M.L: Como é que surgiu o interesse pela escrita?
I.B: Em consequência directa, mas não obrigatória de uma gigantesca paixão pela leitura. De algum modo quis prolongar e criar a experiência da leitura. Comecei a inventar pequenas histórias aos seis ou sete anos e até aos doze escrevinhei muito, convencida que seria escritora. Quando reli esses textos percebi que não tinha qualquer tipo de voz autoral. Não só não encontrava uma história que gostasse realmente de contar como tudo o que escrevia se revelava demasiado inócuo e desinteressante. Por isso, preferi desenvolver a faceta de leitora e abandonar a de escritora. Só regressei intencionalmente à escrita aos quinze anos, quando me surgiu a ideia para o que viria a ser a trilogia. Começou como desafio, tornou-se vício, necessidade e converteu-se aos poucos em profissão.
M.L: Quais são as suas grandes influências, enquanto
escritora?
I.B: Devo imenso ao
modernismo, mas também ao maravilhoso e a um certo imaginário muito associado à
infância que parece ter tendência para se agarrar ao hospedeiro e o acompanhar
sempre, ainda que frequentemente apenas no subconsciente. O cinema é-me
igualmente importante: de Ingmar Bergman a David Lynch passando por uma lista
demasiado vasta e caótica para a conseguir enumerar rapidamente. Em termos literários
e em épocas diferentes: Marion Zimmer Bradley, Michael Cunningham, Vergílio
Ferreira, Natália Correia, Maria Teresa Horta, Ana Teresa Pereira, Aldous
Huxley, William Faulkner, John dos Passos, Vladimir Nabokov, Amos Oz, Margaret Atwood, Neil Gaiman e Angela Carter foram
todos cruciais.
M.L: Qual foi o livro que lhe deu mais prazer em
escrever?
I.B: O último, sempre o
último. A escrita é em parte um exercício que idealmente melhora com a prática.
Só quando conhecemos bem as regras as podemos subverter e aí tudo se torna mais
interessante, mais estimulante, mais desafiante e enriquecedor.
M.L: Qual foi o momento que mais a marcou, durante o
seu percurso como escritora?
I.B: Todos até porque o
percurso ainda é curto. De qualquer modo, terminar “A Filha dos Mundos” e vê-lo publicado revelaram-se momentos
essenciais. E adorei a oportunidade de apresentar “O passado que seremos” nas Correntes D'Escritas.
M.L: Como vê atualmente a Cultura em Portugal?
I.B: A passar por uma fase
difícil e precária como todo o país. Por um lado tem-se dinamizado cada vez
mais: cria-se hoje em Portugal de forma muito interessante e variada. No
entanto, faltam apoios, incentivos, suportes básicos. Precisamos de uma
verdadeira consciência e política culturais: urge ultrapassar essa mediania de
considerar a Cultura como algo secundário ou mesmo terciário.
M.L: Gostava de fazer uma carreira internacional?
I.B: Claro. Quem não
gostaria? Só não sei se acontecerá ou quando a conseguirei.
M.L: Dedicou a sua vida profissional no Porto. Gostava
de trabalhar em Lisboa?
I.B: Uma das vantagens
desta profissão é a ausência de um local fixo de trabalho. Tão depressa estou
no Porto como em Guimarães, Leiria, Braga, Faro, Coimbra ou Lisboa, seja em
Bibliotecas, Escolas, Centros Culturais, Feiras do Livro. Essa mobilidade
agrada-me. O Porto e Vila Nova de Gaia têm sido a minha casa (quase sempre),
mas se as circunstâncias ou as hipóteses me conduzirem a viver noutras cidades
(mesmo noutros países) irei com entusiasmo.
M.L: Qual foi a pessoa que a marcou, durante o seu
percurso como escritora?
I.B: Tantas. Sem a família
e os amigos faltar-me-ia o suporte para qualquer tipo de percurso. E enquanto
escritora deverei sempre imenso à minha professora de português do secundário
(Maria Luísa Pinto) pelo apoio e incentivo, mas também (embora não
exclusivamente) a Maria da Luz Santos e Maria Fernanda Tapada, porque no início
me foram ladeando a entrada neste meio e a Manuel Alberto Valente que agora me
introduz em realidades literárias que desconhecia ou a que não tinha acesso.
M.L: Que balanço faz da sua carreira?
I.B: Os balanços parecem-me
um pouco prematuros até porque os associo mais a um final de carreira e espero,
preciso de estar apenas no início. Em todo o caso agrada-me o caminho até aqui.
Tem aspectos extraordinários e evita a perfeição que sempre me pareceu monótona
e enfadonha, uma porta demasiado escancarada para a estagnação que quero evitar
a todo o custo.
M.L: Quais são os seus próximos projectos?
I.B: Neste momento (por
circunstâncias várias), tudo prossegue a um ritmo mais vagaroso do que
tencionava. Ainda assim, os projectos mais imediatos são terminar o mestrado e
o livro em que me encontro a trabalhar há já algum tempo. E tenho dois ou três
contos que gostaria de escrever nos próximos meses. De resto, continuo a
acumular uma panóplia de ideias e possibilidades de viabilidade imprecisa.
M.L: Qual é a coisa que gostava de fazer e não tenha
feito ainda?
I.B: Demasiadas. Pretendo
viajar para lugares que ainda não se proporcionaram: da Rússia à Irlanda, ao
Egipto, ao Peru, ao México, à Islândia e também viver uns meses num quotidiano
diferente. Adoraria aventurar-me pelo teatro e o cinema, talvez até regressar a
um contacto mais directo com a música. Principalmente, quero experiências
diversas, enriquecedoras, estimulantes, que me desafiem e permitam desenvolver.
M.L: O que é que gostava que mudasse nesta altura da
sua vida?
I.B: Nada, embora não me
importasse de viver numa conjectura política e económica mais humanas.
M.L: Se não fosse a Inês Botelho, qual era a escritora
que gostava de ter sido?
I.B: Admiro várias escritoras: Maria Teresa Horta,
Natália Correia, Clarice Lispector, Angela Carter, Flannery O'Connor, Virginia
Woolf, tantas outras. No entanto, não desejaria encarnar qualquer delas.
Prefiro sempre ser apenas eu com as minhas virtudes e imensos defeitos.ML
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