita coisa para fazer. Gostaria de voltar a trabalhar mais com música clássica e jazz. Tenho uma carreira bem estabelecida, mas também sei que os desafios têm sempre que continuar. Não acho uma coisa boa para qualquer artista ficar muito confortável, pois isso nos impulsiona a sempre crescer e mudar.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
M.Z: Tenho dois filmes saindo nos EUA: “Enough Said” e “The Face of Love”. Também tenho uma série de TV chamada “Ray Donovan” que está fazendo muito sucesso por aqui e devo voltar para trabalhar na segunda temporada no início de 2014.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
M.Z: Eu gostaria de escrever um musical ou uma ópera.

M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da sua vida?
M.Z: Mais tempo para passar com a minha esposa e com os meus filhos...ML

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Brevemente...

Entrevista com... Marcelo Zarvos (Pianista/Compositor)

Mário Lisboa entrevista... Patrícia Kogut

Olá. A próxima entrevista é com a jornalista brasileira Patrícia Kogut. Desde muito cedo que se interessou pelo jornalismo, tendo-se tornado numa das mais reputadas jornalistas do meio brasileiro, com um percurso que passa, essencialmente, pela imprensa. Desde 1995 que trabalha no jornal O Globo, onde assina uma coluna diária sobre televisão, desde 1998 e, atualmente, está com um projeto de um livro, da qual pretende voltar a trabalhar brevemente. Esta entrevista foi feita, por via email, no passado dia 30 de Agosto.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo jornalismo?
P.K: Desde cedo que sempre gostei de escrever. Estudei Letras na universidade, antes de estudar Jornalismo. O trabalho no jornal sempre me pareceu atraente.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto jornalista?
P.K: Admiro muitos profissionais, mas não sinto isso como influências. Tento ser correta e justa nos julgamentos que faço na coluna.

M.L: Trabalha, essencialmente, na imprensa. Gostava de, um dia, trabalhar em outros meios de comunicação como, por exemplo, a televisão?
P.K: Mário, lá atrás, no início, eu tentei a televisão. Mas sou tímida e não senti-me muito à vontade. Admiro quem faz, mas não é para mim. Também gosto de rádio, que nunca fiz, mas admiro o veículo. Encontrei-me escrevendo, gosto de jornal.

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou, durante o seu percurso como jornalista?
P.K: Não saberia citar um. Gosto muito de escrever sobre televisão, mas uma das vantagens de trabalhar num jornal grande é que, se estiver cansado do seu tema, pode escrever para outras editoriais. Embora escreva uma coluna diária, o que toma tempo e prende a pessoa na redação, gosto, de vez em quando, de ir para a rua fazer uma matéria.

M.L: Como vê, atualmente, a Comunicação Social no Brasil?
P.K: Como mercado, está muito difícil. Há uma crise aqui, como em outros países, no jornalismo impresso. Há publicações sendo fechadas. Não é fácil.

M.L: Gostava de fazer uma carreira, em termos internacionais?
P.K: Mário, nunca pensei nisso, mas seria bom!

M.L: Desde 1995 que trabalha no jornal O Globo, onde assina uma coluna diária sobre televisão. Que balanço faz do tempo em que trabalha no jornal?
P.K: Aprendi muito aqui, quase tudo o que sei da profissão. Cheguei com pouca experiência, vinda de uma revista feminina. Descobri que era capaz de produzir muito, num ritmo diário, muitas vezes pesado. Tive muitas alegrias e continuo tendo. Não é uma vida fácil, mas vale.

M.L: Assina a sua coluna, desde 1998. Como tem sido a reação do público à sua coluna ao longo dos anos?
P.K: Depende de quem lê. Quem recebe críticas, muitas vezes, se aborrece. Procuro ser a voz do leitor e sinto, pelos emails que recebo, que isso, em geral, acontece. A coluna agrada e desagrada ao mesmo tempo, mas acho que o papel dela é esse mesmo.

M.L: Como é que é a sua rotina, quando escreve a sua coluna?
P.K: É uma rotina intensa, porque preciso de assistir a muitos programas de TV e escrever e ainda mantenho um site (www.patriciakogut.com). Mas tenho uma ótima equipa (quatro repórteres) que ajuda-me imensamente.

M.L: Qual o conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira no jornalismo?
P.K: Não tenha medo do trabalho e divirta-se.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito até agora como jornalista?
P.K: Acho que é um balanço positivo. Gosto muito da profissão, faço com alegria.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
P.K: De momento, tenho um projeto de um livro que está parado. Mas vai andar em breve.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda?
P.K: Muita coisa. Muitas entrevistas, o livro que não acabei e o que mais vier.ML