segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mário Lisboa entrevista... Marta Rangel

Desde muito cedo que se interessou pelo jornalismo, tornando-se numa das jornalistas mais versáteis da sua geração, com um percurso que passa, essencialmente, pela televisão. Apaixonada pelo que faz, é muito exigente com o seu trabalho e muito perfeccionista, e, actualmente, trabalha no canal Económico TV que pertence ao jornal Diário Económico. Esta entrevista foi feita no passado dia 26 de Agosto.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo jornalismo?
M.R: Sempre que me fazem esta pergunta, costumo contar uma pequena história. Num certo Natal, quando era criança - com 5 ou 6 anos - pedi uma prenda "especial": um rádio. Embora, ainda hoje, goste muito de ouvir música, não era esse o principal objectivo, na altura. Mas, sim, o facto de o rádio ter também um microfone! Assim que desembrulhei a prenda, comecei logo a fazer pequenas "entrevistas" à família e aos amigos. E, até hoje, recordo este episódio como o primeiro sinal daquela que viria a ser a minha profissão: jornalista.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto jornalista?
M.R: São muitas e é difícil enumerar todas. Lembro-me de assistir ao "nascimento" da SIC e de ter a Alberta Marques Fernandes como uma das grandes referências. Gosto muito da postura e do profissionalismo de pivots como a Clara de Sousa e Rodrigo Guedes de Carvalho, da SIC, do João Adelino Faria e Carla Trafaria, da RTP, e do José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, da TVI. Também acompanho com atenção o trabalho de inúmeros jornalistas de todos os canais. A um nível mais pessoal, valorizo todas as experiências em cada uma das redacções por que passei. Na rádio, comecei na Rádio Horizonte Tejo - actualmente, Rádio Horizonte FM - onde aprendi como se escreve uma notícia, grava um "RM" (Registo Magnético) ou edita um noticiário. De seguida, senti necessidade de evoluir profissionalmente e fui estagiar para a TSF onde aprendi como funciona uma agenda de redacção e tive as primeiras experiências jornalísticas a nível nacional. Depois, percebi que a minha paixão era, realmente, fazer televisão. Estagiei na TVI, sobretudo, no departamento multimédia e, em seguida, na SIC, onde tive a oportunidade, mais tarde, de ficar a contrato. Considero que a SIC foi a minha grande "escola", onde comecei a fazer jornalismo a sério, onde fui - como se costuma dizer na gíria da profissão - "atirada aos bichos". Tive a sorte de ter um coordenador, em particular, que apostou em mim, o Daniel Cruzeiro, e me deu a oportunidade de fazer "estórias" para a equipa de fim-de-semana, que me marcaram e recordo até hoje. A partir daqui, nunca mais parei. Colaborei com o Expresso online e, alguns meses depois, comecei a trabalhar para uma produtora chamada Companhia de Ideias, onde, durante 2 anos, produzi e coordenei conteúdos para vários programas da RTP, como o "Diário da Europa", "Mais Europa", "Sociedade Civil" e "Grandes Livros". De seguida, surgiu o convite para a Benfica TV: comecei como repórter, tive a grande estreia como pivot e, alguns meses depois, tornei-me coordenadora de redacção. Recordo, com carinho, um dos maiores desafios que tive naquela casa: coordenar a emissão especial da final da Taça da Liga, no Algarve, onde o Benfica ganhou ao Sporting, já nos penaltis! Desde 2009, trabalho no Económico TV onde tenho evoluído como jornalista, sobretudo, nos conteúdos económicos e financeiros, e como pivot, não só de informação diária, como de debates, fóruns ou grandes entrevistas, como faço no programa "Conversas com Vida". O Económico tem também, há quase 2 anos, uma parceria com a RTP através da qual os jornalistas fazem análise de mercados financeiros para o "Bom Dia Portugal" (RTP1) e "Jornal das 12" da RTP Informação. Este tem sido um grande desafio, que abraço com muito gosto.

M.L: Como jornalista, trabalha, essencialmente, na televisão. Gostava de trabalhar mais em outros meios de comunicação como, por exemplo, a rádio?
M.R: Como referi, anteriormente, já trabalhei em rádio, mas continuo a sentir-me mais "em casa" na televisão. Gosto da necessidade de rapidez, do imediatismo, dos directos, do trabalho em equipa, de poder contar com todas as pessoas - tão importantes - que estão nos "bastidores" como a produção, a realização, os repórteres de imagem, editores, continuidade, maquilhadoras, entre tantos outros! É difícil apontar o que não gosto! É verdade que, muitas vezes, é duro ter de chegar à redacção às 5h ou 6h da manhã, preparar entrevistas e programas em casa, carregar tripés às costas (para ajudar os repórteres de imagem a "dividir o mal pelas aldeias"), lidar com um nível de stress elevado... Mas, como diz o ditado, "quem corre por gosto, não cansa". Ou - diria eu - cansa-se menos!

M.L: Na televisão, trabalha, actualmente, no canal Económico TV, que pertence ao jornal Diário Económico. Que balanço faz do tempo em que trabalha no canal?
M.R: Faço um balanço muito positivo. Quando cheguei, há 5 anos, tinha uma escassa experiência em assuntos económicos. Hoje em dia, estou perfeitamente à vontade com temas como o Orçamento de Estado, a execução orçamental, a crise na Banca, o mercado accionista, os juros da dívida, o programa de ajuda externa, etc. Claro que, boa parte desta aprendizagem, devo a todos os meus colegas, coordenadores e directores com quem tenho aprendido e troco ideias todos os dias. Mas, para além disso, ser jornalista é ter de estudar um pouco todos os dias: ler muitos jornais, pesquisar informação adicional, tirar dúvidas com economistas e analistas de mercado... É um esforço diário para tentar ser cada vez melhor. E é também isso que me dá um imenso prazer!

Para além dos conteúdos, também tenho experimentado outros formatos como pivot. Na Benfica TV, já tinha apresentado telejornais e fóruns de opinião, mas, no ETV, tenho a oportunidade de moderar debates e fazer grandes entrevistas. Destaco, por exemplo, o facto de ter entrevistado Pedro Passos Coelho, quando era candidato à liderança do PSD ou António Pires de Lima, antes de ser nomeado ministro da Economia. No programa "Conversas com Vida" também tenho tido oportunidade de conhecer e conversar com figuras de renome, de todos os quadrantes da sociedade portuguesa, desde a Simone de Oliveira, ao Comendador Rui Nabeiro, passando pelo psiquiatra Júlio Machado Vaz ou pelo ex-ministro Bagão Félix, entre muitos outros.

Para além disso, voltei a escrever para um jornal - o Diário Económico - com alguma frequência, o que é muito positivo, para mim, enquanto jornalista, já que tenho a oportunidade de exercitar outro tipo de escrita diferente da linguagem da televisão.

M.L: O Económico TV existe, desde 2010. Como vê o percurso que o canal tem feito, desde a sua fundação até agora?
M.R: O ETV tem evoluído, enquanto canal de referência no segmento de economia e mercados financeiros, e tem também conquistado outro tipo de público, menos habituado a estes temas. Isso nota-se, sobretudo, no programa "Assembleia Geral", um fórum onde os telespectadores participam ao telefone, via e-mail ou Facebook. De alguma forma, penso que o ETV encontrou uma oportunidade na crise porque, com o programa de ajuda externa, alguns conceitos aparentemente difíceis, que passavam despercebidos à maioria dos portugueses - como os juros da dívida, as novas soluções na Banca ou o Ecofin, em Bruxelas - passaram a fazer parte do dia-a-dia de todos nós.

Como qualquer canal "jovem", acredito que o ETV ainda tem uma grande margem para crescer e alcançar a notoriedade do "irmão" Diário Económico, um jornal de referência com 25 anos de existência.

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou, até agora, durante o seu percurso como jornalista?
M.R: Foram vários e espero ter muitos mais! Lembro-me, por exemplo, de uma reportagem que fiz na SIC sobre dois irmãos deficientes profundos, que viviam sozinhos, depois da mãe ter falecido, entregues à própria sorte. A Segurança Social tinha sinalizado a situação, mas estava longe de resolvê-la. Assim que a SIC emitiu a reportagem, o caso foi logo solucionado: os irmãos foram encaminhados para uma instituição, onde ficaram a viver de forma digna e, em segurança. É, nestas alturas, que sinto que o jornalismo tem poder para mudar o Mundo. Nem que seja o Mundo de alguém!

Quando fiz os programas "Diário da Europa" e "Mais Europa" para a RTP, através da Companhia de Ideias, acompanhei, em reportagem, toda a presidência portuguesa da União Europeia. Lembro-me, por exemplo, de ter ido a uma cimeira com a Rússia, onde estava Vladimir Putin e a outra com os Estados Unidos, onde participaram Tony Blair, como enviado especial da UE, e Condoleezza Rice, então secretária de estado de George W. Bush. Ambas com elevados níveis de segurança, com helicópteros a sobrevoar a zona e snipers nos telhados. Na cimeira com os EUA, houve um episódio caricato. Eu estava junto às barreiras de protecção, a tentar "abrir caminho" pelo meio dos outros jornalistas, quando vejo uma pessoa, aparentemente perdida, sem ter por onde passar. Era Tony Blair! Ainda consegui trocar duas ou três palavras com ele e indicar-lhe o caminho correcto. Mas, sobretudo, fiquei em êxtase por estar ali, cara a cara, com o antigo primeiro-ministro britânico. Parecia que tinha visto o Brad Pitt!

No ETV, tive oportunidade de ir à Estónia, quando aderiu à zona euro e foi muito interessante conhecer uma realidade e uma cultura ainda muito influenciada pela Rússia. Muitas entrevistas que tenho feito no ETV também me têm marcado pela positiva. Às vezes, até, de forma mais emotiva, quando ouço histórias de vida tão ricas e preenchidas. Outras, pelo desafio de ter de entrevistar alguém mais "difícil", de ter de "arrancar" uma declaração, uma notícia.

Mais recentemente, voltei a sentir aquele "friozinho" no estômago - típico do "nervoso miudinho" - quando fiz o primeiro directo para a RTP no âmbito da parceria com o Económico. Mas são nervos bons, daqueles que valem a pena sentir!

M.L: Como vê, actualmente, a Comunicação Social em Portugal?
M.R: A comunicação social, tal como o país, está em crise. E, inevitavelmente, preocupa-me. Claro que, em quase todas as estruturas, é possível eliminar desperdícios, fazer "mais com menos". Mas tem de haver limites. Acredito que é preciso dar oportunidade aos mais jovens - como eu tive, quando comecei há 14 anos - mas a experiência dos mais velhos não pode ser descartada. Na minha opinião, é preciso haver meritocracia em muitas empresas, em Portugal, e não falo só da comunicação social. É necessário valorizar o bom trabalho - a qualidade, não a quantidade - e os melhores profissionais. Acredito também que uma liderança, que dá o exemplo, é determinante em qualquer empresa. Costumo utilizar, com frequência, uma frase que a minha mãe costuma dizer: "para saber mandar, é preciso saber trabalhar".

M.L: Em Agosto de 2008, frequentou o curso “Guionismo-A Estrutura em 3 actos, o diálogo e as personagens” que foi promovido pela Nextart. Gostava de, um dia, apostar numa carreira na área da escrita?
M.R: Sempre gostei muito de escrever, desde criança. Quem sabe, um dia, escrevo um livro! Depois, só fica a faltar plantar a árvore e ter um filho!

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na área do jornalismo?
M.R: Muito trabalho, muita dedicação, persistência e espírito de sacrifício. Muito "amor à camisola", vontade de aprender e humildade. E, antes disso tudo, ter a certeza - absoluta - de que quer mesmo ser jornalista. Não vale a pena entrar na profissão porque quer "ser famoso" ou aparecer na televisão. Isso não é jornalismo. 

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito, até agora, como jornalista?
M.R: Felizmente, tenho tido a sorte de conseguir manter-me na área desde que comecei. Gosto de acreditar que tenho, também, algum mérito. Sou muito exigente com o meu trabalho - e com o dos outros - e muito perfeccionista. Acho sempre que posso fazer melhor e não gosto de me sentir estagnada, por isso, preciso de ter, com frequência, novos desafios. Comecei como repórter, tornei-me também pivot há cerca de 7 anos e tive a oportunidade de coordenar equipas em duas redacções: Companhia de Ideias e Benfica TV. Na minha opinião, o maior desafio de ter um cargo de chefia não é distribuir trabalho, mas sim, gerir pessoas, com diferentes experiências e sensibilidades. Perceber as capacidades de cada um dos membros da equipa, saber potenciá-las e dar-lhes margem de evolução e, ao mesmo tempo, identificar as dificuldades e ajudar a ultrapassá-las. Depois, é necessário ter também "inteligência emocional": perceber quando o colega está num dia bom ou mau, saber fazer críticas construtivas e, sobretudo, saber elogiar.

Comecei a trabalhar muito jovem e já sou jornalista há 14 anos, 10 dos quais em televisão. Não foi sempre um "mar de rosas". Claro que há dias difíceis, em que até nos passa pela cabeça "mudar de vida". Mas nunca quis - nem quero - desistir da profissão. Acredito que ainda tenho muita margem para crescer e evoluir e espero que surjam mais oportunidades.

M.L: Quais são os seus próximos projectos?
M.R: Em paralelo com o meu trabalho de jornalista no Económico, também dou media trainings, com alguma frequência. Para quem não sabe o que é, trata-se de ensinar e "treinar" pessoas a lidar com jornalistas, por exemplo, a saberem o que responder e como estar durante uma entrevista. A exposição mediática continua a ser mais associada à classe política ou a responsáveis de empresas, mas, hoje em dia, é extensível a quase todas as áreas. Não há uma segunda oportunidade para criar uma primeira boa impressão. 

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
M.R: A nível profissional, quero continuar a trabalhar em televisão e gostaria que a minha carreira pudesse evoluir para outros patamares. Confesso que, por vezes, sinto falta de alguma meritocracia, mas acredito que, um dia, vai chegar. Até lá, vou continuar, todos os dias, a dar o meu melhor.ML

A pedido da entrevistada, esta entrevista não foi convertida sob o novo Acordo Ortográfico.

Fotografia: David Carvalho

domingo, 7 de setembro de 2014

Brevemente...

Entrevista com... Marta Rangel (Jornalista)

Fotografia: David Carvalho

Mário Lisboa entrevista... Luís Aleluia

Interessou-se seriamente pela representação, quando foi convidado pelo falecido ator Carlos César para entrar na companhia TAS-Teatro Animação de Setúbal, e desde aí tornou-se num dos atores mais acarinhados pelo público português, com um percurso que passa, essencialmente, pelo teatro e pela televisão (onde entrou em produções como "Sétimo Direito" (RTP), "Os Homens da Segurança" (RTP), "Euronico" (RTP), "Na Paz dos Anjos" (RTP), "Isto É o Agildo" (RTP), "As Lições do Tonecas" (RTP) e "Filha do Mar" (TVI). É cofundador da produtora Cartaz-Produção de Espetáculos que desde 1991 tem desenvolvido um trabalho no que diz respeito à descentralização teatral, e, atualmente, participa na série "Bem-vindos a Beirais" que está em exibição na RTP. Esta entrevista foi feita no passado dia 26 de Agosto.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
L.A: À parte umas incursões pelo teatro amador, o Teatro apareceu a sério na minha vida por um convite do ator Carlos César, Diretor da Companhia do TAS-Teatro Animação de Setúbal. Entrei na companhia avisando que seria apenas uma experiência e uma forma de subsidiar a continuação dos estudos e aliviar um pouco o orçamento familiar mas… fui ficando! Fiz o estágio de dois anos e ganhei a condição de profissional.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto ator?
L.A: Várias. Lembro-me de ouvir na rádio as rábulas do Raul Solnado e divertir-me bastante, do humor dos “Parodiantes de Lisboa” que era um ritual ouvirmos à hora de almoço, dos filmes do (Charlie) Chaplin, dos Irmãos Marx, do Mel Brooks, entre outros! E tive o privilégio de trabalhar com alguns colegas com quem aprendi bastante: a Ivone Silva e o Camilo de Oliveira, foram importantes dentro de um género como a Maria Dulce, o Nicolau Breyner, o Ruy de Carvalho, o Armando Cortez, o Morais e Castro foram importantes dentro de outros géneros.

M.L: Faz, essencialmente, teatro e televisão. Gostava de ter trabalhado mais em cinema?
L.A: Sim, gostava. O Cinema tem uma linguagem própria que gostava de praticar mais vezes. Fiz apenas um filme com o Jorge Paixão da Costa, “Ladrão Que Rouba a Anão Tem Cem Anos de Prisão” (1992), com Vítor Norte, Nicolau Breyner, Cristina Areia, Luís Esparteiro, entre outros e foi uma experiência muito enriquecedora.

M.L: Qual foi o trabalho que mais o marcou, até agora, durante o seu percurso como ator?
L.A: É difícil escolher apenas um trabalho já de todos, de uma forma ou de outra nos marcam por uma razão qualquer. Mas… talvez o meu trabalho na peça “Piaf” de Pam Gems, uma produção do Casino Estoril, com um elenco de extraordinários atores, encabeçado pela atriz brasileira Bibi Ferreira. Nesse Trabalho, que girava à volta da vida dramática e do percurso artístico da cantora francesa, eu desempenhava o papel de “Charles Aznavour”! Talvez possa destacar esse papel, por sair do meu registo mais conhecido e pela intensidade da composição que foi necessária.

M.L: Em 1994, participou na telenovela “Na Paz dos Anjos” que foi exibida na RTP, na qual interpretou a personagem Fernandinho. Que recordações guarda desse trabalho?
L.A: As melhores, posso dizer! Foi a primeira telenovela em que participei e, por sorte, trabalhei com um elenco de grandes atores que muito me ajudaram no meu trabalho. Foi um privilégio trabalhar com o Armando Cortez, a Fernanda Borsatti, a Maria José, o João Perry, a Sandra Faleiro, a Rita Ribeiro, entre muitos outros colegas de elevado prestígio.

M.L: “Na Paz dos Anjos” foi corealizada pelo falecido realizador brasileiro Regis Cardoso. Como foi trabalhar com ele?
L.A: Há pessoas que passam pela nossa vida e deixam um rasto de luz! O Regis Cardoso era uma dessas pessoas. Paciente e generoso, com um fino sentido de humor. Um inquestionável excelente profissional com as mais altas qualidades humanas.

M.L: Como vê, atualmente, o teatro e a ficção nacional?
L.A: Nos últimos tempos tem praticamente sobrevivido por conta própria! E tenho a convicção de que nada mudará enquanto os agentes políticos não entenderem a Cultura como um dos pilares fundamentais para a afirmação e consolidação da nossa identidade coletiva nesta Era que é a da globalização. Que nos interessa ter o Fado como Património Imaterial da Humanidade, se a minha Pátria não for a Língua Portuguesa, como afirmou (Fernando) Pessoa?

M.L: Gostava de ter feito uma carreira internacional?
L.A: Não é, nem foi e nunca foi uma ambição particular fazer uma carreira internacional. Mas, já que fala disso, gostaria que os artistas e as produções nacionais tivessem os mesmos direitos e as mesmas garantias de proteção que têm os colegas estrangeiros. Desde logo, uma carteira profissional que dignificasse a nossa profissão.

M.L: Como lida com o público que acompanha sua carreira há vários anos?
L.A: O público português é muito generoso, afável e de uma grande envolvência! Tenho o privilégio de termos criado empatia e isso ajuda não só na carreira como também na motivação profissional.

M.L: Em 1991, cofundou a produtora Cartaz-Produção de Espetáculos, que tem desenvolvido um trabalho no que diz respeito à descentralização teatral. Como vê o percurso que a produtora tem feito, desde a sua fundação até agora?
L.A: Ao longo dos 20 anos de trabalho quase ininterruptos posso afirmar que temos um percurso que nos orgulha. Esse trabalho de descentralização teatral só tem sido possível graças aos profissionais que, de forma permanente ou pontual, colaboram connosco e aos agentes culturais, empresas, e Instituições que apostam no nosso trabalho.

M.L: Recentemente, participou na série “Agora a Sério”, que foi produzida pela RTP Porto. Na sua opinião, acha que a RTP Porto devia produzir mais produções de ficção no futuro?
L.A: O que lhe posso adiantar é que houve um grande investimento na formação profissional na área da produção audiovisual que deveria ser mais aproveitada. A Série “Agora a Sério”, produzida pela RTP Porto, deu provas, tanto da excelência da formação, como das competências técnicas dos jovens que passaram pela Academia RTP.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na representação?
L.A: Que invista numa boa formação técnica. A Indústria Cultural é muito competitiva e cada vez mais exigente e hoje, felizmente, há uma oferta grande de escolas e uma diversidade de modelos formativos.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito, até agora, como ator?
L.A: Muito positivo. Tirando alguns períodos pontuais em que estive parado, tenho tido, felizmente, sempre um trabalho e muito dele realizado em projetos diversos e com registos diferentes, o que me tem assegurado não só a subsistência pessoal como a aprendizagem e a evolução profissional.

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
L.A: No teatro prosseguir com a atividade da empresa na produção e promoção de teatro e na televisão, continuar a fazer parte da família “Bem-vindos a Beirais” (RTP). Vamos agora iniciar mais uma temporada de gravações.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
L.A: Viajar com tempo e sem um destino pré-definido.ML

sábado, 6 de setembro de 2014

Brevemente...

Entrevista com... Luís Aleluia (Ator)

Mário Lisboa entrevista... Margarida Gil

O interesse pelo cinema surgiu naturalmente, tornando-se num dos nomes mais respeitados do
Cinema em Portugal, com um percurso como realizadora que também passa pela televisão (tendo trabalhado na RTP). Presidente da Associação Portuguesa de Realizadores, foi casada com o falecido realizador João César Monteiro, e em 2012 realizou a longa-metragem "Paixão" que foi protagonizada por Ana Brandão e Carloto Cotta e em 2013 recebeu 2 nomeações para os Prémios Sophia nas categorias de Melhor Argumento Original (Margarida Gil e Maria Velho da Costa) e Melhor Fotografia (Acácio de Almeida). Esta entrevista foi feita no dia 7 de Dezembro de 2012 na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira.

M.L: Quando surgiu o interesse pelo cinema?
M.G: Foi surgindo. Por um lado, foi com o conhecimento do João César Monteiro, e por outro lado fui trabalhar para a televisão muito cedo, e comecei a trabalhar em cinema ao mesmo tempo que trabalhava na RTP. Aconteceu naturalmente.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto realizadora?
M.G: Eu acho que desejo ter uma voz autónoma, pessoal e diferente dos outros, porque senão não vale a pena.

M.L: Qual foi o trabalho que mais a marcou, até agora, durante o seu percurso como realizadora?
M.G: Talvez o meu primeiro filme “Relação Fiel e Verdadeira” (1987).

M.L: Como realizadora, também trabalhou na televisão. Que recordações guarda do tempo em que trabalhou nessa área?
M.G: Guardo algumas recordações muito boas. Eu gostei imenso de trabalhar em televisão, guardo situações muito boas.

M.L: Como vê, atualmente, o Cinema, em termos gerais?
M.G: Existe uma colonização na exibição e distribuição, em Portugal, como no resto da Europa, do Cinema Americano. Existe uma tendência para o imitar, mas em 1º lugar, muito desse cinema tenta também ele escapar, e há filmes muito bons. (Francis Ford) Coppola, por exemplo: e no resto do Mundo há gente que resiste, por exemplo em Portugal...

M.L: Gostava de ter feito uma carreira internacional?
M.G: Nunca pensei nisso.

M.L: Foi casada com o realizador João César Monteiro que faleceu em 2003. Como vê o percurso que ele desenvolveu até falecer?
M.G: Um percurso de grande resistência, alguém que muito teimosamente confrontou com todos os poderes. Uma grande sensibilidade artística e uma grande admiração por ele como realizador.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na realização?
M.G: É preciso ter coragem. Vale a pena pensar muitas vezes. Tem que se ter alguma coisa a dizer.

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito, até agora, como realizadora?
M.G: Podia ser melhor.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
M.G: Gostava de fazer uma ópera.ML

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Brevemente...

Entrevista com... Margarida Gil (Realizadora)

Mário Lisboa entrevista... Victor Gonçalves

Interessou-se pela representação na cidade de Sines, de onde saiu aos 17 anos para estudar em Lisboa, e tem desenvolvido um percurso como ator que passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão (onde entrou em produções como "Casos da Vida" (TVI), "Equador" (TVI), "Deixa Que Te Leve" (TVI), "Regresso a Sizalinda" (RTP) e "Mundo ao Contrário" (TVI), e, recentemente, participou na longa-metragem "Os Gatos Não Têm Vertigens" de António-Pedro Vasconcelos, na qual vai estrear no próximo dia 25 de Setembro. Esta entrevista foi feita no passado dia 22 de Agosto.

M.L: Quando surgiu o interesse pela representação?
V.G: Eu comecei a interessar-me por teatro ainda em Sines, de onde saí aos 17 anos para vir estudar para Lisboa. Começou tudo por brincadeira. Éramos um bando de miúdos a curtir e começamos a brincar de volta de "A Boda dos Pequenos Burgueses" com o Vladimiro Franklin, mas a praia acabou por puxar-nos com mais força e ficou por ali... Em Lisboa conheci o Ivo Ferreira na António Arroio, para onde fui estudar, e cujo pai, Cândido Ferreira, estava a criar uma oficina de teatro livre na Junta de São João. Pouco tempo depois estávamos nós na Ofecena a brincar ao teatro. Por lá estive durante pelo menos 8 anos durante os quais fizemos vários espetáculos com o Cândido e algum trabalho social, além de por lá terem passado outros atores a partilhar experiências connosco como o José Carretas, a Dina Lopes ou o Ryszard Kot-Kotecki que mais tarde foi meu professor no Conservatório.

M.L: Quais são as suas influências, enquanto ator?
V.G: Todas as pessoas com quem trabalhei desde que comecei até agora, atores e não atores, encenadores, professores, realizadores, coreógrafos, técnicos, todos aqueles com quem partilhei experiências e tive o prazer de acompanhar no meu percurso, mas também espetáculos, filmes, livros, artistas, filósofos ou outros cuja obra me toca, ideias e visões do Mundo, imagens, acontecimentos, tudo o que me faça refletir sobre mim, o Mundo e o meu lugar no nele...

M.L: Faz teatro, cinema e televisão. Qual destes géneros que mais gosta de fazer?
V.G: São trabalhos inteiramente diferentes. Gosto da maior autonomia criativa e da presença do público que o teatro e as performáticas em geral permitem, tudo depende de nós e tudo pode acontecer aqui e agora nesse encontro. E gosto de me descobrir mais tarde na montagem, na tela ou mesmo no ecrã. Mas prefiro processos que permitam tempo para procura, escuta e descoberta. A eficácia está muito sobrevalorizada e acaba quase sempre (para não dizer sempre) por matar a possibilidade para algo mais do que o cumprir de uma função.

M.L: Qual foi o trabalho que mais o marcou, até agora, durante o seu percurso como ator?
V.G: Foi ter tido o privilégio de trabalhar durante cerca de 7 anos com a Lúcia Sigalho na Companhia de Teatro Senssurround. Foram anos de trabalho, pesquisa e questionamento importantíssimos para mim, a trabalhar com pessoas extraordinárias, de uma dedicação e compromisso sem par. Com a Lúcia conheci a sensação de ter alguém que nos atira para o vazio e nos faz voar (é piroso mas é mesmo assim), em quem se confia porque se sabe que por ali correm as mesmas águas subterrâneas... É raro encontrar-se num lugar assim.

M.L: Entre 2009 e 2010, participou na telenovela “Deixa Que Te Leve” que foi exibida na TVI, na qual interpretou a personagem Carlos Paulo Antunes. Que recordações guarda desse trabalho?
V.G: Guardo a recordação de uma equipa com pessoas lindas e dedicadas ao ponto de conseguirem verdadeiros pequenos milagres no meio das maiores adversidades. 

M.L: Como vê, atualmente, o teatro e a ficção nacional?
V.G: Vejo o Teatro, assim como as Performativas em geral em muitas dificuldades mas ainda assim com muita vitalidade, embora nem sempre chegue a muito público porque também isso se paga. O cinema e a televisão carecem ainda de mais apoios e vontades para permitir a sua produção. Ainda assim temos um tecido criativo muito vivo e faz-se muito com o tão pouco que se tem em Portugal, o que não é justo é que o trabalhar por quase nada ou só por amor à camisola seja tantas vezes a única opção. Mas enquadra-se facilmente no que aqui se passa nas artes, naquilo que se passa na Cultura em geral, tal como se passa na Educação, ou na Saúde em Portugal, são setores estratégicos de identificação, desenvolvimento e crescimento nacional, mas hoje em dia os valores que importam parecem ser outros...

M.L: No que diz respeito ao audiovisual (Cinema e Televisão), interpreta frequentemente personagens mais complexas e perturbadas (como, por exemplo, no telefilme “Pretérito Imperfeito” da série “Casos da Vida” (TVI), ou na mais recente longa-metragem realizada por António-Pedro Vasconcelos, “Os Gatos Não Têm Vertigens”). Gostava de ter mais oportunidades de interpretar personagens mais variadas tanto no cinema e na televisão?
V.G: Todos nós somos complexos quase por definição, já quanto às perturbações todas são diferentes e se enquadram sempre em contextos muito diversos em cada personagem, não encontro aqui na verdade falta de variedade, apenas a oportunidade de explorar diversos aspetos de facetas menos brilhantes da Humanidade, e por enquanto parece-me que tenho caminhado pela luz tanto quanto pela sombra, pelo amor como pelo ódio e outras mesmo pela serenidade (olha que bonito e de novo piroso... mas ainda assim verdade). Mas ter a oportunidade de interpretar mais personagens diferentes? Sim, claro, sempre. Quanto maior o desafio, melhor.

M.L: Entre 2008 e 2009, participou na série “Equador” que foi exibida na TVI e baseada no livro, com o mesmo título, da autoria de Miguel Sousa Tavares. Como foi a experiência de ter participado numa produção televisiva de maior dimensão (como foi o caso desta série)?
V.G: Foi muito bom, e aprendi muito. Muito com a experiência em si, e com as pessoas daquela equipa que era enorme. O tempo que passamos em Cachoeira foi maravilhoso em todos os aspetos, para mim foi uma espécie de residência artística num trabalho de televisão, o que é muito produtivo. A vila era o cenário e nós vivíamos no cenário, e grande parte do tempo vestidos e caracterizados, e muitas vezes a cavalo. E andar a cavalo é maravilhoso.

M.L: Qual conselho que daria a alguém que queira ingressar numa carreira na representação?
V.G: Experimenta primeiro. Brinca, descobre coisas nesse caminho, descobre o que queres fazer fazendo, e espaço a quem te possa mostrar caminhos. E se for por aí, faz, junta-te a amigos e faz tu próprio as tuas coisas. Se for por aí, estuda, procura, mais... mas só se não estiveres à espera de um dia ter tudo estudado. Não vai parar. E se parar normalmente é mau sinal...

M.L: Que balanço faz do percurso que tem feito, até agora, como ator?
V.G: Não sei ao certo... Isto é, tenho estado ultimamente a recuperar e organizar arquivo do que tenho feito ao longo dos anos e como já faço teatro há mais de 20 estou eu próprio surpreso com a quantidade de coisas que fiz e de que quase não tinha já memória. O que eu não sei é como de facto fazer um balanço sobre isto, não tenho distância, não me consigo imaginar sem este percurso apesar de me conseguir projetar a fazer outras coisas. Mas é o que me faz sentido. E ao mesmo tempo tudo isto é pouco ou quase nada... Talvez precise de mais 20 anos para responder a esta...

M.L: Quais são os seus próximos projetos?
V.G: Tenho estado a desenvolver uma parceria criativa com o artista Victor Jorge e estamos a conspirar próximos projetos.

M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha feito ainda nesta altura da sua vida?
V.G: Sendo assim fico-me por "escrever um livro" e damos a entrevista por terminada que já vai longa. Tanta coisa, desde trabalho a viagens, eu sei lá... Ainda há tanto por fazer, e tanto que eu quero fazer. Tanta coisa!ML